Podem existir outras 36 civilizações inteligentes na Via Láctea
Existem outras civilizações comparáveis à nossa, dentro dos limites da nossa galáxia, a Via Láctea? É provável que sim, segundo a teoria das probabilidades. E elas nem sequer seriam poucas
Alguns acreditam que a vida na Terra constitua uma circunstância incrivelmente afortunada e que provavelmente estejamos sós no universo. Outros estão certos de que nós não somos uma exceção, e que aquilo que nos separa de outras civilizações inteligentes são apenas problemas de comunicação. Há pouco, mais precisamente no dia 15 deste mês de junho, um estudo publicado no site científico Astrophysical Journal lança a hipótese de que as comunidades extraterrestres capazes de estabelecer contato com as outras – incluindo a nossa – sejam pouco mais de trinta apenas no âmbito da Via Láctea. Este é um número bastante compreensível pelo cérebro humano.
No Cosmos, como na Terra
Análises exaustivas baseadas na teoria matemática das probabilidades demonstram que, mesmo que nossa existência fosse o resultado de uma série de coincidências muito raras, o número exorbitante de estrelas e planetas habitáveis na nossa galáxia leva a pensar que realmente existam outras civilizações evoluídas. Mas então, onde elas estão? Fazer uma ideia do número desses possíveis “vizinhos” sempre foi uma tarefa muito difícil, e por isso Christopher Conselice, astrofísico da Universidade de Nottingham (Reino Unido) decidiu enfrentar o problema observando como aconteceram as coisas aqui mesmo, na Terra.
Explica Conselice: “Na nossa galáxia deveriam existir pelo menos algumas dúzias de civilizações ativas, assumindo que são necessários 5 bilhões de anos para que se forme vida inteligente sobre um planeta, como é o caso da Terra. A ideia é a de observar a evolução, mas numa escala cósmica. Chamamos este tipo de cálculo de “astrobiológico copernicano”.
Parte-se das poucas certezas que temos, ou seja que, na Terra, uma civilização inteligente e avançada formou-se depois de 5 bilhões de anos. E que tudo, das reações químicas da “sopa primordial” à formação estelar, aconteça se e quando existam as condições que o permitam. “Se a vida inteligente se forma a partir e seguindo um critério científico e não em modo único e casual, então a vida deve surgir e se desenvolver decorridos alguns bilhões de anos como parte natural da evolução”, sustenta o cientista.
Como se chegou a esse número
Partindo desse pressuposto, os autores investigaram, com base em diversos cenários, a probabilidade do aparecimento de Communicating Extra-Terrestrial Intelligent civilisations (na sigla CETI, em inglês), em português “civilizações inteligentes extraterrestres comunicantes”. Ou seja, civilizações capazes de enviar sinais inteligíveis através do espaço. O primeiro cenário prevê que a vida inteligente tenha surgido em todos os lugares em que isso fosse possível – sobre planetas rochosos situados nas zonas habitáveis de estrelas com a idade justa e com a distribuição justa de elementos metálicos – e que tenha durado durante a inteira duração da estrela “mãe”. Esse critério generoso fornece, no entanto, uma estimativa bem pouco útil para nós: algumas dezenas de bilhões de habitats potenciais.
O segundo cenário – mais circunscrito – prevê que, da mesma forma que aconteceu na Terra, a vida se forme entre 4,5 e 5,5 bilhões de anos depois do nascimento da estrela mãe. Surpreendentemente esse filtro parece reduzir as probabilidades a um número compreendido entre 4 e 211 as possíveis civilizações no interior da Via Láctea capazes de se comunicar com as outras. E nesse intervalo parece emergir da série o número 36. Trata-se de uma estimativa, é claro, e bastante prudente e conservadora, para começar porque se baseia no fato de que nossa civilização se tornou capaz de mandar sinais inteligentes ao espaço há apenas cerca de cem anos.
