Para aprender a ser honesto e sincero com os outros, é necessário primeiro aprender a ser honesto e sincero consigo mesmo. Ter uma ideia clara do se quer. Nada pode resultar em tanta harmonia como a prática da comunicação transparente, quando conseguimos abandonar as máscaras, as carapaças, as falsidades, os medos e as condescendências.
Por: Equipe Oásis
A honestidade faz com que economizemos nosso tempo e, ao mesmo tempo, ela promove o saneamento das nossas relações com as outras pessoas. O uso adequado da honestidade e da integridade consigo mesmo – deixando bem claro o que se permite e o que não se permite, o que é certo e o que não é -, facilita a convivência e diminui a ocorrência de situações desconfortáveis e que nada têm de benéficas. Mas nem sempre é fácil demonstrar sinceridade e desenvolver a honestidade como modo de vida.
O sábio chinês Confúcio disse que a pessoa que é sincera e que sempre fala a verdade já construiu o seu caminho para o céu. No entanto, falando com sinceridade, quase todos nós fomos educados para agirmos e nos comportarmos “corretamente” em todas as circunstâncias. Esse condicionamento resvala com facilidade para o terreno da hipocrisia e da mentira. Para manter essa atenção e respeito pelos outros, e também por medo de sermos rejeitados pelos outros, muitas vezes dizemos pequenas e grandes mentiras.
Dizemos sim ao convite para participar de uma festa com nossos colegas da empresa, mesmo não tendo a menor vontade de lá estar, para não parecer que estamos esnobando a companhia dos colegas. Mantemos amizades que já expiraram emocionalmente há muitos anos, por medo de machucar as outras pessoas. Apoiamos nosso parceiro em algumas das suas decisões, mesmo sabendo que elas não são corretas. E fazemos isso para não quebrar as expectativas e os sonhos de um ente querido.
Diariamente, ocorrem muitas situações nas quais nos comportamos de modo um tanto mentiroso ou não completamente honestos. Mesmo que isso seja feito com boas intenções, a longo prazo tal comportamento pode dar lugar a situações que estão longe de serem benéficas. Ser sincero (mas sem cair na armadilha do sincericídio) deveria se tornar uma engrenagem recorrente em nosso próprio ser, de modo a construirmos uma realidade mais sadia para todos.
A coragem de ser honesto
Nada pode resultar em tanta harmonia como a prática da comunicação transparente, quando conseguimos abandonar as máscaras, as carapaças, as falsidades, os medos e as condescendências. Existem aqueles que se vangloriam de ser sempre corretos e respeitosos, quando na realidade são verdadeiros especialistas na arte da hipocrisia, manifestando sentimentos, comportamentos e ideias contrárias aquilo que realmente sentem.
Numerosos são os que percorrem o mundo destituídos de coragem. Os que pensam uma coisa e dizem outra, os que percebem e sentem uma realidade concreta e acabam se comportando de forma inversa àquilo que perceberam e sentiram. Viver numa situação de grande desacordo em termos de pensamentos, desejos, ações e comunicação gera um grande desconforto e, a longo prazo, pode levar a situações de grande infelicidade.
Vários estudos, tais como o que foi desenvolvido na Universidade do Sul da Dinamarca pelo Dr Stephen Rosenbaum, mostram isso claramente. A honestidade ser a norma na nossa sociedade. A sinceridade nos possibilita economizar custos de todos os tipos: emocionais, relacionais, profissionais, etc. Trata-se de um princípio de bem-estar para nós mesmos e para os outros. Mas como aplicar essa norma em nossas vidas, como começar a fazer bom uso dela? Aqui estão algumas chaves.
Começar sendo honesto consigo mesmo
Existem vozes interiores que reforçam nossos temores (diga isso ao seu chefe, ao seu amigo, ao seu pai, caso contrário eles vão se zangar com você). Existem defesas capazes de erguer verdadeiras barricadas para nos impedir de dizer e de fazer tudo aquilo que realmente queremos. Todos esses universos psicológicos internos nos impedem não apenas de ser autênticos, mas também entravam o nosso crescimento. Sejamos claros: quem deseja ser sincero com os outros, deve primeiro ser sincero consigo mesmo. Isso exige uma prática permanente de diálogo interno sincero e corajoso, no qual podemos nos questionar a respeito daquilo que queremos e daquilo de que precisamos.
