O CRESCIMENTO DOS SEM RELIGIÃO

 ÍNDICE 

 PESQUISA BIBLIOGRÁFICA CIENTÍFICA (com IAC)

investigação realizada pelo Pr. Psi. Jor Jônatas David Brandão Mota
no programa de Graduação e Especialização em Estudos e Pesquisas 
uma das atuações do seu Pastorado4 


O Cristianismo porco e mau caráter que o Joio tem mostrado ao mundo, com a aquiescência do silêncio comprometedor da pacificidade do Trigo, além de ter enchido o cristianismo de falsos cristãos violentos e adoentados em todos os sentidos, gente manufaturada pelos interesses capitalistas de sempre, tem oferecido, por demais, motivos coerentes com o bom senso humano, para que os sem religião se tornem, cada vez mais, uma religiosidade muito afastada de tudo que lembre esse cristianismo porco e de mau caráter.

<<< >>>

ARTIGOS NESTA PÁGINA

(1) 
001   América Latina vê aumento dos sem religião, mas segue reduto do cristianismo

(2) 
002   Após cristãos e mulçumanos, sem-religião são 3º maior grupo no mundo

(3) 
003   Jovens 'sem religião' superam católicos e evangélicos em SP e Rio

(4) 
004   Número de pessoas “sem religião” no Brasil tem se mostrado significativo


 ÍNDICE 
1<<< >>> ÍNDICE     



(1)
América Latina vê aumento dos sem religião, mas segue reduto do cristianismo
Região assiste a pluralização do campo religioso, com avanço dos evangélicos e redução dos católicos





Nem o primeiro papa latino-americano da história estancou a sangria de fiéis católicos na América Latina. A cada ano, a região vê recuar o número dos que se dizem ligados à Igreja Católica. Se em 1995 eles somavam 80%, agora são 56%, mostram dados de pesquisa do instituto Latinobarómetro.

O fenômeno não é o único que chama a atenção. No mesmo período, houve um salto dos que se declaram evangélicos —de 3,5% para 19,7%—, movimento em grande parte puxado pelo Brasil, e um boom dos que dizem não ter religião. Antes, eram menos de 5% da população latino-americana; agora, são quase 16%.

O papa Francisco reza missa ao ar livre em San Cristobal de las Casas, no estado mexicano de Chiapas - Gabriel Bouys - 15.fev.16/AFP

O historiador Andrew Chesnut, professor de estudos religiosos na Universidade Virginia Commonwealth, nos EUA, descreve o cenário como uma pluralização do campo religioso. "Cada dia mais se elege a fé e menos se herda da família; é um mercado livre, no qual a pessoa escolhe entre as opções que parecem mais adequadas e que respondem às suas necessidades espirituais e materiais", diz.


O movimento não é homogêneo. Brasil, Bolívia e Colômbia, por exemplo, destacam-se pelo aumento dos evangélicos, cenário semelhante ao observado em toda a América Central. O Chile, por sua vez, diferencia-se pelo crescimento dos sem religião. Já o México segue como um bastião do catolicismo.


 ÍNDICE 
EVANGÉLICOS SÃO FATOR-CHAVE

Rodrigo Toniol, presidente da Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul, discorda da hipótese de que o refluxo do catolicismo se deve à perda de força da igreja enquanto instituição. Segundo ele, o Brasil vive o ápice do número de padres e paróquias, e o índice em queda é o de fiéis.


Ele trabalha com a tese de que o aumento de força da igreja veio acompanhado do "disciplinamento das práticas católicas cotidianas". "Quando se começam a regular as práticas cotidianas, como que tipo de santo pode e qual não pode, por exemplo, que no fim das contas era o que sustentava o catolicismo, ela perde força. É como se a crise do catolicismo fosse vítima do próprio sucesso institucional da Igreja."

lá fora

Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo; aberta para não assinantes.


Carregando...

Os fatores não terminam aí, e o grupo religioso que mais cresce na região tem importância crucial: os evangélicos. Chesnut diz que a Igreja Católica se manteve em grande parte eurocêntrica e, "em contraste, os pentecostais se 'latinoamericanizaram'", mencionando a força da música e da TV no meio evangélico.