“Sinais de fumaça” através da Via Láctea
Assim sendo, por que nenhum desses 36 hipotéticos interlocutores nunca entrou em contato conosco? Provavelmente, por causa das imensas distâncias que nos separam. Colocando 3 ou 4 dezenas de civilizações desenvolvidas em cada meandro da Via Láctea dr chega a uma distância média de 17 mil anos luz entre cada uma delas. Sinais como as ondas de rádio podem viajar ao máximo na velocidade da luz. Os primeiros sinais de rádio enviados ao espaço em 1895 se encontram hoje há apenas 125 anos-luz da Terra – e desde que não tenham sido atenuados ao ponto de se tornarem imperceptíveis.
Civilizações evoluídas o bastante para enviar “sinais de fumaça” na Via Láctea precisam, assim sendo, resistir à extinção por um tempo suficiente para que sejam alcançadas, e isso é válido também para nós. Se não conseguirmos sobreviver e manter nossos conhecimentos tecnológicos pelos próximos 17 mil anos, podemos tirar da cabeça qualquer possibilidade de diálogo intergaláctico.
Se, no entanto, alguma mensagem chegasse até nós, isso significaria um sinal encorajador de que uma civilização inteligente e comunicativa pode durar por mais de algumas centenas de séculos. Assim sendo, prosseguir na busca de vida extraterrestre significa, em um certo sentido, buscar respostas a respeito do destino da civilização humana. Se outros conseguiram isso, por que não o conseguiremos também nós?
Edgar Morin. “Esta crise nos interroga sobre as nossas verdadeiras necessidades”
Em uma entrevista ao jornalLe Monde, o sociólogo e filósofo considera que a corrida pela rentabilidade, assim como as carências do nosso modo de pensar, são responsáveis por inúmeros desastres humanos causados pela pandemia da Covid-19. Na foto de abertura, Edgar Morin.
Entrevista com o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin.Entrevistador: Nicolas Truong.Publicação original: Le Monde, em 20 de abril de 2020.Fonte: ihu.unisinos.br, tradução de Moisés Sbardelotto
Nascido em 1921, ex-combatente da Resistência, sociólogo e filósofo, pensador transdisciplinar e indisciplinado, doutor honoris causa de 34 universidades em todo o mundo, o quase centenário Edgar Morin, desde o dia 17 de março, está confinado no seu apartamento em Montpellier, na companhia da sua esposa, a socióloga Sabah Abouessalam.
É da Rua Jean-Jacques Rousseau, onde reside, que o autor de “La Voie” (2011) e de “Terra-Pátria” (1933), que publicou recentemente “Les souvenirs viennent à ma rencontre” (Ed. Fayard, 2019), obra de mais de 700 páginas nas quais o intelectual recorda as histórias, os encontros e os “magnetismos” mais fortes da sua existência, redefine um novo contrato social, entrega-se a algumas confissões e analisa uma crise global que o “estimula enormemente”.
O filósofo Edgar Morin e sua esposa Sabah Abouessalam
Eis a entrevista:
A pandemia devido a essa forma de coronavírus era previsível?
Todas as futurologias do século 20 que previram o futuro ao transportar para o futuro as correntes que atravessam o presente entraram em colapso. No entanto, continuamos prevendo 2025 e 2050, enquanto somos incapazes de compreender 2020. A experiência das irrupções do imprevisto na história ainda não penetrou nas consciências. Ora, a chegada de um imprevisível era previsível, mas não sua natureza. Daí a minha máxima permanente: “Espere o inesperado”.
Além disso, eu era daquela minoria que previu catástrofes em cadeia provocadas pelo desencadeamento descontrolado da mundialização tecno-econômica, incluindo as decorrentes da degradação da biosfera e da degradação das sociedades. Mas eu absolutamente nunca previ a catástrofe viral.
Houve, no entanto, um profeta dessa catástrofe: Bill Gates, em uma conferência de abril de 2012, anunciando que o perigo imediato para a humanidade não era nuclear, mas sim sanitário. Ele havia visto na epidemia do Ebola, que pôde ser rapidamente controlada por acaso, o anúncio do perigo global de um possível vírus com forte poder de contaminação, expôs as medidas de prevenção necessárias, incluindo um equipamento hospitalar adequado. Mas, apesar dessa advertência pública, nada foi feito nos Estados Unidos nem alhures. Pois o conforto intelectual e o hábito têm horror das mensagens que os incomodam.
Como explicar o despreparo francês?