A mentira e a desonestidade nos tornam prisioneiros do sofrimento
Ser honesto nos faz ganhar um tempo precioso. Evita, por exemplo, de consagrar tempo e esforços com pessoas, práticas e ações que não correspondem aos nossos reais desejos. Ou aos nossos valores. Se pudéssemos praticar uma honestidade verdadeira, ganharíamos a confiança de todos que nos cercam. Pois não existe nada mais benéfico que receber um comentário ou um conselho de alguém que, longe de querer ser condescendente ou de querer “fazer o bem”, ousa e consegue nos falar de coração aberto.
Além disso, devemos levar em conta um aspecto importante: A falta de sinceridade nos leva a fazer uso de mentiras que precisarão de outras mentiras, ainda maiores, para manter em pé esse castelo de cartas. O esforço psicológico para evitar o desabamento de tantas falsidades é simplesmente imenso. E rapidamente percebemos que essa prática não é nem útil, nem lógica, e menos ainda sadia. A honestidade é um ato de coragem que acarreta grandes vantagens. Pratique-a e a sua vida e o seu mundo mudarão!
Por que as crianças mentem
Po Branson e Ashley Merryman, dois psicólogos especializados em educação infantil, ressaltam em seu livro “Educar hoje”, que as crianças com frequência mentem a seus pais por uma razão fundamental: elas preferem recorrer à mentira para deixar seus pais contentes, e dessa forma corresponder às expectativas que eles manifestam em relação aos filhos. As crianças pensam que, se disserem aos pais o que realmente sentem, poderão decepcioná-los.
De certo modo, começo desse modo a necessidade recorrente de não ser sempre completamente honesto. Temos medo de decepcionar os outros. Temos medo de não corresponder à imagem que os outros fazem de nós. Medo de gerar distanciamentos ou de perder relações. No entanto, deveríamos ser claros quanto a isso. Simplesmente porque, quando agimos de modo desonesto, traímos na verdade a nós mesmos.
Ser sincero pode provocar algum impacto ou surpreender. A longo prazo, no entanto, isso vale a pena. Ao faze-lo, criamos cenários mais sadios, mais felizes e mais significativos, compartilhando nossa vida com aqueles que realmente contam e significam algo para nós.
Em maio de 2019, a notícia de que arqueólogos haviam descoberto os destroços do Clotilda – o último navio negreiro registrado a chegar nos Estados Unidos, 52 anos após a proibição do comércio internacional de escravos – foi manchete em todo o mundo. No entanto, toda a atenção se concentrou no dono do navio, em seu capitão e no próprio navio, não nas vítimas dessa terrível jornada.
Steel engraving from 1881 with great details (Foto: Grafissimo)
Por: Sylviane A. Diouf (*) Fonte: Unesco Courier
Tudo começou em 1859, em Mobile, no Alabama, quando o latifundiário e capitão de navio Timothy Meaher apostou que conseguiria trazer “um navio cheio de negros” bem debaixo do nariz das autoridades. Na época, o comércio de escravos para os Estados Unidos – legalmente proibido desde 1º de janeiro de 1808 – somente podia ser conduzido de forma ilícita, com os infratores arriscando a pena de morte. Mesmo assim, o tráfico continuou inabalável, e as demandas para que o comércio de escravos fosse reaberto haviam aumentado desde a década de 1840.
Necessitando de trabalhadores para suas plantações de algodão e açúcar em expansão, os senhores de escravos do Sul Profundo (Deep South) tiveram que comprar mão de obra escrava do Sul Superior (Upper South) a preços que consideravam exorbitantes. Um homem vendido na Virgínia chegava a valer US$ 50.000, enquanto um africano contrabandeado poderia ser comprado por US$ 14.000. Meaher recrutou e financiou William Foster, o construtor e proprietário do Clotilda. Como capitão improvisado do navio negreiro, Foster chegou a Ouidah, no Reino do Daomé (atual Benim), em 15 de maio de 1860.
