investigação realizada pelo Pr. Psi. Jor Jônatas David Brandão Mota
Dia1 DEUS MANDANDO CONQUISTAR
Dia2 A TERRA COMO POSSE DIVINA
3. A GUERRA EM NOME DE DEUS
O livro apresenta guerras de Israel como parte de seu projeto religioso. Essa associação entre guerra e vontade divina é uma das questões mais difíceis do texto. Jesus, porém, não construiu seu Reino pela espada. Quando seus discípulos quiseram recorrer à violência, ele rejeitou esse caminho. Portanto, podemos compreender a sacralização da guerra em Josué como um acréscimo humano, nascido de uma época em que vitória militar e aprovação divina eram frequentemente consideradas inseparáveis.
4. JERICÓ ENTREGADA PARA DESTRUIÇÃO
Em Josué 6, Jericó é conquistada depois de uma intervenção atribuída diretamente a Deus. A narrativa culmina na destruição da cidade. A leitura a partir de Jesus cria uma profunda tensão: o Deus revelado por Cristo não precisa da destruição de uma população para demonstrar sua soberania. Jesus vence não eliminando adversários, mas transformando pessoas. Assim, a interpretação de uma vitória militar como ação destrutiva de Deus pode ser vista como elaboração humana sobre um acontecimento de guerra.
5. O “ANÁTEMA” DE JERICÓ
Josué 6 apresenta o conceito de ḥerem, pelo qual aquilo que foi colocado sob destruição deveria ser eliminado. É especialmente difícil conciliar esse conceito com Jesus. O Cristo que perdoa, acolhe e restaura não apresenta pessoas como objetos destinados à destruição religiosa. Portanto, o ḥerem pode ser compreendido como expressão de uma teologia antiga de guerra santa, posteriormente atribuída ao próprio Deus. O problema não está apenas na violência, mas em declarar que Deus a ordenou.
6. A MORTE DE HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS
Josué 6:21 afirma que os habitantes de Jericó foram mortos, incluindo diferentes grupos da população. Essa é uma das situações mais incompatíveis com a revelação de Deus em Jesus. Jesus acolhe crianças, protege os vulneráveis e ensina misericórdia. Não encontramos nele uma ordem para exterminar populações inteiras. Assim, uma leitura cristocêntrica pode considerar que a atribuição dessa matança a Deus representa o limite da compreensão humana acerca de Deus naquele contexto histórico.
7. A DESTRUIÇÃO DOS ANIMAIS
O relato de Jericó inclui também animais. Isso demonstra a amplitude do conceito de destruição total. Para a mentalidade antiga, eliminar completamente o inimigo podia significar demonstrar fidelidade religiosa. Porém, Jesus revela um Deus atento à vida e à criação. Não há em seus ensinamentos qualquer necessidade de destruir animais para satisfazer uma exigência divina. A atribuição dessa destruição a Deus pode ser entendida como parte da lógica humana da guerra santa.
8. ACÃ COMO RESPONSÁVEL PELA DERROTA
Em Josué 7, a derrota de Israel é interpretada como consequência do pecado de Acã. O texto estabelece uma relação direta entre a conduta individual e o resultado militar coletivo. A leitura cristocêntrica pode questionar essa compreensão. Jesus não ensina que Deus precisa punir uma comunidade militarmente porque uma pessoa transgrediu uma norma ritual. Trata-se de uma visão antiga de causalidade religiosa, na qual acontecimentos coletivos eram explicados como consequência direta da aprovação ou desaprovação divina.
9. A MORTE DE ACÃ E DE SUA FAMÍLIA
A narrativa termina com Acã, seus familiares e seus bens sendo destruídos. É uma das passagens mais difíceis de conciliar com o Deus revelado por Jesus. O princípio cristão de responsabilidade pessoal não combina facilmente com a destruição de pessoas relacionadas ao culpado. Jesus insiste na responsabilidade individual e na misericórdia. Assim, podemos compreender o episódio como uma narrativa que interpreta uma punição coletiva como ação divina, refletindo valores jurídicos e religiosos de sua época.
10. A PUNIÇÃO COMO SACRIFÍCIO RELIGIOSO
A morte de Acã não é apresentada apenas como execução judicial, mas inserida numa lógica de purificação da comunidade. Essa compreensão transforma a eliminação de uma pessoa em mecanismo para restaurar a relação do grupo com Deus. Jesus, entretanto, desloca a lógica religiosa da punição para a misericórdia, do sacrifício humano para o amor. Portanto, a ideia de que Deus necessita da morte de alguém para que a comunidade seja novamente aceita pode ser entendida como construção religiosa humana.
11. A DESTRUIÇÃO DE AI
Em Josué 8, Israel derrota Ai e mata sua população. O episódio é novamente apresentado como parte da estratégia concedida por Deus. A narrativa demonstra como a conquista militar é interpretada religiosamente. Entretanto, Jesus não oferece um modelo de expansão do Reino mediante exércitos. Seu Reino cresce pelo testemunho, serviço, amor e transformação. Por isso, podemos separar o acontecimento militar da interpretação teológica posterior: uma coisa é uma guerra ter acontecido; outra é concluir que Deus mandou matar.