Em muitos países, incluindo a França, a estratégia econômica just-in-time, substituindo a da estocagem, deixou nosso sistema de saúde desprovido de máscaras, de instrumentos de testes, de aparelhos respiratórios; isso, junto com a doutrina liberal que comercializa os hospitais e reduz seus recursos, contribuiu para o curso catastrófico da epidemia.
Em que tipo de imprevisto essa crise nos coloca?
Essa epidemia nos traz um festival de incertezas. Nós não temos certeza sobre a origem do vírus: mercado insalubre de Wuhan ou laboratório vizinho, ainda não sabemos as mutações que o vírus sofre ou poderá sofrer durante a sua propagação. Não sabemos quando a epidemia regredirá e se o vírus permanecerá endêmico. Não sabemos até quando e até que ponto o confinamento nos fará sofrer impedimentos, restrições, racionamentos. Não sabemos quais serão as consequências políticas, econômicas, nacionais e planetárias das restrições trazidas pelos confinamentos. Não sabemos se devemos esperar o pior, o melhor, uma mistura dos dois: estamos indo rumo a novas incertezas.
Essa crise sanitária planetária é uma crise da complexidade?
Os conhecimentos se multiplicam exponencialmente, de repente, transbordam a nossa capacidade de nos apropriarmos deles e, acima de tudo, lançam o desafio da complexidade: como confrontar, selecionar, organizar adequadamente esses conhecimentos, conectando-os e integrando a incerteza. Para mim, isso revela mais uma vez a carência do modo de conhecimento que nos foi inculcado, que nos faz separar aquilo que é inseparável e reduzir a um único elemento aquilo que forma um todo ao mesmo tempo uno e diverso. Com efeito, a revelação fulgurante das convulsões que sofremos é que tudo o que parecia separado está ligado, pois uma catástrofe sanitária catastrofiza em cadeia a totalidade de tudo o que é humano.
É trágico que o pensamento disjuntivo e redutivo reine supremo em nossa civilização e detenha o comando da política e da economia. Essa formidável carência conduziu a erros de diagnóstico, de prevenção, assim como a decisões aberrantes. Eu acrescento que a obsessão pela lucratividade entre nossos dominantes e dirigentes levou a economias culpadas, como nos hospitais, e ao abandono da produção de máscaras na França. Na minha opinião, as carências no modo de pensar, combinadas com o domínio incontestável de uma sede frenética de lucro, são responsáveis por inúmeros desastres humanos, incluindo aqueles ocorridos desde fevereiro de 2020.
Tínhamos uma visão unitária da ciência. No entanto, multiplicam-se em seu interior os debates epidemiológicos e as controvérsias terapêuticas. A ciência biomédica se tornou um novo campo de batalha?
É mais do que legítimo que a ciência seja convocada pelo poder para lutar contra a epidemia. Porém, os cidadãos, inicialmente tranquilizados, sobretudo por ocasião do remédio do professor Raoult (cloroquina e hidroxicloroquina), descobrem em seguida opiniões diferentes e até contrárias. Cidadãos mais bem informados descobrem que certos grandes cientistas têm relações de interesse com a indústria farmacêutica, cujos lobbies são poderosos junto a ministérios e à mídia, capazes de inspirar campanhas para ridicularizar as ideias não conformes.
Lembremo-nos do professor Montaigner, que, contra pontífices e mandarins da ciência, foi, com alguns outros, o descobridor do HIV, o vírus da Aids. Essa é a oportunidade para compreender que a ciência não é um repertório de verdades absolutas (ao contrário da religião), mas que as suas teorias são biodegradáveis sob o efeito de novas descobertas. As teorias aceitas tendem a se tornar dogmáticas nas cúpulas acadêmicas, e os desviantes, de Pasteur e Einstein, passando por Darwin, e Crick e Watson, os descobridores da dupla hélice do DNA, são os que fazem as ciências progredirem. É que as controvérsias, longe de serem anomalias, são necessárias para esse progresso. Mais uma vez, no desconhecido, tudo progride por tentativa e erro, assim como por inovações desviantes inicialmente incompreendidas e rejeitadas. Essa é a aventura terapêutica contra os vírus. Os remédios podem aparecer onde menos eram esperados.