A terrível provação das 110 crianças e jovens adultos – metade homens, metade mulheres – que se tornaram prisioneiros do Clotilda havia começado algumas semanas antes. Depois de um ataque mortal do exército Daomé à uma pequena cidade, um grupo de sobreviventes foi levado para Ouidah. Entre eles estava Oluale Kossola, de 19 anos, que mais tarde foi renomeado Cudjoe Kazoola Lewis. Outros, incluindo um grupo de comerciantes, foram sequestrados.
A escuna Clotilda, em gravura do final do século 19
Os prisioneiros vinham de várias áreas do Benim e da Nigéria, incluindo Atakora, Banté, Bornu e Daomé. Pertenciam aos grupos étnicos Iorubá, Ishan, Nupe, Dendi, Fon, Hauçá e Shamba. Entre eles havia muçulmanos e iniciados da sociedade Oro, ou de conventos de orixás. Todos haviam sido brutalmente arrancados de suas famílias e comunidades e mantidos em um barracão, após Foster tê-los selecionado entre centenas de prisioneiros.
Quando puseram os pés no Clotilda, Ar-Zuma, Oroh, Adissa, Kupollee, Oluale, Abache, Omolabi, Sakaru, Jabar e seus companheiros foram despojados de suas roupas, como era costume nos navios negreiros. A humilhação e o sofrimento que sofreram foi tal que, mesmo 50 anos depois, eles não conseguiam falar a respeito – exceto para dizer que tinham muita sede e que duas pessoas haviam morrido.
Africanos remanescentes do Clotilda, em fotografia do início do século 20.
Escondidos no pântano
No dia 8 de julho de 1860, após 45 dias no mar, os prisioneiros chegaram em Mobile, na calada da noite. Para apagar quaisquer vestígios da chegada, o Clotilda foi incendiado. Mesmo assim, notícias da chegada “secreta” se espalharam de costa a costa. O governo federal foi forçado a intervir, e uma equipe foi enviada para procurar os jovens africanos. Eles estavam escondidos em um pântano, completamente nus por vários dias, até que alguns trapos e peles lhes foram entregues quando foram descobertos. Uma venda foi discretamente organizada, e o grupo passou por mais uma dolorosa separação. À medida que alguns deles partiam para lugares distantes, todos cantavam uma canção de despedida, desejando uma jornada segura uns aos outros. Cerca de 76 pessoas foram divididas entre Meaher e seus dois irmãos, e Foster.
Os processos contra os donos de escravos acabaram sendo retirados, e os “companheiros de navio” – como os africanos que viajavam no mesmo navio negreiro geralmente chamavam uns aos outros – foram colocados para trabalhar, abertamente, em navios a vapor, nos campos e como empregados domésticos. Eles eram uma comunidade fortemente unida, e relata-se que nunca aceitaram a brutalidade – enfrentavam a autoridade e não temiam as consequências. Um afro-americano escravizado na mesma plantation de alguns dos recém-chegados contou que, certa vez, quando um feitor tentou chicotear uma das mulheres, todos pularam em cima dele e o espancaram. Quando uma cozinheira deu um tapa em uma jovem garota, ela gritou. Seus companheiros correram em seu socorro, ferramentas em punho, e bateram na porta do quarto da sra. Meaher, onde a cozinheira havia se escondido. Frequentemente ridicularizados por seus companheiros escravizados nascidos nos Estados Unidos, os passageiros do Clotilda eram reservados, e continuaram a seguir sua cultura original – incluindo seus ritos funerário.
Itinerário de ida e volta ao Daomé (atual Benin), percorrido pela escuna Clotilda
Em abril de 1865, no final da Guerra Civil, os companheiros de navio estavam finalmente livres. Contudo, esse não era o tipo de liberdade que desejavam. Eles queriam voltar para casa. Como disse um deles, Ossa Keeby: “Eu volto para a África todas as noites em meus sonhos”. Os homens conseguiram trabalho nas serrarias e nos moinhos de pólvora. As mulheres, que eram autônomas, ganhavam a vida com a jardinagem e vendendo seus produtos e as cestas que os homens teciam à noite. Eles guardavam dinheiro com o objetivo de custear sua viagem de volta. Quando perceberam que nunca conseguiriam o suficiente, enviaram Cudjoe Lewis para pedir terras a Meaher. Eles argumentaram que tinham famílias, casas e terras antes que ele os trouxesse à força para Mobile e os obrigasse a trabalhar duro em troca de nada por cinco anos. Meaher lhes recusou o pedido.