"O marketing da fé é muito importante, porque estamos numa sociedade capitalista, e os pentecostais são talentosos nisso, algo em que os católicos, com sacerdotes burocratas, ficaram para trás."​





 ÍNDICE 
O BOOM DOS SEM RELIGIÃO

A cifra dos que se dizem sem religião constitui o terceiro maior grupo na América Latina. Se o catolicismo é o que Toniol chama de "doador universal", por transferir fiéis para outras religiões, o cenário é diferente para outros fluxos, como de evangélicos para religiões de matriz africana, considerado mais raro.

O cenário, assim, privilegia transições para o grupo dos sem religião, que cresce de maneira contínua, especialmente desde a segunda metade da última década. No Chile talvez esteja o principal exemplo. De um país com forte tradição católica, passou a ter mais de um terço de sua população se declarando sem religião, movimento que ganhou peso notável após os recentes escândalos de abuso sexual de menores.

O CASO MEXICANO

Ponto fora da curva, o México, palco de maior institucionalização da igreja devido à acentuada importância do catolicismo na época da colonização, tem 72,1% de católicos, queda de cinco pontos percentuais em relação a 1995. Outro fator é a Virgem de Guadalupe, parte da identidade do mexicano.

"Trata-se de uma das figuras mais importante do mundo em número de fiéis e de devotos e funciona como uma barreira ao crescimento dos evangélicos", afirma Chesnut, da Universidade Virginia Commonwealth. "Deixar de ser devoto de Guadalupe é como deixar uma parte da identidade nacional mexicana."


 ÍNDICE 
SECULARIZAÇÃO ALÉM-MAR

Do outro lado do Atlântico, algo semelhante: a Espanha assistiu à maior perda de religiosidade durante a pandemia de coronavírus, tendo agora 37% de ateus e agnósticos. A cifra é de recente relatório da Fundação Ferrer Guardia. Em 2019, 27,5% diziam não ter nenhuma religião.

A mudança no perfil não corresponde ao espaço que a Igreja Católica mantém. "A Espanha é um Estado laico segundo a Constituição, mas segue com os acordos do Vaticano de 1979, feitos pouco após a ditadura, que ataram todos os privilégios da Igreja Católica que se mantêm até hoje", diz Hungria Panadero, coautora do material. Vai para a igreja, por exemplo, uma parte do imposto de renda espanhol.

FONTE... https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/06/america-latina-ve-aumento-dos-sem-religiao-mas-segue-reduto-do-cristianismo.shtml







 ÍNDICE 
2<<< >>> ÍNDICE     


(2)
Após cristãos e mulçumanos, sem-religião são 3º maior grupo no mundo
Levantamento de organização independente americana mostra distribuição de crenças no planeta; no Brasil, 88,9% se dizem cristãos.



Da BBC




 ÍNDICE 

O grupo dos que se declaram ateus, agnósticos ou sem religião em todo o mundo só fica atrás daqueles que se dizem cristãos e muçulmanos. Na média, 8 em cada 10 habitantes do planeta se declaram religiosos.

Os dados são do primeiro relatório Global Religious Landcaspe (Panorama Global da Religião), feito com dados de quase todo o planeta e organizado pelo Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, parte da organização independente Centro de Pesquisas Pew, em Washington.

No total, 31,5% da população mundial se considera cristã (incluindo católicos romanos, ortodoxos e protestantes). Em seguida vêm os muçulmanos (sunitas e xiitas), com 23,2% do total.

Os que se declaram ateus, agnósticos ou não-filiados a alguma religião formam 16,3% da população mundial, percentual superior ao de hindus, 15%, budistas (7,1%), seguidores de religiões étnicas ou folclóricas (5,9%) e judeus (0,2%).

No Brasil, 7,9% dizem não ter religião ou não acreditar em divindade, sendo que 88,9% se declaram cristãos.

As conclusões do estudo não diferenciam as diversas divisões dentro de cada grupo - católicos e protestantes, por exemplo, estão agrupados como cristãos.

Cerca de 2,8% dos brasileiros dizem pertencer a religiões étnicas, como o candomblé. Outros grupos, como judeus e muçulmanos, são menos de 1%.

Por se tratar da primeira base de dados do gênero, não é possível, ainda, traçar tendências de crescimento ou declínio.