12. A EMBOSCADA COMO ESTRATÉGIA DIVINA
Deus supostamente orienta Josué sobre como montar uma emboscada contra Ai. A inteligência militar é colocada dentro da categoria de revelação divina. A partir de Jesus, porém, precisamos perguntar se Deus realmente se manifesta como estrategista de batalhas. O Cristo apresentado nos Evangelhos não ensina seus seguidores a planejar emboscadas contra adversários. A atribuição da estratégia militar a Deus pode representar uma maneira antiga de interpretar o sucesso militar como intervenção sobrenatural.
13. A MORTE DOS HABITANTES DE AI
Depois da vitória, o texto relata a morte da população da cidade. Mais uma vez, Deus aparece como aquele que garante a vitória de Israel. O problema cristológico permanece: Jesus jamais autoriza seus discípulos a exterminarem comunidades adversárias. Portanto, podemos considerar a descrição da matança como uma leitura humana da guerra. O escritor vê Israel vencendo e interpreta essa vitória como resultado de uma ordem divina, embora a revelação posterior em Jesus coloque essa interpretação em profunda questão.
14. A MALDIÇÃO CONTRA QUEM RECONSTRUIR JERICÓ
Embora registrada mais diretamente em Josué 6:26, a fórmula de maldição contra quem reconstruísse Jericó representa uma mentalidade religiosa na qual a palavra de destruição permanece sobre gerações futuras. Jesus, porém, não ensina maldições hereditárias. Sua mensagem rompe ciclos de condenação e oferece possibilidade de recomeço. Assim, a ideia de uma maldição vinculada à cidade pode ser compreendida como construção religiosa humana, e não como expressão do caráter amoroso de Deus.
15. O ENGANO DOS GIBEONITAS
Em Josué 9, os gibeonitas enganam Israel para conseguir um acordo de paz. O episódio é interessante porque mostra que os próprios israelitas poderiam resolver conflitos por meio de um pacto. Entretanto, depois descobrem o engano e mantêm os gibeonitas vivos. A narrativa permite perceber que nem tudo precisava terminar em extermínio. A preservação da vida pode ser lida como um elemento mais próximo da ética que posteriormente será explicitada por Jesus.
16. A GUERRA PARA DEFENDER GIBEÃO
Josué 10 apresenta uma guerra envolvendo os gibeonitas. O conflito é novamente interpretado como ação de Deus em favor de Israel. Contudo, a leitura a partir de Jesus nos leva a perguntar se Deus realmente toma partido militar por um povo contra outro. Jesus relativiza radicalmente a lógica de “nós contra eles”. O Deus de Jesus não é uma divindade tribal que protege um grupo mediante a destruição de seus adversários.
17. AS PEDRAS DE GRANIZO ENVIADAS POR DEUS
Josué 10:11 atribui a Deus uma chuva de grandes pedras que mata inimigos de Israel. Aqui um fenômeno natural é interpretado como arma divina contra adversários. É compreensível dentro da cosmologia antiga, na qual fenômenos extraordinários eram diretamente relacionados à ação divina. A partir de Jesus, porém, podemos reconhecer a experiência religiosa sem necessariamente aceitar a interpretação violenta atribuída a Deus. O fenômeno pode ter ocorrido; sua interpretação como execução divina é outra questão.
18. O SOL PARADO PARA CONTINUAR A GUERRA
Josué 10:12-14 descreve o sol e a lua como se tivessem parado para que Israel pudesse continuar combatendo. O relato atribui diretamente esse acontecimento ao poder de Deus. Além da questão cosmológica, existe uma questão teológica: o milagre é colocado a serviço da guerra. A partir de Jesus, é possível questionar se Deus realizaria um prodígio para prolongar uma batalha destinada à morte de pessoas. O relato pode refletir uma antiga compreensão poética e religiosa da vitória militar.
19. DEUS LUTANDO PELO EXÉRCITO DE ISRAEL
Josué 10:14 afirma que Deus lutou por Israel. Essa frase sintetiza uma das principais teologias do livro: a vitória militar é prova da presença divina. Jesus, porém, desloca a presença de Deus da vitória militar para o amor. Deus não precisa derrotar um povo para provar que está com outro. Assim, “Deus lutou por Israel” pode ser compreendido como uma interpretação humana da vitória, típica de sociedades antigas que entendiam guerras como confrontos entre divindades.
20. OS CINCO REIS EXECUTADOS
Os cinco reis amorreus são capturados e executados em Josué 10. O texto interpreta a derrota deles como vitória concedida por Deus. Jesus, entretanto, apresenta outra forma de lidar com adversários: perdoar, amar e buscar reconciliação. A execução dos reis pode ser compreendida historicamente dentro da lógica de guerra do período, mas atribuí-la à vontade direta de Deus entra em conflito com o rosto de Deus revelado em Cristo.