Africatown
Redobrando seus esforços, os companheiros de navio acumularam dinheiro suficiente para comprar lotes da família Meaher e de outros proprietários locais. Até 1870, eles haviam estabelecido uma pequena vila no Alabama que, orgulhosamente, chamaram de African Town (Cidade Africana) – e que, mais tarde, foi renomeada Africatown.
Ilustração do interior da escuna Clotilda, onde permaneciam os africanos escravizados
Essa era uma forma clara de demonstrar quem eles eram, quem queriam continuar sendo e onde queriam estar. Para administrar seu assentamento, eles elegeram um chefe chamado Gumpa, que era um nobre do Daomé, e dois juízes. Construíram a primeira igreja e a primeira escola do local, e alguns deles aprenderam a ler e escrever. Também mantiveram contato com os companheiros de navio, alguns dos quais viviam a vários condados de distância. À medida que se casavam entre si – e às vezes com pessoas de fora do grupo –, uma segunda geração nasceu. Eles receberam um nome norte-americano e um nome africano. Essas crianças aprenderam sobre suas origens – alguns eram fluentes nas línguas de seus pais e chegaram até a atuar como tradutores. Os companheiros de navio falavam carinhosamente de suas cidades natais – que se tornaram um paraíso, um refúgio, para as crianças, onde podiam ir em seus sonhos quando o racismo branco e o escárnio negro se tornavam difíceis de suportar.
Tendo se levantado enquanto foram escravizados, o povo de Africatown continuou a lutar por seus direitos. Quando os homens decidiram votar nas eleições de 1874, um enfurecido Meaher bloqueou seu caminho. Destemidos, os homens caminharam de local de votação em local de votação, e finalmente conseguiram depositar seus votos. Kohenco, que administrava uma fazenda leiteira com seu marido norte-americano, tornou-se membro do primeiro movimento de reparações, que requeria pensões para as pessoas libertadas. Em 1902, Lewis foi ferido por um trem e processou uma das maiores empresas do Sul. Contra todas as probabilidades, um júri branco concedeu a ele US$ 13.000, mas a decisão foi anulada pela Suprema Corte do Alabama. Gumpa também processou, após ser ferido por um trem. Ele morreu antes que o caso fosse ao tribunal, mas a queixa foi posteriormente resolvida, com uma pequena quantia de dinheiro paga a seus netos.
Quando os companheiros de navio foram entrevistados, a partir da década de 1890, eles sistematicamente se recusaram a menosprezar suas antigas religiões ou a criticar a poligamia. Também se recusaram a condenar aqueles que os fizeram prisioneiros, atribuindo seu destino à “má sorte”. Paciente, e às vezes exasperadamente, eles explicaram e defenderam suas culturas. Questionados sobre se preferiam Mobile ou seus antigos lares, energicamente escolheram os últimos.
Ilustração com detalhe da proa do navio negreiro Clotilda
Os últimos sobreviventes do Clotilda
Quando Emma Langdon Roche, uma professora, disse aos últimos sobreviventes, agora na faixa dos 70 anos, que queria escrever sobre suas vidas, eles pediram que fossem chamados por seus nomes originais – para que, se a história chegasse até seus lares, seus parentes saberiam que ainda estavam vivos. O livro, com suas fotos tiradas 44 anos após seu desenraizamento brutal, foi publicado em 1914. A autora, Zora Neale Hurston, também entrevistou Lewis por um bom tempo, e o filmou em 1928. Cudjoe Lewis, que perdeu sua esposa, Abile, e seus seis filhos logo depois, era o último sobrevivente de Africatown. Ele faleceu em 1935, com 94 anos de idade, e foi o penúltimo sobrevivente conhecido do tráfico de escravos no Atlântico. Dois anos depois, Redoshi, uma mulher capturada no mesmo ataque, faleceu em Dallas, no Texas. Ela também havia sido fotografada, entrevistada e filmada.