 ÍNDICE 
Distribuição
A maior parte dos que se declaram ateus, agnósticos ou sem religião estão em países comunistas ou ex-comunistas, onde tradicionalmente a religião não foi vista com bons olhos. Na China, 52,2% estão nesse grupo. Em Cuba, 23%.

Na América Latina, o país menos religioso é o Uruguai, com 40,7% da população dizendo não pertencer a nenhuma denominação - entre elas está o presidente do país, José Mujica, que se diz agnóstico.

As Américas, assim como a Europa e a África subsahariana, são o lar da maioria dos cristãos do planeta. O cristianismo também é a religião com maior capilaridade no mundo, segundo o estudo.

Os muçulmanos estão em sua maioria concentrados na Ásia, no Oriente Médio e na África. Chama a atenção, no entanto, o grande percentual de muçulmanos na Europa. Os seguidores do Islã já são 43,5 milhões, equivalente quase à população da Espanha (de 47 milhões). No Brasil são 40 mil.



 ÍNDICE 
Os hindus estão quase todos concentrados na Índia.

Já os judeus são majoritários apenas em Israel, onde formam 75,6% da população e somam 5.610 milhões de pessoas. O número é menor que o da população judaica americana, de 5,690 milhões. No Brasil, são 110 mil judeus.

FONTE... https://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/12/apos-cristaos-e-mulcumanos-sem-religiao-sao-3o-maior-grupo-no-mundo.html






 ÍNDICE 
3<<< >>> ÍNDICE     



(3)
Jovens 'sem religião' superam católicos e evangélicos em SP e Rio
Thais Carrança - @tcarran
Da BBC News Brasil em São Paulo
9 maio 2022



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Os 'sem religião' já são mais de 30% dos jovens de 16 a 24 anos no Rio e em São Paulo, indica Datafolha


"Eu não tenho religião, sempre fui totalmente pura a isso. Eu acredito em tudo, primeiramente em Jesus, o único Deus todo poderoso. Também acredito em entidades, que me ajudaram muito e sempre que puderem vão me ajudar... Acredito em energias, no universo..."


Assim Mariana Oliveira Viana, de 21 anos e moradora do Rio de Janeiro, definiu em uma rede social suas crenças.


Manicure autônoma e moradora do bairro de Irajá, na Zona Norte do Rio, Mariana tem parte da família evangélica, uma mãe que frequenta a umbanda e um irmão de 24 anos que, como ela, não segue uma religião, mas acredita em Deus.
Visão feminista de classe alta não vê que igreja evangélica pode fortalecer mulher, diz autor de 'O Povo de Deus'


 ÍNDICE 
"Minha família sempre deixou que o outro tenha total liberdade, ninguém fica questionando nada a ninguém", conta Mariana à BBC News Brasil.


Não batizada em nenhuma religião, a jovem frequentou terreiros e igrejas, e diz ter se sentido bem em todos esses lugares. Assim, decidiu não escolher uma religião e acreditar em tudo.



"Fui abrindo a mente com isso com o tempo, fui amadurecendo, no sentido de ter respeito por todas as religiões e ter a mente aberta com isso."

Os 'sem religIão' no Censo e no Datafolha


Mariana é uma de milhares de jovens brasileiros que se auto definem como "sem religião", grupo que já supera católicos e evangélicos entre a população de 16 a 24 anos no Rio e em São Paulo, segundo as primeiras pesquisas Datafolha do ciclo eleitoral de 2022.


No Censo de 2010, os sem religião eram 8% da população brasileira, ou mais de 15 milhões de pessoas. Esse percentual vem crescendo década após década: os sem religião eram 0,5% da população brasileira em 1960, 1,6% em 1980, 4,8% em 1991 e 7,3% em 2000.
 ÍNDICE 




Pule Podcast e continue lendo
Podcast

BBC Lê

A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens

Episódios

Fim do Podcast


Com o adiamento do Censo populacional de 2020 para este ano, devido à pandemia, ainda não é possível saber de forma definitiva o que aconteceu com a religiosidade brasileira na última década.


Mas as pesquisas eleitorais, cujas amostras são construídas com objetivo de refletir a realidade da população brasileira, dão pistas importantes neste sentido.