21. A DESTRUIÇÃO DE MAQUEDA
Depois da captura dos reis, ocorre uma nova destruição. O padrão se repete: conquista, morte e atribuição da vitória a Deus. Essa repetição mostra que não estamos diante de um episódio isolado, mas de uma teologia da conquista. À luz de Jesus, podemos considerar que o escritor interpreta a expansão de Israel como ação divina porque essa era sua maneira de compreender a história. O acréscimo humano está na conclusão: “Deus mandou fazer isso”.
22. A DESTRUIÇÃO DE LIBNA
Josué 10 registra a tomada de Libna e a destruição de seus habitantes. O padrão de guerra santa continua. A narrativa apresenta a conquista como parte do cumprimento de uma promessa divina. Porém, Jesus nunca transforma a eliminação de uma população em sinal de fidelidade ao Pai. Portanto, podemos ler o episódio como testemunho de uma guerra antiga, mas rejeitar a conclusão teológica de que a violência exterminadora representava a vontade do Deus amoroso revelado em Jesus.
23. A DESTRUIÇÃO DE LÁQUIS
Láquis também é conquistada e destruída. O livro utiliza repetidamente a fórmula de vitória concedida por Deus. Essa repetição reforça a ideia de que Israel teria recebido autorização sobrenatural para eliminar seus adversários. Jesus, contudo, não ensina que Deus entrega cidades para serem destruídas por seus seguidores. A leitura cristocêntrica permite distinguir entre memória histórica de guerras e interpretação religiosa dessas guerras.
24. A DESTRUIÇÃO DE HEBROM
Hebrom aparece entre as cidades conquistadas por Israel. A população é destruída dentro do padrão do ḥerem. O problema teológico é novamente a associação entre Deus e extermínio. Jesus revela o Pai como aquele que busca o perdido, acolhe pecadores e oferece vida. Por isso, podemos considerar que a atribuição da destruição de Hebrom a uma ordem divina representa uma etapa humana da compreensão religiosa, ainda não compatível com a revelação plena encontrada em Jesus.
25. A DESTRUIÇÃO DE HAZOR
Josué 11 apresenta Hazor como alvo de destruição total. O texto chega a dizer que Josué queimou a cidade. A conquista é interpretada como cumprimento da ordem de Deus. Porém, a revelação de Jesus não apresenta Deus como comandante de campanhas destinadas à destruição de cidades. O episódio pode conservar memória de conflitos históricos importantes, mas sua interpretação como mandato divino pode ser considerada uma construção teológica posterior.
26. O EXTERMÍNIO DOS “INIMIGOS”
Josué 11:20 apresenta uma formulação especialmente forte: Deus teria endurecido o coração dos adversários para que entrassem em guerra contra Israel e fossem destruídos. Isso gera um problema ainda maior: Deus aparentemente provoca o comportamento que depois será usado como motivo para a destruição. À luz de Jesus, essa lógica é difícil de sustentar. O Deus revelado por Cristo não manipula pessoas para criar condições para sua própria condenação. Trata-se de uma possível elaboração humana sobre a guerra.
27. A IDEIA DE QUE “NADA RESTOU”
Em várias passagens de Josué aparece a linguagem de destruição total. Ela funciona literariamente para afirmar a vitória completa de Israel. Entretanto, textos antigos frequentemente utilizavam linguagem hiperbólica para descrever triunfos militares. Assim, mesmo no plano literário, não precisamos necessariamente compreender cada afirmação como relatório literal de extermínio absoluto. E, teologicamente, atribuir essa destruição completa a Deus entra em choque com Jesus, que não apresenta Deus como defensor da eliminação de povos.
28. DEUS DANDO ORDENS DE EXTERMÍNIO
O ponto central de muitos desses relatos é a fórmula “Deus ordenou”. Esse é talvez o maior problema teológico de Josué. Se simplesmente retirarmos Deus da equação, temos relatos de guerras humanas. Quando dizemos que Deus ordenou, transformamos a violência humana em violência sagrada. Jesus oferece um critério radicalmente diferente: “amai os vossos inimigos”. Por isso, quando uma ordem atribuída a Deus contradiz frontalmente Jesus, podemos classificá-la como Acréscimo Humano à compreensão da Revelação.
29. A DISTRIBUIÇÃO DA TERRA COMO RESULTADO DA CONQUISTA
Nos capítulos finais, a terra conquistada é repartida entre as tribos. O processo é apresentado como cumprimento da promessa divina. Entretanto, uma leitura cristocêntrica pode questionar a ideia de que Deus legitime a posse de uma terra porque outro povo foi militarmente removido dela. Jesus desloca a centralidade da promessa territorial para uma comunidade universal. O Reino de Deus não depende da expulsão de povos, fronteiras nacionais ou superioridade territorial de um grupo sobre outro.
30. A IDEIA DE QUE TUDO FOI ORDENADO POR DEUS
Josué termina reafirmando a aliança e a fidelidade de Israel. O grande desafio interpretativo está em separar aquilo que realmente pertence à revelação de Deus daquilo que o povo interpretou como revelação. O livro conserva valores importantes — coragem, fidelidade, responsabilidade, memória, compromisso e busca por Deus — mas também apresenta violência atribuída ao Senhor. À luz de Jesus, podemos dizer: não precisamos atribuir a Deus tudo aquilo que pessoas religiosas disseram que Deus mandou. Jesus é o critério para discernir o que corresponde ao Pai.