Os companheiros do navio Clotilda viveram no Alabama, o quanto puderam, em seus próprios termos. Porém, apesar do seu deliberado isolamento, estiveram envolvidos em uma série de eventos que marcaram o seu tempo. Ainda assim, nunca perderam seu profundo senso de pertencimento a uma terra e a um povo distantes. Atualmente, a Africatown que criaram como alternativa ainda é o lar de alguns de seus descendentes. No entanto, essa comunidade outrora vibrante caiu em tempo difíceis. Fábricas de papel poluentes, ruas bloqueadas por muros de fábricas, estradas cortando os bairros – o racismo ambiental devastou o local. Apenas a Igreja Batista Missionária da União e o cemitério onde seus antepassados estão enterrados são lembranças tangíveis da primeira geração. Os moradores esperam que a descoberta do Clotilda incentive o turismo e resulte em um muito necessário renascimento de Africatown e de sua fascinante história.
Os destroços do Clotilda, e o que quer que eles revelem, são apenas um símbolo vergonhoso da base do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Mais importante é a história da experiência dos jovens que perderam tudo, mas transcenderam suas terríveis circunstâncias. Através das provações da travessia transatlântica dos navios negreiros da África para a América do Norte, a escravidão, a Guerra Civil, Jim Crow [as leis estaduais e locais que impuseram a segregação racial nos estados do Sul dos Estados Unidos], e por parte da Grande Depressão de 1929, eles mantiveram sua dignidade, sua confiança em si mesmos e em suas habilidades, sua unidade, seu senso de família e o orgulho de sua cultura. Além disso, fizeram todo o possível para garantir que suas histórias fossem registradas, compartilhadas e lembradas. A história deles é uma história terrível de perda e calamidade, mas também de triunfo sobre as adversidades – uma história de heróis desconhecidos.
(*) Sylviane A. Diouf – Historiadora da diáspora africana, é a autora de Dreams of Africa in Alabama: The Slave Ship Clotilda and the Story of the Last Africans Brought to America e de vários outros livros. Ela é professora visitante no Centro para o Estudo da Escravidão e Justiça, na Universidade Brown, em Providence, nos Estados Unidos..
Seleção das imagens que venceram a edição 2019 do Nikon Small World, o mais prestigioso prêmio de fotografias feitas com o uso das técnicas macro ou do microscópio. Esta é a 45ª edição do concurso. As fotos vencedoras foram escolhidas dentre as milhares de imagens que participaram, enviadas tanto por laboratórios universitários de pesquisa, quanto por fotógrafos amadores ou profissionais apaixonados pela microfotografia.
Por: Equipe Oásis
Ao reunir arte, ciência e tecnologia, a microscopia possibilita a visão aumentada de organismos muito pequenos, às vezes praticamente invisíveis a olho nu. Esses seres minúsculos são, na verdade, os tijolos básicos que permitem a construção na Terra dos grandes edifícios da vida. Essas imagens mostram como os padrões estéticos e os das proporções matemáticas determinam, desde o início, as formas e cores da criação. Fornece ao espectador um profundo senso de admiração das pequenas coisas da vida que, com tanta frequência, passam inobservadas.
1 – A imagem de um embrião de tartaruga é a vencedora absoluta do prêmio Nikon Small World 2019. Foi realizada com a técnica de microscopia desenvolvida pelas fotógrafas e cientistas Teresa Zgoda e Teresa Kugler. É uma esplêndida combinação de centenas de imagens reunidas como a técnica da microscopia a fluorescência. Foto: Tereza Zgoda e Teresa Kugler.
2 – O segundo lugar no concurso coube ao pesquisador Igor Siwanowicz, do Howard Hughes Medical Institute (HHMI), (Janelia Research Campus), para essa imagem composta por três protozoários monocelulares de água doce. Os filamentos visíveis na foto são os cílios que permitem a esses minúsculos animais mover-se e nutrir-se. O fotógrafo usou a técnica de microscopia confocal com engrandecimento de 40X. Foto: Igor Siwanowicz.