A ciência é devastada pela hiperespecialização, que é o fechamento e a compartimentalização dos saberes especializados, em vez da sua comunicação. E são sobretudo pesquisadores independentes que estabeleceram desde o início da epidemia uma cooperação, que agora se alarga entre infectologistas e médicos do planeta. A ciência vive de comunicações, toda censura a bloqueia. Portanto, devemos ver as grandezas da ciência contemporânea ao mesmo tempo que as suas fraquezas.
Em que medida podemos tirar proveito da crise?
Em meu ensaio “Sur la crise” (Ed. Flammarion), tentei mostrar que uma crise, além da desestabilização e da incerteza que traz, se manifesta pelo fracasso das regulações de um sistema que, para manter sua estabilidade, inibe ou reprime os desvios (feedback negativo). Deixando de ser reprimidos, esses desvios (feedback positivo) tornam-se tendências ativas que, se se desenvolverem, ameaçam cada vez mais desregular e bloquear o sistema em crise. Nos sistemas vivos e especialmente sociais, o desenvolvimento vitorioso dos desvios que se tornaram tendências levará a transformações, regressivas ou progressivas, até mesmo a uma revolução.
A crise em uma sociedade suscita dois processos contraditórios. O primeiro estimula a imaginação e a criatividade na busca de soluções novas. O segundo é a busca de um retorno a uma estabilidade passada ou a adesão a uma salvação providencial, assim como a denúncia ou a imolação de um culpado. Esse culpado pode ter cometido os erros que provocaram a crise ou pode ser um culpado imaginário, bode expiatório que deve ser eliminado.
Com efeito, ideias desviantes e marginalizadas estão se espalhando confusamente: retorno à soberania, Estado de bem-estar social, defesa dos serviços públicos contra as privatizações, relocalizações, desmundialização, antineoliberalismo, necessidade de uma nova política. Personalidades e ideologias são identificadas como culpadas.
E também vemos, na carência dos poderes públicos, uma profusão de imaginações solidárias: produção alternativa à falta de máscaras por empresas reconvertidas ou confecção artesanal, reagrupamento de produtores locais, entregas gratuitas em domicílio, ajuda mútua entre vizinhos, refeições gratuitas para sem-teto, creches; além disso, o confinamento estimula as capacidades auto-organizadoras para remediar através da leitura, da música, dos filmes a perda de liberdade de movimento. Assim, autonomia e inventividade são estimuladas pela crise.
Estamos assistindo a uma verdadeira tomada de consciência da era planetária?
Espero que a excepcional e mortífera epidemia que estamos vivendo nos dê a consciência não apenas de que somos conduzidos para o interior da incrível aventura da Humanidade, mas também de que vivemos em um mundo ao mesmo tempo incerto e trágico. A convicção de que a livre concorrência e o crescimento econômico são panaceias sociais universais escamoteia a tragédia da história humana que essa convicção agrava.
A loucura eufórica do trans-humanismo leva ao paroxismo o mito da necessidade histórica do progresso e do domínio do homem não apenas sobre a natureza, mas também sobre o seu destino, ao prever que o homem terá acesso à imortalidade e controlará tudo pela inteligência artificial. Ora, nós somos jogadores/jogados, possuidores/possuídos, poderosos/fracos. Se podemos atrasar a morte por envelhecimento, jamais poderemos eliminar os acidentes fatais em que nossos corpos serão esmagados, jamais poderemos nos livrar das bactérias e dos vírus que se automodificam sem cessar para resistir aos remédios, antibióticos, antivirais, vacinas.
A pandemia não acentuou a reclusão doméstica e o fechamento geopolítico?
A epidemia global do vírus desencadeou e, entre nós, agravou terrivelmente uma crise sanitária que provocou os confinamentos que sufocam a economia, transformando um modo de vida extrovertido em uma introversão para dentro de casa e colocando em uma crise violenta a mundialização. Esta havia criado uma interdependência, mas sem que ela fosse acompanhada de solidariedade. Pior, ela provocou, em reação, confinamentos étnicos, nacionais, religiosos que se agravaram nas primeiras décadas deste século.