UM LAMENTO DIANTE DE DEUS
Durante muito tempo, eu acreditei que o Deus chamado por Moisés de YHWH — Javé ou Jeová, conforme as diferentes tradições de transliteração — era exatamente o mesmo Deus que Jesus viveu, anunciou e revelou. Eu li muitos textos antigos e, porque estavam dentro da Bíblia, atribuí diretamente ao Deus de amor aquilo que seus autores diziam que Deus havia mandado. Quando Josué afirma que Deus ordenou conquistas, guerras e destruições, eu aceitei essas palavras como se fossem a própria voz do Pai. Hoje, olhando para Jesus, sinto necessidade de pedir perdão ao Deus em quem creio, porque demorei a compreender que estar escrito na Bíblia não significa automaticamente que determinada compreensão humana de Deus corresponda plenamente ao próprio Deus. Jesus disse: “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9). E é justamente a partir desse Jesus que preciso reler aquilo que antes aceitei sem questionamento.
O DEUS QUE EU CONFUNDI COM A VIOLÊNCIA
Meu lamento nasce principalmente diante das páginas em que a violência é colocada diretamente na boca de Deus. Em Josué, encontramos a destruição de Jericó, o ḥerem — a ideia de destruição total — e relatos nos quais homens, mulheres, crianças e animais aparecem entre as vítimas (Josué 6:17-21). Em outros momentos, o texto afirma que Deus lutava por Israel (Josué 10:14) e que seus inimigos eram entregues para destruição. A própria tradição bíblica conhece essa linguagem de guerra santa, inclusive em Deuteronômio 20:16-18. Estudos de Susan Niditch mostram que a Bíblia hebraica preserva diferentes concepções de guerra e violência, inclusive textos nos quais se fala da aniquilação total do inimigo. Mas Jesus me obriga a fazer uma pergunta que durante muito tempo não tive coragem de fazer: pode ser verdadeiramente vontade do Pai aquilo que contradiz tão profundamente o Filho? Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44); ensinou a misericórdia (Lucas 6:36) e repreendeu seus discípulos quando quiseram resolver um conflito pela violência (Mateus 26:52; Lucas 9:54-55). Por isso, meu lamento não é contra Deus: é contra a imagem de Deus que eu mesmo aceitei.
JESUS COMO MEU CRITÉRIO
Hoje preciso confessar algo que talvez seja doloroso, mas também libertador: eu não quero mais usar Deus para justificar aquilo que Jesus não justificaria. Se Jesus é, para mim, a manifestação decisiva do caráter do Pai, então preciso levar a sério suas próprias palavras: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30) e “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9). O Deus que Jesus apresenta procura a ovelha perdida (Lucas 15:3-7), recebe pecadores (Lucas 15:1-2), perdoa seus algozes (Lucas 23:34) e ensina que a grandeza humana está no serviço, não no domínio sobre os outros (Marcos 10:42-45). Isso não elimina a Bíblia; ao contrário, convida-me a lê-la com maior responsabilidade. A crítica bíblica moderna também mostra que os textos bíblicos possuem diferentes autores, camadas, contextos históricos e perspectivas teológicas. John J. Collins, por exemplo, apresenta a Bíblia Hebraica dentro de uma abordagem histórico-crítica que considera seus problemas éticos e a responsabilidade do intérprete; Richard Elliott Friedman examina justamente a complexidade da formação e autoria das tradições bíblicas. Portanto, reconhecer a humanidade presente nos textos não significa abandonar Deus; pode significar abandonar a pretensão de que todas as palavras humanas sobre Deus sejam igualmente a voz de Deus.
PERDÃO POR TER CONFUNDIDO
Peço, portanto, perdão ao meu Deus. Não porque eu tenha deixado de amar a Bíblia, mas porque durante muito tempo amei a Bíblia de uma maneira que me impediu de ouvir Jesus. Peço perdão porque chamei de vontade divina aquilo que hoje não consigo conciliar com o amor que encontro no Cristo. Peço perdão porque pensei que defender Deus significava defender cada violência atribuída a Deus nas Escrituras. Peter Enns chama atenção justamente para o problema de uma leitura que procura proteger previamente a Escritura de suas dificuldades, em vez de permitir que o próprio texto seja enfrentado com honestidade. Bart D. Ehrman, por sua vez, chama atenção para contradições, diferentes perspectivas e processos de formação dos textos bíblicos. Assim, estes poemas não nascem de desprezo pela Bíblia, mas de uma espécie de arrependimento hermenêutico: lamento ter confundido a compreensão religiosa de antigos escritores com a revelação definitiva do Deus que reconheço em Jesus. Se alguma coisa em Josué contradiz radicalmente o amor, a misericórdia e o modo de viver de Jesus, prefiro questionar minha interpretação de Josué a acusar Jesus de estar errado sobre seu próprio Pai.