As primeiras pesquisas Datafolha de 2022, por exemplo, mostram que, em nível nacional, 49% dos entrevistados se dizem católicos, 26% evangélicos e 14% sem religião — já acima dos 8% sem religião identificados no último Censo.


Entre os jovens de 16 a 24, o percentual dos sem religião chega a 25% em âmbito nacional.


Nas pesquisas Datafolha para Rio de Janeiro e São Paulo, o crescimento dos brasileiros que se dizem "sem religião" é ainda mais marcante, particularmente entre os jovens.


Em São Paulo, os jovens de 16 a 24 anos que se dizem sem religião chegam a 30% dos entrevistados, superando evangélicos (27%), católicos (24%) e outras religiões (19%).


No Rio, os sem religião nessa faixa etária chegam a 34%, também acima de evangélicos (32%), católicos (17%) e demais religiões (17%).






 ÍNDICE 
Mas o que significa ser "sem religião" no Brasil? Por que esse grupo cresce, e como isso se relaciona com a diminuição da população católica e ascensão das religiões evangélicas no país?


Por que esse fenômeno é maior entre os jovens e nas grandes cidades? E que relação tudo isso tem com o comportamento eleitoral da juventude brasileira?


A BBC News Brasil ouviu três cientistas sociais especialistas em religião para explicar o fenômeno.

Quem são os brasileiros 'sem religião'


Em primeiro lugar, é preciso ter clareza que apenas uma minoria dos "sem religião" no Brasil são ateus ou agnósticos. Os ateus são pessoas que não acreditam na existência de Deus, já os agnósticos avaliam que não é possível afirmar com certeza se Deus existe ou não.
Preconceito, agressividade e desconfiança: como é ser ateu no Brasil


No Censo de 2010, por exemplo, dos 15,3 milhões de brasileiros que se diziam sem religião, apenas 615 mil (4% dos sem religião) se consideravam ateus e 124 mil se afirmavam agnósticos (0,8%).


"A maior parcela dos sem religião tem a ver com uma desinstitucionalização, o que quer dizer que o sujeito está afastado das instituições religiosas, mas ele pode ter uma visão de mundo e até mesmo práticas pessoais informadas por crenças religiosas", explica Silvia Fernandes, cientista social e professora da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).


Entre outros livros, ela é autora de Jovens religiosos e o catolicismo — escolhas, desafios e subjetividades (Quartet/FAPERJ, 2010), Novas Formas de Crer — católicos, evangélicos e sem-religião nas cidades (Promocat, 2009) e organizadora de Mudança de religião no Brasil — desvendando sentidos e motivações (Palavra e Prece, 2006).


"Então esse sujeito é sem religião porque não está vinculado a uma igreja, porque não frequenta, mas pode ter crenças relacionadas a alguma religião que já teve ou ter uma dimensão mais pluralista da religiosidade", diz a especialista.


"Ele incorpora elementos de uma espiritualidade mais fluida, pode fazer um sincretismo [misturar elementos de diferentes religiões], pode ter crenças muito associadas ao universo do cristianismo — acreditar em Deus, em Jesus, em Maria — mas seguir se declarando sem religião."


Mariana, a carioca de Irajá que acredita em Deus, em Jesus, nas entidades da umbanda e em energias é um exemplo típico desses brasileiros sem religião, mas de forma alguma sem fé.




 ÍNDICE 
CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL
Legenda da foto,

Mariana Oliveira Viana, de 21 anos, se diz sem religião, mas acredita em Deus, em Jesus, nas entidades da umbanda e em energias

Por que cada vez mais brasileiros se dizem 'sem religião'


Regina Novaes, pesquisadora do ISER (Instituto Superior de Estudos da Religião), observa que a fase dos 16 aos 24 anos, onde os "sem religião" são mais presentes, é uma fase de experimentação.


"Há uma trajetória de busca e experimentação que foi colocada para as novas gerações que não era colocada para as antigas", diz a pesquisadora.


Ela observa que, atualmente, muitos jovens crescem em famílias plurirreligiosas, por exemplo, com avó mãe de santo, pai católico não praticante e mãe evangélica. Esses jovens não sentem a obrigação de seguir uma religião de família e tendem a buscar uma religiosidade própria.