Desde então, na ausência de instituições internacionais e até europeias capazes de reagir com uma solidariedade de ação, os Estados nacionais se voltaram para si mesmos. A República Tcheca até reteve máscaras destinadas à Itália, e os Estados Unidos conseguiram desviar para si mesmos um estoque de máscaras chinesas inicialmente destinadas à França. A crise da saúde, portanto, desencadeou uma engrenagem de crises que se concatenaram. Essa policrise ou megacrise se estende do existencial ao político, passando pela economia, do individual ao planetário, passando pelas famílias, regiões, Estados. Em suma, um minúsculo vírus em um vilarejo ignorado na China desencadeou a perturbação de um mundo.
Quais são os contornos dessa deflagração mundial?
Como crise planetária, ela coloca em destaque a comunidade de destino de todos os humanos, ligada inseparavelmente com o destino bioecológico do planeta Terra. Ela intensifica simultaneamente a crise de humanidade que não consegue se constituir em humanidade. Como crise econômica, ela abala todos os dogmas que governam a economia e ameaça se agravar em caos e penúrias no nosso futuro. Como crise nacional, ela revela as carências de uma política que favoreceu o capital em detrimento do trabalho, sacrificando a prevenção e a precaução para aumentar a rentabilidade e a competitividade. Como crise social, ela traz à tona cruamente as desigualdades entre aqueles que vivem em pequenas habitações povoadas de crianças e pais, e aqueles que puderam fugir para a sua segunda residência no campo.
Como crise civilizacional, ela nos leva a perceber as carências em termos de solidariedade e a intoxicação consumista que a nossa civilização desenvolveu; e nos pede que reflitamos sobre uma política de civilização (“Une politique de civilisation”, com Sami Naïr, Ed. Arléa, 1997). Como crise intelectual, ela deveria nos revelar o enorme buraco negro na nossa inteligência, que torna invisíveis para nós as evidentes complexidades do real.
Como crise existencial, ela nos leva a nos interrogar sobre o nosso modo de vida, sobre as nossas verdadeiras necessidades, sobre as nossas verdadeiras aspirações mascaradas nas alienações da vida cotidiana, a diferenciar entre a diversão pascaliana que nos desvia das nossas verdades e a felicidade que encontramos na leitura, na escuta ou na visão de obras-primas que nos fazem encarar de frente o nosso destino humano. E, acima de tudo, ela deveria abrir os nossos espíritos, há muito tempo confinados ao imediato, ao secundário e ao frívolo, para o essencial: o amor e a amizade pela nossa realização individual, a comunidade e a solidariedade dos nossos “eu” convertidos em “nós”, o destino da Humanidade da qual cada um de nós é uma partícula. Em suma, o confinamento físico deveria favorecer o desconfinamento dos espíritos.
O que é o confinamento? E como o senhor o vive?
A experiência do confinamento domiciliar duradouro imposto a uma nação é uma experiência inédita. O confinamento do gueto de Varsóvia permitia que seus habitantes lá circulassem. Mas o confinamento do gueto preparava para a morte, e o nosso confinamento é uma defesa da vida.
Eu o suporto em condições privilegiadas, apartamento térreo com jardim, onde eu posso me alegrar ao sol com a chegada da primavera, muito protegido por Sabah, minha esposa, com vizinhos gentis que fazem as nossas compras, comunicando-me com meus próximos, meus afetos, meus amigos, solicitado pela imprensa, rádio ou televisão para dar o meu diagnóstico, o que pude fazer pelo Skype. Mas eu sei que, desde o início, as inumeráveis pessoas em moradias apertadas suportam mal a superlotação, que os solitários e principalmente os sem-teto são vítimas do confinamento.
Quais podem ser os efeitos do confinamento prolongado?
Eu sei que um confinamento prolongado será cada vez mais vivido como um impedimento. Os vídeos não podem substituir permanentemente as idas ao cinema, os tablets não podem substituir permanentemente as visitas às livrarias. Skype e Zoom não permitem o contato carnal, o tilintar do copo quando brindamos. A comida doméstica, mesmo excelente, não suprime o desejo de um restaurante. Os documentários não suprimem o desejo de ir aos lugares para ver as paisagens, as cidades e os museus, eles não tirarão o meu desejo de reencontrar a Itália e a Espanha. A redução ao indispensável também dá a sede do supérfluo.