3 – Em terceiro lugar, esta imagem de um embrião de aligátor que mostra nervos e ossos em via de desenvolvimento. Realizada com a técnica de imunofluorescência de Daniel Smith Paredes e Bhart-Anjan S. Bhullar, da Yale University, Departamento de Geologia e Geofísica. Esta imagem faz parte dos seus estudos sobre a evolução da anatomia dos vertebrados. Foto: Daniel Smith Paredes e Bhart-Anjan S. Bhullar.
4 – Esta imagem de uma vespa macho ficou em quarto lugar. Foi realizada por Jan Rosenboom, da Universidade Rostock, através da técnica do Focus Stacking, ou seja a execução de uma série de cliques do mesmo enquadramento, porém com planos de focagem diversos de modo a se obter uma imagem final com uma profundidade de campo impossível de ser alcançada pelas técnicas comum. Foto: Jan Rosenboom.
5 – A quinta colocada é esta foto de um floco de neve tirada com a técnica da microscopia a luz transmitida. Foto: Caleb Foster.
6 – Curioso retrato da cabeça de uma pequena aranha com pelos brancos. Ganhou o sexta lugar. O autor usou a técnica da luz refletida e da image stacking. Foto: Javier Rupérez.
7 – Os estames de um cravo vermelho da China fotografados com a técnica do focus stacking. Foto: Guillermo López.
8 – Células endoteliais de artéria pulmonar bovina no estágio da telófase da mitose. Foto: Jason M. Kirk.
9 – Parecem folhas, mas são os ovários de uma mosca da fruta, coloridos para dar evidência aos núcleos (em verde), os filamentos proteicos (em amarelo) e as células do folículo dos ovários (cor magenta). A técnica utilizada é a da microscopia confocal. Foto: Yujun Chen e Jocelyn McDonald, do Departamento de Biologia da Kansas State University.
10 – Uma larva de vespa. Foto: Anne Algar
11 – Uma aranha fêmea da espécie Oxyopes dumonti. Foto: Antoine Franck.
12 – Grão de vitamina C ao microscópio e sob luz polarizada. Foto: Karl Deckart.
13 – Embrião de um polvo da espécie Octopus bimaculoides. Foto: Martina Lukoseviciute e Carrie Albertin.
14 – Uma fêmea grávida de Daphnia magna, um pequeno crustáceo aquático. Foto: Marek Mis.
15 – Secção de um bulbo de tulipa fotografada pelo ucraniano Andrei Savitsky. A técnica usada é a da microfotografia a luz refletida, porém sem engrandecimento. Foto: Andrei Savitsky.
O Polarstern é um navio que leva a bordo dezenas de cientistas das mais diversas áreas. Ele permanecerá durante um ano prisioneiro dos gelos árticos, fazendo-se arrastar pelas correntes marítimas, para cumprir uma missão científica sem precedentes. Entre os seus objetivos está o estudo do progressivo derretimento da banquisa polar, causado pelas mudanças climáticas atualmente em curso.
Por: Equipe Oásis
Levando a bordo uma verdadeira cidade da ciência, o Polarstern, navio quebra-gelo alemão está navegando praticamente à deriva, entre os gelos do Oceano Ártico, na altura do 85° paralelo Norte. A viagem acontece na escuridão da noite polar: nesta altura do outono no Hemisfério Norte, perto do polo o Sol já não surge acima do horizonte.
É o início da aventura científica do Polarstern, que permanecerá até o próximo outono (2020) bloqueado na banquisa, ancorado em algum ponto previamente selecionado da imensa calota de gelo. Trata-se da maior expedição científica ao Ártico jamais realizada: a missão MOSAIC (Multidisciplinary drifting Observatory for the Study of Arctic Climate, https://mosaic-expedition.org/) partiu do porto de Tromsö, na Noruega, a 20 de setembro último, rumo ao Norte.
O Polarstern a caminho do lugar onde permanecerá estacionado durante um inteiro ano.
As muitas pesquisas que serão feitas pelos cientistas, nos vários laboratórios instalados a bordo da Polarstern e na estação científica flutuante montada nas proximidades sobre a calota de gelo serão desenvolvidas num contexto multidisciplinar. Que respostas poderão nos dar a respeito das mudanças climáticas atualmente em curso no planeta? Que coisas poderão revelar sobre como está reagindo essa área ao aquecimento global?