Essa fase de experimentação pode seguir dois caminhos: uma busca que resulta mais tarde na escolha de uma religião; ou a construção de uma síntese pessoal, em que a pessoa se diz "sem religião" por não pertencer a nenhuma igreja, mas combina diversos elementos de fé.


"Isso é interessante, porque havia uma ideia de que, com o passar do tempo e o avanço da secularização [processo através do qual a religião perde influência sobre as variadas esferas da vida], haveria um aumento das pessoas que se desvinculariam da fé, do sobrenatural. Mas isso não está acontecendo. O que está acontecendo são outros modos de ter fé", diz Novaes.


A pesquisadora observa que esse é um fenômeno que vem desde a década de 1990, mas há outros dois processos mais recentes que têm contribuído para o avanço dos "sem religião".



 ÍNDICE 
Luta antirracista e 'desigrejados'


O primeiro deles é a emergência das religiões afro-brasileiras como uma opção cultural, diante do fortalecimento da luta antirracista no país.


"Junto à questão racial, vem a questão da ancestralidade. Então há muitos jovens que deixam de ser católicos, protestantes, evangélicos e se ligam a um terreiro, a uma mãe de santo ou pai de santo", diz Novaes.


"Mas há também uma parcela que não vai se ligar institucionalmente, mas vai se sentir parte de uma cultura. Então eles podem se dizer sem religião, mas participar de festas, cultuar orixás, usar signos como turbantes e colares, como parte de um processo identitário."



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Luta antirracista leva jovens a deixar igrejas cristãs e adotar elementos das crenças afro-brasileiras, como uma forma de afirmação da identidade negra


Um segundo fenômeno são as novas gerações de evangélicos, criados na igreja, mas que passam a ter problemas com seus pastores, por questões morais, comportamentais, por críticas políticas ou com relação à maneira de conduzir a igreja.


Muitos desses jovens vão para outras igrejas, como as alternativas ou inclusivas. Mas há um outro grupo que passa a se definir através de uma palavra nova: são os "desigrejados", jovens que seguem partilhando do mundo evangélico, mas que ficam sem igreja.


"Ao ficar sem igreja, muitos desses jovens podem passar a se definir como sem religião. Porque, diferentemente do catolicismo, em que o batizado católico é, no mundo evangélico, a frequência à igreja é fundamental para a pessoa se definir", observa a especialista.

Um fenômeno jovem e urbano


Para Ricardo Mariano, professor da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999), a perda de força da igreja católica é um dos motivos que explicam o avanço dos "sem religião".


Em 1950, quase 94% da população brasileira se dizia católica, percentual que caiu a 65% no Censo demográfico de 2010 e está em 49% entre os entrevistados do Datafolha de 2022.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,


 ÍNDICE 
Parcela da população brasileira que se diz católica diminuiu de 94% para 65% entre os Censos de 1950 e 2010 e já está em 49% nas pesquisas Datafolha de 2022


"O forte declínio dos católicos em idade de reprodução contribui para a redução no número de crianças educadas em famílias católicas e consequentemente, dos jovens com formação católica", observa o sociólogo.


"Além disso, a igreja católica tradicionalmente tem um enorme contingente de católicos ditos 'nominais', ou seja, que não frequentam os cultos, não estão expostos às autoridades eclesiásticas e nem às suas orientações doutrinais, morais e comportamentais", acrescenta.


"Isso também reduz a socialização religiosa intrafamiliar, aquela que ocorre dentro da família, o que torna menos provável que os filhos de pais católicos permaneçam na religião ou sejam por ela influenciados."


Para o pesquisador, outro fator que explica a maior parcela de jovens sem religião é o fato de que esse grupo tem redes de sociabilidade mais diversas — diferentemente, por exemplo, dos idosos, cuja sociabilidade muitas vezes é restrita à família e à igreja — e está exposto a múltiplas fontes de informação, como colégios, universidades, redes sociais e veículos midiáticos.


"Os jovens ocupam seu tempo engajados em atividades de lazer e entretenimento — o funk, o hip hop, blocos e escolas de carnaval, e por aí vai — que muitas vezes entram em conflito com orientações comportamentais e morais das igrejas cristãs mais conservadoras", observa.


Para Silvia Fernandes, da UFRRJ, isso ajuda a explicar também por que os "sem religião" são em maior número nos grandes centros urbanos, como Rio e São Paulo.