Eu espero que a experiência do confinamento modere a inquietação compulsiva, a fuga para Bangcoc para trazer recordações para contá-las aos amigos. Eu espero que contribua para reduzir o consumismo, ou seja, a intoxicação consumista e a obediência à incitação publicitária, em prol de alimentos saudáveis e saborosos, de produtos duradouros e não descartáveis. Mas serão necessárias outras incitações e novas tomadas de consciência para que ocorra uma revolução nesse âmbito. No entanto, há a esperança de que a lenta evolução iniciada se acelere.
Na sua opinião, o que será aquilo que chamamos de “mundo do depois”?
Em primeiro lugar, o que guardaremos nós, cidadãos, o que guardarão os poderes públicos da experiência do confinamento? Apenas uma parte? Tudo será esquecido, anestesiado ou folclorizado? O que parece muito provável é que a propagação do digital, amplificado pelo confinamento (teletrabalho, teleconferências, Skype, usos intensivos da internet), continuará com seus aspectos ao mesmo tempo negativos e positivos, que não são o tema desta entrevista.
Vamos ao essencial. A saída do confinamento será o começo da saída da megacrise ou o seu agravamento? Boom ou depressão? Crise econômica enorme? Crise alimentar mundial? Continuação da mundialização ou recuo autárquico?
Qual será o futuro da mundialização?
O neoliberalismo abalado retomará o controle? As nações gigantes se oporão mais do que no passado? Os conflitos armados, mais ou menos atenuados pela crise, se exacerbarão? Haverá um ímpeto internacional para salvar a cooperação? Haverá algum progresso político, econômico, social, como ocorreu logo após a Segunda Guerra Mundial? O despertar da solidariedade provocado durante o confinamento se prolongará e se intensificará, não apenas para médicos e enfermeiras, mas também para os últimos da fila, os coletores de lixo, os estoquistas, os entregadores, os caixas, sem os quais não teríamos sido capazes de sobreviver, enquanto conseguimos sobreviver sem o Medef (Movimento das Empresas da França, na sigla em francês) e o CAC 40 (índice da Bolsa que reúne as 40 maiores empresas da França)?
As inúmeras e dispersas práticas de solidariedade de antes da epidemia serão amplificadas? As pessoas que saírem do confinamento retomarão o ciclo cronometrado, acelerado, egoísta, consumista? Ou haverá um novo apogeu da vida convivial e amorosa rumo a uma civilização em que a poesia da vida se desdobra, em que o “eu” desabrocha em um “nós”?
Não podemos saber se, após o confinamento, o comportamento e as ideias inovadoras retomarão o seu impulso, se revolucionarão a política e a economia, ou se a ordem abalada se restabelecerá.
Nós podemos temer fortemente a regressão geral que já estava em curso durante os primeiros 20 anos deste século (crise da democracia, corrupção e demagogia triunfantes, regimes neoautoritários, impulsos nacionalistas, xenófobos, racistas).
Todas essas regressões (e, na melhor das hipóteses, estagnações) são prováveis enquanto não aparecer a nova via político-ecológico-econômico-social guiada por um humanismo regenerado. Esta multiplicaria as verdadeiras reformas, que não são cortes no orçamento, mas sim reformas de civilização, de sociedade, ligadas a reformas de vida.
Ela associaria (como indiquei em “La Voie”) os termos contraditórios: “mundialização” (para tudo o que é cooperação) e “desmundialização” (para estabelecer uma autonomia alimentar e sanitária, e salvar os territórios da desertificação); “crescimento” (da economia dos bens essenciais, do durável, da agricultura familiar ou orgânica) e “decrescimento” (da economia do frívolo, do ilusório, do descartável); “desenvolvimento” (de tudo o que produz bem-estar, saúde, liberdade) e “envolvimento” (nas solidariedades comunitárias).
O senhor conhece as perguntas kantianas – O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o homem? –, que foram e continuam sendo as da sua vida. Que atitude ética devemos adotar diante do imprevisto?