O papel das nuvens
Muitas mensurações efetuadas pelos cientistas da Expedição MOSAIC serão relativas à atmosfera, que será examinada desde os seus níveis mais baixos até a estratosfera. Serão fundamentais para compreendermos melhor os efeitos das mudanças climáticas, que em nenhum outro lugar da Terra são tão maciças e evidentes como no Ártico. Basta pensar que neste ano de 2019, em setembro, a extensão dos gelos no final do verão atingiu o seu menor número desde que a calota é observada por satélites, atingindo, como em 2012, a área de 4,15 milhões de quilômetros quadrados.
Os pesquisadores também estudarão o comportamento e o papel das nuvens e as trocas de energia entre o oceano e a atmosfera. “Analisar em detalhe os mecanismos ligados às nuvens, e como eles estão mudando, será essencial para o desenvolvimento de modelos climáticos mais acurados”, informa Matthew Shupe, da University of Colorado e do Noaa Earth System Research Laboratory (EUA), um dos organizadores da expedição MOSAiC. “Consideramos que a cobertura de nuvens possui dois efeitos que “competem” entre si: de um lado, durante o verão ela resfria a superfície, porque funciona como um escudo contra a radiação solar; de outro lado, durante o inverno ela aquece a superfície ao aprisionar o calor, funcionando como se fosse um imenso cobertor. Na atualidade, esse segundo efeito, de aquecimento, é em seu conjunto dominante no Ártico, ao contrário daquilo que acontece no resto do planeta. Queremos compreender melhor esse balanço, estudando-o no transcorrer das diversas estações do ano”, completa Shupe.
O navio quebra-gelo alemão Polarstern.
Um radar voltado para as nuvens
Para as análises, serão usados balões-sonda que atravessarão a atmosfera até as suas camadas mais altas, balões com capacidade de frear em altitudes determinadas, drones, e também outros instrumentos como o radar. Um radar especial, pensado particularmente para o estudo das nuvens, foi instalado no Polarstern.
Todas essas ferramentas servirão para o estudo de vários fenômenos. “Por exemplo, eu estou particularmente interessado em um tipo de nuvem presente no Ártico: são as nuvens de fase mista, nas quais encontramos água e gelo ao mesmo tempo. Dito de modo simples, isso acontece porque o Ártico é muito limpo: na sua atmosfera não existem partículas, que são aquelas ao redor das quais o gelo se forma, e isso faz com que a água permaneça em estado líquido até mesmo em temperaturas muito abaixo do ponto de congelamento”, esclarece Shupe.
'Polar Star' ecotourism expedition ship with crack in 3m thich ice, created by the ship. Antartic Peninsula, Southern ocean.
Na banquisa podem se abrir fendas que se alargam, tornando-se verdadeiras rupturas.
Fendas no pavimento glacial
Um outro importante campo de pesquisa serão as trocas de energia entre o oceano e a atmosfera, separados apenas por uma crosta de gelo relativamente muito fina. No Ártico, muitas vezes, a temperatura do ar pode ser de cerca 45 graus negativos, enquanto o oceano é muito mais quente, pouco abaixo de zero grau (a água do mar, salgada, congela a 1,8 graus negativos). Na prática, para a atmosfera do Ártico, é como ter um sistema de aquecimento embaixo do assoalho. A questão é que, aqui e ali, esse pavimento se rompe: no gelo, que está em constante movimento, abrem-se fissuras, fendas, e esses canais de água permitem que calor e umidade “escapem” diretamente para a atmosfera.
E, falando de fissuras no gelo, existe o risco de que o pavimento de gelo se rompa bem sob os pés dos cientistas que estão caminhando e trabalhando nessa superfície. “Mas, por sorte, as fendas não se abrem improvisamente: podemos perceber quando elas começam a se formar”, esclarece Shupe. Ele, há poucos dias, viveu na prática essa experiência, quando uma fenda se abriu bem no lugar onde o cientista estava instalando equipamentos. A fenda se fez anunciar por um ruído de estalos secos e um tremor no solo.