ENTRE A MEMÓRIA E A REVELAÇÃO
Esta série não pretende simplesmente dizer que “Josué é falso”, nem afirmar que possuímos uma explicação histórica definitiva para cada episódio. Ela assume uma posição teológica específica: o Jesus histórico e o Cristo revelado nos Evangelhos serão o critério máximo para discernir as imagens de Deus presentes nas Escrituras. Assim, quando Josué atribui a Deus uma ordem de extermínio, este projeto chamará isso de Acréscimo Humano: uma maneira pela qual seres humanos de determinada época compreenderam, interpretaram e registraram sua experiência religiosa. Isso não significa necessariamente que todos os acontecimentos narrados sejam inventados; significa que não precisamos aceitar automaticamente a interpretação teológica que acompanha a narrativa. Frank Moore Cross, ao estudar a formação da religião israelita, mostra a complexidade das continuidades e transformações entre as antigas tradições religiosas de Israel e seu ambiente cultural; Susan Niditch demonstra igualmente que não existe uma única concepção bíblica de guerra. É nessa fronteira entre memória humana, interpretação religiosa e revelação que nascerão os trinta poemas. E cada um deles será, antes de tudo, uma oração: “Senhor, perdoa-me por ter colocado em tua boca aquilo que não combina contigo.”
BIBLIOGRAFIA DE APOIO
- CROSS, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in the History of the Religion of Israel. Harvard University Press, 1973. Estudo clássico sobre o desenvolvimento da religião israelita e suas relações com o ambiente religioso do antigo Oriente Próximo.
- FRIEDMAN, Richard Elliott. Who Wrote the Bible?. Summit Books, 1987. Analisa a formação, autoria e diferentes fontes das tradições bíblicas.
- ALTER, Robert. The Art of Biblical Narrative. Basic Books, 1981. Importante estudo literário sobre as técnicas narrativas e a construção dos relatos bíblicos.
- NIDITCH, Susan. War in the Hebrew Bible: A Study in the Ethics of Violence. Oxford University Press, 1993. Estudo específico sobre guerra, violência, destruição e suas diferentes ideologias na Bíblia Hebraica.
- BORG, Marcus J. Meeting Jesus Again for the First Time. HarperSanFrancisco, 1994. Releitura de Jesus a partir de perspectivas históricas e teológicas contemporâneas.
- BRUEGGEMANN, Walter. Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute, Advocacy. Fortress Press, 1997. Explora a diversidade de testemunhos e perspectivas teológicas presentes no Antigo Testamento.
- COLLINS, John J. Introduction to the Hebrew Bible. Fortress Press, 2004. Introdução histórico-crítica à Bíblia Hebraica, incluindo questões literárias, históricas e éticas.
- EHRMAN, Bart D. Jesus, Interrupted: Revealing the Hidden Contradictions in the Bible (And Why We Don't Know About Them). HarperOne, 2009. Discute diferenças, tensões e perspectivas diversas dentro dos textos bíblicos.
- SEIBERT, Eric A. Disturbing Divine Behavior: Troubling Old Testament Images of God. Fortress Press, 2009. Examina criticamente imagens violentas e moralmente perturbadoras de Deus no Antigo Testamento.
- ENNS, Peter. The Bible Tells Me So: Why Defending Scripture Has Made Us Unable to Read It. HarperOne, 2014. Propõe uma abordagem que leva a sério as dificuldades históricas, literárias e teológicas encontradas na Bíblia.
(estrofe 1)
Disseram-me que a terra fora prometida,
E que Josué devia avançar;
Que a conquista era missão recebida,
E que o próprio Deus mandava lutar.
(estrofe 2)
Eu cri, sem perceber a diferença,
Que toda conquista vinha do Senhor;
Confundi promessa com licença,
E chamei de mandamento o que era ardor.
(estrofe 3)
Se uma fronteira era atravessada,
Eu via a mão divina a conduzir;
Não percebia a pergunta abandonada:
Que Deus precisa de alguém para ferir?
(estrofe 4)
Mas Jesus não fundou seu Reino em terras,
Nem fez de seus discípulos um batalhão;
Seu Reino não cresceu por meio de guerras,
Mas dentro do humano, pela transformação.
(refrão)
DEUS MANDANDO CONQUISTAR — NÃO!
Não é assim que Jesus revelou o Pai;
O amor é seu caminho, sua direção,
E onde Cristo está, a violência não prevalece nem vai.
(estrofe 5)
Jesus não disse: “Ide possuir nações”,
Nem prometeu territórios aos seus;
Mandou servir, curar os corações,
E anunciar o Reino do amor de Deus.
(estrofe 6)
O samaritano tornou-se o próximo,
Quando o estrangeiro deixou de ser rival;
Assim Jesus desmontou o olhar tóxico
Que fazia do outro um inimigo mortal.
(estrofe 7)
E quando penso em Josué marchando,
Com uma terra posta diante de si,
Vejo quanto tempo fiquei acreditando
Que conquistar alguém agradava a ti.
(refrão)
DEUS MANDANDO CONQUISTAR — NÃO!
Não é assim que Jesus revelou o Pai;
O amor é seu caminho, sua direção,
E onde Cristo está, a violência não prevalece nem vai.