"É preciso considerar que mais de 80% da população brasileira hoje é urbana. E, nas grandes cidades, há uma celeridade da vida e acesso a uma multiplicidade de informações que colocam a religião como uma das esferas possíveis da existência, mas ela não é mais tão determinante para a sociabilidade e o encontro como no mundo rural", diz Fernandes.



 ÍNDICE 
Escolhas eleitorais


Há relação entre o aumento do número de jovens "sem religião" e o fato dessa parcela do eleitorado ser uma das que mais indica intenção de voto em Lula (PT) nas eleições de outubro, já que Jair Bolsonaro (PL) construiu sua imagem como um candidato da comunidade evangélica?


Aqui, os especialistas têm visões diversas.



CRÉDITO,ALESP
Legenda da foto,

Bolsonaro no evento evangélico 'Marcha Para Jesus' em 2019


Para Ricardo Mariano, da USP, isso é sim um fator que contribui para a melhor performance da candidatura petista junto a esse segmento da população.


"O governo Bolsonaro abraçou pautas morais ultraconservadoras, as armas, homofobia, autoritarismo, políticas antiecológicas e anticientíficas, sobretudo na pandemia. Tudo isso afastou muito os jovens", observa o professor.


"Eles [os jovens] têm acesso a muita informação e tendem a ser menos conservadores em uma série de pautas. Por isso a rejeição maior ao governo Bolsonaro", avalia.


Já Regina Novaes, do ISER, destaca que é preciso ter clareza que, assim como os sem religião são uma categoria fluida, os evangélicos não são um grupo estático.


"Sim, é possível pensar que mais jovens longe das igrejas, fazendo suas escolhas, também possam fazer escolhas mais questionadoras e por isso se aproximar do Lula. Mas qual é o perigo dessa pergunta?", questiona a pesquisadora.


"É achar que os jovens evangélicos são estáticos, e que eles são [eleitores de] Bolsonaro, enquanto os sem religião são [eleitores de] Lula. Isso não é verdade. Os evangélicos não são essa massa de manobra que o Bolsonaro pensa que são, eles têm cor, têm classe social, têm local de moradia. Esse é um ponto bem importante e acredito que vamos conhecer melhor o mundo evangélico nessas eleições", avalia.
Visão feminista de classe alta não vê que igreja evangélica pode fortalecer mulher, diz autor de 'O Povo de Deus'

Brasil pode nunca vir a ser país de maioria evangélica?


O crescimento dos sem religião coloca uma dúvida para o futuro do Brasil: pode ser que o país nunca venha a ter uma maioria evangélica, como chegaram a prever alguns analistas?


Olhando para os dados, vemos que, do Censo de 2000 para o de 2010, o percentual de evangélicos no Brasil saltou de 15% para 22%, e os católicos diminuíram de 74% para 65%.


Já na pesquisa Datafolha desse início de ano para o Brasil como um todo, os católicos são 49% dos entrevistados, evangélicos 26% e os sem religião, 14%.


Embora as pesquisas não sejam diretamente comparáveis, pela diferença de abrangência, os números do Datafolha trazem algumas pistas do que esperar para o próximo Censo.


"O declínio histórico do catolicismo continua, com a igreja católica perdendo fiéis a cada década. Mas, ao mesmo tempo, você não tem os evangélicos crescendo na mesma proporção e parte disso é explicado por esse fenômeno dos sem religião", diz Fernandes, da UFRRJ.


Para a professora, alguns fatores explicam a perda de ímpeto da expansão evangélica: em primeiro lugar, as igrejas pentecostais e neopentecostais deixaram de ser uma novidade.


Um segundo fator é a diversificação na oferta dessas igrejas, que faz com que elas disputem entre si pelos fiéis, contribuindo para esse processo de experimentação característico da experiência religiosa mais fluida da contemporaneidade.


Por fim, com as igrejas evangélicas já em atividade há décadas no país, há uma parcela dos fiéis que se decepcionaram com promessas não cumpridas de cura, milagres e prosperidade, ou que não conseguem se integrar às rígidas normas morais e comportamentais, engrossando as fileiras dos "sem religião".


Para Mariano, da USP, ainda assim é de se esperar que os evangélicos sejam um dia maioria.