O Polarstern fixado à superfície congelada do mar.
Visões submarinas
Claro, o próprio gelo também será objeto de estudos. “A camada de gelo no Ártico constitui uma fina separação entre o oceano e a atmosfera, porém ela limita as trocas entre as duas massas. Pensamos por exemplo no fato que, se não existe gelo, toda a energia do sol chegará diretamente ao mar, sem ser refletida”, diz Christian Katlein, um outro cientista que faz parte da equipe.
Uma Amazônia oceânica
Por mais extrema e desolada que possa parecer, a área recoberta de gelo ao redor do Polo Norte está cheia de vida, microscópica e não. Com a Expedição MOSAIC os pesquisadores terão uma oportunidade única para estudá-la. Como explica Carin Ashjian, da Woods Hole Oceanographic Institution (EUA), cientista da expedição: “Eu, por exemplo, me ocupo particularmente do zooplâncton, o conjunto daqueles pequenos animais transportados pelas correntes marítimas. Temos pouquíssima informação a respeito da sua vida no Ártico central, durante o inverno. Queremos saber como eles vivem nas diferentes estações, o que comem, qual a quantidade deles. E espero também descobrir novas espécies”.
Também será muito importante o estudo do fitoplâncton, o conjunto de algas microscópicas e bactérias capazes de fazer a fotossíntese, que é a base da cadeia alimentar. E não apenas: “O fitoplâncton é como a Amazônia: captura anidrido carbônico e libera oxigênio”, diz Ashjian. «É, portanto, muito importante estudar como ele está reagindo a um Ártico mais quente e com menor cobertura glacial”.
Dois ursos polares se aproximaram da nave: naquele momento, não havia ninguém sobre o gelo. Quando os cientistas trabalham sobre a banquisa, existem sempre “guardas anti-urso” que vigiam pela segurança deles. Os ursos curiosos que se aproximam são afastados com o uso de pistolas de sinalização, cujos disparos não matam, porém assustam os animais. Foto: Mosaic
Um outro projeto da MOSAIC é ligado aos peixes. “Não sabemos exatamente quais espécies vivem nesse meio ambiente. O Ártico central é maior que o Mediterrânreo e compreende bacias profundas foara do limite das águas dos países costeiros”, explica Pauline Snoeijs-Leijonmalm. “Para isso usaremos longas linhas de pesca com centenas de anzóis. Usaremos também redes: pescados alguns exemplares, veremos por exemplo o que eles comem, quais são suas migrações, etc”.
Naturalmente, se estudará também o próprio oceano: com estudo sobre as correntes marítimas que nele se movem, as quais podem transportar água mais quentes ou ricas de nutrientes através do Ártico.
Uma foto da missão MOSAIC atualmente em curso: os cientistas estão preparando a “cidade do oceano”, uma área dedicada à pesquisa diretamente sob as águas. Na foto, cientistas cavam um buraco de 1,4 por 1,4 metros na calota através da qual vários aparelhos serão lançados ao mar.
No site do projeto MOSAIC, que é constantemente atualizado, você poderá acompanhar o dia-a-dia da missão MOSAIC. Clique no link: https://follow.mosaic-expedition.org/
O aumento da desigualdade e da instabilidade política são o resultado direto de décadas da péssima teoria econômica que está na base do modelo capitalista vigente, diz o empreendedor Nick Hanauer. Em sua palestra visionária, ele ataca o mantra de que “a ganância é boa”, uma ideia que descreve não somente como moralmente corrosiva, mas também como cientificamente errada, e expõe uma nova teoria econômica baseada na reciprocidade e cooperação.
Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading
Tradução: Simone Gumier. Revisão: Maricene Crus
Nick Hanauer é um homem rico, um capitalista impenitente e tem algo a dizer aos colegas plutocratas: Acordem! A crescente desigualdade está prestes a empurrar as nossas sociedades para condições semelhantes à França pré-revolucionária. Ouçam o seu argumento sobre como um grande aumento no salário mínimo poderia fazer crescer a classe média, entregar prosperidade econômica … e evitar uma revolução.