(estrofe 8)
A terra pode tornar-se idolatria,
Quando o chão vale mais que o ser humano;
Foi assim que a fé pode perder a poesia
E transformar posse em projeto soberano.
(estrofe 9)
Eu devia ter lido com mais cuidado
A distância entre Josué e Jesus;
Um Deus que manda amar o desprezado
Não combina com conquista feita em cruz.
(estrofe 10)
Hoje devolvo a Deus minha certeza,
Que durante anos defendi com fervor;
Não quero atribuir à sua grandeza
Aquilo que não revela o seu amor.
(ponte)
Quanto eu falhei tentando te defender,
Fazendo tua bondade caber no meu passado;
Quis explicar teu nome sem compreender
Que talvez eu defendesse apenas o meu entendimento errado.
(refrão)
DEUS MANDANDO CONQUISTAR — NÃO!
Não é assim que Jesus revelou o Pai;
O amor é seu caminho, sua direção,
E onde Cristo está, a violência não prevalece nem vai.
(refrão final)
Agora eu descanso em Jesus, meu Senhor,
No Deus que jamais se separa do amor;
Se Cristo revela quem tu és, meu Deus,
Então teu amor também permanece em nós e nos céus.
EXPLICAÇÃO DO TEMA
A CONQUISTA INTERPRETADA COMO VONTADE DIVINA
O tema “Deus mandando conquistar” nasce da maneira como Josué 1 apresenta a entrada de Israel em Canaã. Deus diz a Josué: “Levanta-te, pois, agora, passa este Jordão” e promete a Israel a terra (Josué 1:2-6). Dentro da narrativa, portanto, não se trata simplesmente de uma iniciativa política de Josué: a conquista é apresentada como cumprimento de uma determinação divina. O problema surge quando essa concepção é colocada diante de Jesus. Nos Evangelhos, Jesus não recebe de Deus a missão de conquistar territórios, expulsar povos ou estabelecer fronteiras políticas. Quando Pilatos pergunta se ele é rei, Jesus afirma: “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36). Em vez de ensinar seus discípulos a dominar territórios, ele os envia a anunciar, servir, curar, perdoar e fazer discípulos (Mateus 28:19-20). A diferença é profunda: em Josué, a realização da promessa está associada à ocupação de um território; em Jesus, a expansão do Reino acontece pela transformação das pessoas. É como comparar dois mapas: num deles, a pergunta principal é “quem possui esta terra?”; no outro, é “como podemos amar estas pessoas?”. A leitura proposta nesta série não precisa negar que antigos israelitas tenham realmente vivido conflitos, deslocamentos e guerras; a questão é outra: precisamos aceitar que a interpretação religiosa desses acontecimentos — “Deus mandou conquistar” — seja necessariamente a revelação definitiva do caráter de Deus? Susan Niditch, em War in the Hebrew Bible, demonstra como diferentes tradições bíblicas desenvolveram diversas concepções sobre guerra e violência, enquanto John J. Collins, em Introduction to the Hebrew Bible, apresenta os textos dentro de seus contextos históricos e literários. Walter Brueggemann também chama atenção para a diversidade de testemunhos e disputas teológicas existentes no Antigo Testamento. Assim, chamar essa concepção de “Acréscimo Humano” significa reconhecer a possibilidade de que pessoas profundamente religiosas tenham interpretado sua história, suas vitórias, seus territórios e seus conflitos como manifestações diretas da vontade divina.
JESUS COMO CHAVE PARA RELER JOSUÉ
A segunda parte do tema é ainda mais pessoal: se Jesus é a revelação decisiva de Deus, então tudo aquilo que atribuímos a Deus precisa ser confrontado com Jesus. O próprio Evangelho de João coloca nos lábios de Jesus: “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9). Isso significa que não podemos simplesmente construir uma imagem de Deus a partir dos textos mais antigos e depois obrigar Jesus a caber dentro dela. O movimento pode ser justamente o contrário: olhar para Jesus e, a partir dele, reler as antigas imagens de Deus. Quando Jesus diz “amai os vossos inimigos” (Mateus 5:44), “sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (Lucas 6:36) e rejeita a proposta de seus discípulos de destruir uma aldeia samaritana (Lucas 9:51-56), ele apresenta uma concepção de Deus que não depende da eliminação do adversário. Quando Pedro usa a espada, Jesus ordena que ela seja guardada (Mateus 26:52). E quando está diante daqueles que o crucificam, sua resposta não é convocar uma vingança divina, mas pedir perdão para seus algozes (Lucas 23:34). Por isso, o poema assume uma posição de arrependimento hermenêutico: “Senhor, eu errei ao imaginar que toda palavra atribuída a ti nas antigas Escrituras precisava representar exatamente quem tu és”. Peter Enns, em The Bible Tells Me So, argumenta que levar a Bíblia a sério não exige negar suas dificuldades, tensões e diferenças de perspectiva; Eric A. Seibert, em Disturbing Divine Behavior, enfrenta precisamente as imagens violentas de Deus presentes em determinados textos do Antigo Testamento. Nesta perspectiva, dizer “DEUS MANDANDO CONQUISTAR — NÃO!” não significa afirmar que Josué não tenha importância, nem apagar sua tradição, nem desprezar a Bíblia. Significa colocar uma pergunta diante do texto: “Aquilo que o autor entendeu como ordem de Deus corresponde realmente ao Deus que Jesus chamou de Pai?” Se a resposta for negativa, o leitor cristão pode reconhecer a grandeza histórica e literária do texto sem transformar toda atribuição humana em revelação absoluta. O poema, então, torna-se uma oração de descanso: depois de tantos anos tentando defender uma imagem de Deus que precisava ser protegida contra as próprias palavras de Jesus, o narrador finalmente escolhe descansar no Cristo e confiar que o Deus que Jesus revela é, essencialmente, amor (1 João 4:8).