O pós-epidemia será uma aventura incerta, em que se desenvolverão as forças do pior e as do melhor, sendo estas últimas ainda fracas e dispersas. Saibamos, enfim, que o pior não é certo, que o improvável pode advir, e que, no combate titânico e inextinguível entre os inimigos inseparáveis que são Eros e Thanatos, é saudável e enérgico ficar do lado de Eros.
Sua mãe, Luna, foi acometida da gripe espanhola. E o trauma pré-natal que abre o seu último livro tende a mostrar que isso lhe deu uma força vital, uma extraordinária capacidade de resistir à morte. O senhor ainda sente esse impulso vital no coração mesmo diante desta crise mundial?
A gripe espanhola deu à minha mãe uma lesão no coração e o conselho médico de não ter filhos. Ela tentou dois abortos, o segundo falhou, mas a criança nasceu quase asfixiada, estrangulada pelo cordão umbilical. Posso ter adquirido no útero as forças de resistência que permaneceram comigo a minha vida toda, mas só pude sobreviver com a ajuda de outros, o ginecologista que me deu tapas durante uma meia hora antes que eu lançasse o meu primeiro grito, depois a sorte durante a Resistência, o hospital (hepatite, tuberculose), Sabah, minha companheira e esposa. É verdade que o “impulso vital” não me abandonou; até aumentou durante a crise mundial. Toda crise me estimula, e esta, enorme, me estimula enormemente.
Os países europeus, devido ao forte impacto social e financeiro provocado pela Covid-19, já estão discutindo a possibilidade de adotar um outro paradigma de riqueza – que não seja o Produto Interno Bruto (PIB) – capaz de compor uma economia mais justa e solidária.
Vários especialistas estão projetando diversos cenários para o mundo pós-pandemia. E na Holanda isso tem sido levado realmente a sério. Um manifesto assinado por 170 acadêmicos holandeses aponta a necessidade de uma profunda reestruturação econômica baseada no decrescimento, cujo princípio é “prosperar em equilíbrio com o planeta”.
"Mudança do sistema, e não mudança do clima", diz o cartaz empunhado pelos manifestantes.
A prefeita de Amsterdã, Marieke van Doorninck, em entrevista para o jornal britânico The Guardian, explicou do que se trata o movimento:
“Imagino que tal modelo possa nos ajudar a superar os efeitos da atual crise. Pode parecer estranho estarmos falando de um período após isso. Mas, como governo, temos que fazer. Isso vai nos ajudar a não regressarmos para mecanismos fáceis”.
Os 5 pontos de um novo modelo
A Holanda parece querer se transformar numa espécie de laboratório para esse novo modelo econômico, que está baseado em cinco eixos de desenvolvimento pelo decrescimento:
Diferenciar entre setores que podem crescer e precisam de investimentos (setores públicos críticos, energias limpas, educação, saúde) e setores que devem decrescer radicalmente (petróleo, gás, mineração, publicidade, etc.).
Construir uma estrutura econômica baseada na redistribuição, constituída de: uma renda básica universal; um sistema universal de serviços públicos; um forte imposto sobre a renda, ao lucro e à riqueza; horários de trabalho reduzidos e trabalhos compartilhados, e que reconhece os trabalhos de cuidado.
Cultivar a agricultura regenerativa, que está focada na conservação da biodiversidade, na sustentabilidade e na produção local e vegetariana, melhorando as condições de emprego e salários mais justos.
Reduzir o consumo e as viagens, evitando, assim, viagens desnecessárias e de luxo.
Cancelar a dívida, especialmente de trabalhadores e donos de pequenos negócios, bem como dos países do Sul Global, que são devedores de instituições financeiras internacionais.
Parece que a Holanda será um bom lugar para se viver! Tomara que dê certo esse projeto de uma sociedade mais justa, na qual os seres humanos e o planeta são respeitados.
(*)Gisella Meneguelli.É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.
União Europeia quer obrigar os grandes da Internet a lançar medidas severas contra as notícias falsas
A União Europeia quer que os grandes da mídia social sejam mais transparentes sobre ações concretas para combater as notícias falsas. A desinformação digital é um grande perigo para a sociedade. Por isso a UE convida os grandes atores da rede a tomar ações concretas de modo a acabar com a festa dos sites fraudulentos.