BIBLIOGRAFIA
- NIDITCH, Susan. War in the Hebrew Bible: A Study in the Ethics of Violence. Oxford University Press, 1993.
- BRUEGGEMANN, Walter. Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute, Advocacy. Fortress Press, 1997.
- COLLINS, John J. Introduction to the Hebrew Bible. Fortress Press, 2004.
- SEIBERT, Eric A. Disturbing Divine Behavior: Troubling Old Testament Images of God. Fortress Press, 2009.
- ENNS, Peter. The Bible Tells Me So: Why Defending Scripture Has Made Us Unable to Read It. HarperOne, 2014.
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Pr.Psi. Jônatas David Brandão Mota... pastorado4
teologia, direito, psicologia, jornalismo (serviço social)
(estrofe 1)
Disseram-me: “Esta terra Deus vos deu”,
E eu vi naquele chão um selo celestial;
Pensei que um território pertencesse a Deus
Somente por habitar um povo nacional.
(estrofe 2)
Confundi a promessa com escritura,
E o mapa transformei em revelação;
Não percebi que a fé pode criar moldura
Para justificar humana apropriação.
(estrofe 3)
A terra virou quase um documento,
Com fronteiras traçadas pela religião;
E quem estivesse fora daquele argumento
Parecia ocupar o lugar de um ladrão.
(estrofe 4)
Mas Jesus ampliou o horizonte humano,
E fez do próximo alguém a acolher;
Não ensinou a possuir o chão do outro,
Mas ensinou a servi-lo e a compreender.
(refrão)
A TERRA NÃO É POSSE DIVINA DE UM POVO!
Deus não transforma fronteiras em exclusão;
Em Jesus, cada ser humano tem valor novo,
E o amor não reconhece dono para a criação!
(estrofe 5)
“Meu povo” deixou de ser uma fronteira,
Quando Cristo abraçou quem vinha de além;
A mesa do Reino tornou-se verdadeira
Quando o estrangeiro também encontrou alguém.
(estrofe 6)
O mundo não cabe dentro de uma bandeira,
Nem Deus se aprisiona num pedaço de chão;
Sua presença não é propriedade brasileira,
Hebraica, romana ou de qualquer nação.
(estrofe 7)
Eu pensei que o solo pudesse ser sagrado
Porque alguém dizia: “Deus o entregou”;
Mas Jesus mostrou que o templo verdadeiro
É a vida humana que o amor restaurou.
(refrão)
A TERRA NÃO É POSSE DIVINA DE UM POVO!
Deus não transforma fronteiras em exclusão;
Em Jesus, cada ser humano tem valor novo,
E o amor não reconhece dono para a criação!
(estrofe 8)
Até o estrangeiro entrou na sua história,
Como aquele que também podia pertencer;
Jesus transformou a diferença em memória
De que ninguém nasceu destinado a perder.
(estrofe 9)
Se Deus é Pai, não pode haver irmãos
Com direito sagrado de excluir seus iguais;
Nenhum mapa deveria separar corações,
Nem fazer de fronteiras sentenças finais.
(estrofe 10)
Hoje olho a terra com outros olhos, Senhor,
Não como prêmio reservado a uma nação;
O chão é casa de todos, e a vida tem valor,
E ninguém possui teu mundo por concessão.
(ponte)
Quanto tempo defendi mapas como decretos,
Confundindo território com tua eternidade;
Fiz da geografia uma prova dos teus afetos,
Sem perceber a universalidade da tua bondade.
(refrão)
A TERRA NÃO É POSSE DIVINA DE UM POVO!
Deus não transforma fronteiras em exclusão;
Em Jesus, cada ser humano tem valor novo,
E o amor não reconhece dono para a criação!
(refrão final)
Agora descanso em Jesus, meu Salvador,
Nele encontro o Pai sem fronteira ou divisão;
Se Deus é amor, jamais será Senhor
De uma terra exclusiva contra outra criação.