“A desinformação, em época de coronavirus, pode matar. E o faz”. São palavras duríssimas pronunciadas por Josep Borrel, chefe da política exterior da União Europeia, endereçadas ao Facebook, Google, Twitter e os demais grandes da rede.
Em entrevista coletiva concedida há poucos dias, esse diretor da EU, junto à sua colega Vera Jourová, vice-presidente da área de valores e transparência, convidou as grandes empresas norte-americanas que controlam as notícias veiculadas na Internet a produzir um relatório mensal a respeito do fenômeno cada vez mais avassalador das fake news.
Dados concretos
Borrel e Jourovà demandam uma documentação periódica e pontual que explica, em detalhe, como os diversos serviços online estão enfrentando a luta contra a desinformação, com quais tecnologias e os respectivos resultados.
Como reconhecer uma fake news
Estas são as regras da IFLA (International Federation Library Association and Institution) para reconhecer as notícias falsas, tanto as online quanto as demais:
Considerar e verificar a fonte. Clicar fora da notícia (no buscador do Google ou de outros motores de pesquisa), e averiguar tudo que for possível sobre o site emissor da notícia, os seus objetivos e interesses, e checar as suas informações para contato.
Verificar o autor da notícia. Fazer uma pesquisa sobre o autor. Quem é ele? Trata-se de um personagem real e plausível?
Verificar a data da notícia. As notícias velhas novamente postadas e compartilhadas não são forçosamente relevantes para o momento atual.
Verifique os seus preconceitos. Procure avaliar com sinceridade se as suas próprias crenças e convicções estão influenciando o seu discernimento e a sua capacidade de julgar o conteúdo da notícia.
Aprofundar a veracidade da notícia. Os títulos e a forma de apresentar a notícia podem ter sido exagerados para atrair mais cliques dos leitores. Qual é a verdade contida na narrativa da notícia?
Fontes que corroboram e avalizam a informação. Clique nesses links. Verifique se os dados apresentados corroboram e confirmam a exatidão da notícia.
Trata-se de uma piada ou brincadeira? As notícias demasiado extravagantes podem muito bem ser uma sátira ou uma mentira. Faça uma pesquisa sobre a fonte e sobre o autor.
Peça ajuda aos especialistas. Consulte um bibliotecário, ou um jornalista, ou consulte um dos vários sites que hoje se dedicam à verificação dos fatos noticiados. Aqui vão, a título de sugestão, alguns links de sites brasileiros que se dedicam à verificação de notícias falsas: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/ , https://g1.globo.com/fato-ou-fake/ , https://apublica.org/ , https://www.e-farsas.com/ , http://nilc-fakenews.herokuapp.com/
O objetivo da iniciativa europeia é reunir todas as forças disponíveis entre os países e os mais importantes atores do mercado da informação digital, e deslanchar um esforço comum e público para o combate às fake news e aos que a praticam.
Segundo os dois representantes da União Europeia, esses relatórios deverão indicar com clareza a quantidade e a proveniência das notícias falsas divulgadas nos diversos serviços online, bem como os investimentos em publicidade que são feitos para difundi-las, e também todas as iniciativas deslanchadas para bloquear essas fontes espúrias de notícias inverídicas e/ou distorcidas.
A ideia, em resumo, é obrigar – e para isso a EU está disposta a lançar mão de todos os recursos e ferramentas possíveis – os grandes operadores da Internet – Google e Facebook à frente de todos – a assumir as próprias responsabilidades, já que são eles os gestores das plataformas que contribuem majoritariamente para a difusão de informações falsas.
“A desinformação pode influir negativamente sobre a economia e enfraquecer as ações das autoridades públicas em todas as áreas-chave do mundo contemporâneo, tais como, por exemplo, as áreas da saúde e da prevenção”, explica Vera Jourovà.
Recentemente, entre os anos 2018 e 2019, as mais importantes plataformas online, entre as quais Google, Facebook, Twitter, Mozilla, Microsoft, TikTok e outras já entraram em um acordo para a implementação de um código de conduta pelo qual elas se empenham, entre várias outras coisas, a não monetizar as contas que difundem notícias faltas. Apesar disso, como os resultados ainda são pequenos, os países europeus acham que medidas bem mais fortes terão de ser adotadas contra a praga das fake news.