EXPLICAÇÃO DO TEMA
A PROMESSA TRANSFORMADA EM POSSE
A expressão “a terra como posse divina” refere-se à maneira como a tradição de Josué apresenta Canaã como território concedido por Deus a Israel. Em Josué 1:2-6, a terra aparece como aquilo que Deus promete entregar ao povo; em Josué 23:5, Josué afirma que o Senhor expulsará os povos diante de Israel; e em Josué 24:13, a própria terra é apresentada como algo que Israel recebeu sem ter sido ele quem a cultivou. Dentro da lógica narrativa do livro, portanto, território, promessa e ação divina estão profundamente ligados. Essa concepção não surge isoladamente em Josué: ela possui raízes em tradições patriarcais como Gênesis 12:1-3, 15:18-21 e 17:8, e também no Deuteronômio. O problema aparece quando essa linguagem religiosa é transformada em uma espécie de título absoluto de propriedade, como se Deus tivesse concedido a um povo um direito permanente sobre determinada geografia e, consequentemente, autorizado a retirada de outros seres humanos daquele espaço. É como se uma experiência histórica de um povo fosse transformada em escritura universal assinada pelo próprio Deus. Walter Brueggemann, em The Land: Place as Gift, Promise, and Challenge in Biblical Faith, mostra que a terra ocupa lugar central na fé bíblica, mas também destaca que ela não deve ser reduzida simplesmente à propriedade: a relação com a terra envolve dom, responsabilidade, justiça e risco de perda. A própria Bíblia apresenta limites à posse: “A terra não será vendida em perpetuidade, porque a terra é minha” (Levítico 25:23). Isso é significativo: mesmo dentro da tradição israelita, o ser humano não aparece como proprietário absoluto da terra. O problema, então, não é apenas perguntar “de quem é a terra?”, mas “o que significa receber uma terra como dom?”. Uma leitura cristocêntrica acrescenta uma pergunta decisiva: se a terra pertence a Deus, como pode sua concessão servir para negar a dignidade de outros seres humanos criados por esse mesmo Deus? O Salmo 24:1 afirma: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém”. Essa afirmação pode ser lida de modo muito mais amplo do que uma autorização para um povo possuir outro povo: o planeta inteiro pertence ao Criador.
DE UMA TERRA PARTICULAR A UMA HUMANIDADE UNIVERSAL
Quando chegamos a Jesus, ocorre uma mudança extraordinariamente importante na maneira de pensar a pertença. Jesus não organiza seus discípulos em torno da conquista de uma geografia nacional. Ao contrário, sua mensagem rompe fronteiras sociais, religiosas e étnicas. Ele conversa com uma mulher samaritana (João 4:7-26), elogia a fé de um centurião romano (Mateus 8:5-13), conta justamente a história de um samaritano para explicar quem é o próximo (Lucas 10:25-37) e declara que muitos virão de diferentes lugares para participar do Reino de Deus (Mateus 8:11). Depois da ressurreição, a missão de seus discípulos é dirigida “a todas as nações” (Mateus 28:19), e em Atos 1:8 a expansão da mensagem percorre Jerusalém, Judeia, Samaria e até aos confins da terra. A imagem muda: a promessa já não pode ser compreendida simplesmente como privilégio geográfico de um grupo. Paulo levará essa universalização ainda mais longe ao afirmar que, em Cristo, “não há judeu nem grego” (Gálatas 3:28), e que todos são reconciliados em um mesmo corpo (Efésios 2:14-19). Isso não significa apagar a importância histórica de Israel, nem negar que a terra tenha enorme importância na Bíblia Hebraica. Significa perguntar se uma promessa territorial antiga pode continuar sendo utilizada como fundamento para exclusão humana quando o próprio Jesus amplia o horizonte da fraternidade. Nessa perspectiva, o poema não afirma simplesmente que “a terra não pertence a ninguém”; afirma algo mais profundo: nenhum ser humano pode transformar Deus em fiador de sua superioridade territorial sobre outro ser humano. A terra pode ser recebida como dádiva, mas a dádiva gera responsabilidade, não licença para dominar. A contribuição de Walter Brueggemann e de estudos histórico-críticos sobre a formação das tradições israelitas ajuda a perceber que a relação entre povo, terra, identidade e Deus passou por diferentes formulações ao longo da história bíblica. Assim, a frase “A TERRA COMO POSSE DIVINA” é deliberadamente confrontada pela perspectiva de Jesus: o Deus Pai não precisa de fronteiras para ser Deus, não precisa de exclusividade territorial para amar seu povo e não transforma mapas em medida do valor humano. Em Jesus, a grande propriedade divina deixa de ser uma faixa específica de território e passa a ser, simbolicamente, a própria humanidade que Deus deseja reconciliar.
BIBLIOGRAFIA
- BRUEGGEMANN, Walter. The Land: Place as Gift, Promise, and Challenge in Biblical Faith. Fortress Press, 1977.
- NIDITCH, Susan. War in the Hebrew Bible: A Study in the Ethics of Violence. Oxford University Press, 1993.
- COLLINS, John J. Introduction to the Hebrew Bible. Fortress Press, 2004.
- SEIBERT, Eric A. Disturbing Divine Behavior: Troubling Old Testament Images of God. Fortress Press, 2009.
- ENNS, Peter. The Bible Tells Me So: Why Defending Scripture Has Made Us Unable to Read It. HarperOne, 2014.
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