"É inevitável até por razões demográficas, o perfil dos católicos no Brasil é mais rural, mais velho do que os evangélicos. Os pentecostais têm um contingente enorme de pessoas em idade reprodutiva, mais do que os católicos, além disso, essas igrejas têm uma grande capacidade de recrutamento e manutenção de adeptos. Então é uma questão de tempo", afirma.




 ÍNDICE 
Regina Novaes, do ISER, tem outra visão.


"É difícil fazer 'profecia' sociológica, mas acredito que o Brasil não será um país evangélico. Por dois motivos: o catolicismo não é mais 'a religião dos brasileiros', mas ainda é da maioria dos brasileiros. Ateus e agnósticos vão continuar sendo minoria, mas a categoria dos sem religião passa a fazer parte das alternativas presentes do campo religioso", observa.


"Agora, a ideia é não olhar para os sem religião como uma coisa estática, porque as ofertas [religiosas] continuam existindo. E o lugar que a religião tem na vida — de dar sentido a ela, de tornar o sofrimento 'sofrível' — continua existindo. Então as religiões continuam a ser recursos culturais para os sem religião", acrescenta.


"O Brasil continuará um país de maioria católica, os evangélicos crescerão ainda, mas os sem religião passam a ser uma possibilidade que tem de ser observada."

FONTE https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61329257




 ÍNDICE 
4<<< >>> ÍNDICE     



(4)
Número de pessoas “sem religião” no Brasil tem se mostrado significativo

Igor Dias 27 de maio de 2022 Geral0
Os “sem religião” já são maioria entre jovens de 16 a 24 anos no Rio e São Paulo | Foto: Pixabay

No Censo de 2010, os “sem religião” eram 8% da população brasileira, o equivalente a mais de 15 milhões de pessoas. Esse percentual vem crescendo a cada década. Eles eram 0,5% em 1960, 1,6% em 1980, 4,8% em 1991 e 7,3% em 2000. Com o adiamento do Censo Populacional de 2020, devido à pandemia de COVID-19, não é possível saber com certeza o que mudou na religiosidade do país na última década.

Contudo, pesquisas eleitorais, cujas amostras são construídas com objetivo de refletir a realidade da população, dão pistas importantes neste sentido. As primeiras análises do Datafolha de 2022, por exemplo, mostram que, em nível nacional, 49% dos entrevistados se dizem católicos, 26% evangélicos e 14% “sem religião”, já acima dos 8% identificados no último Censo.

De acordo com o professor de pós- -graduação em Ciências da Religião, Carlos Frederico, há uma diferença entre religião e espiritualidade. “A primeira supõe-se a adesão de certas instituições e marcadores sociais, como uma comunidade, templo e rituais. Já a segunda tem relação com sentidos profundos da existência, conexões e capacidade de aderir a pessoas e ideias”.

Portanto, ser “sem religião” não significa ser sem fé ou crenças. No Censo de 2010, por exemplo, dos 15,3 milhões de brasileiros que se diziam “sem religião”, 615 mil (4% deles) se consideravam ateus e 124 mil se declaravam agnósticos (0,8%).

Segundo a doutoranda em Ciências da Religião, Cláudia Ritz, o grupo autodenominado “sem religião” em seu estudo, afirma ter crenças religiosas. “Ser ‘sem religião’ quer dizer ser desinstitucionalizado.

Eles garantem ter fé e argumentam praticar as próprias crenças de maneira desvinculada das religiões, pois as convicções estão com eles”. Eles mesmos conseguem gerir e regulamentar as próprias crenças, mesmo sendo elas herdadas de processos de transmissão familiares ou institucionais que tenham frequentado. Além disso, esse grupo pode incorporar elementos de diferentes tradições religiosas, apresentando credos plurais.

Nas análises do Datafolha para o Rio de Janeiro, os jovens de 16 a 24 anos que se dizem “sem religião” (34%) chegam a ultrapassar evangélicos (32%), católicos (17%) e outras religiões (17%). Em São Paulo, eles são 30% dos entrevistados, superando 27% de evangélicos, 24% de católicos e 19% de outras religiões.

Cláudia apresenta dois aspectos de sua pesquisa para esse fato. “A fragilização da tradição religiosa, por isso a geração jovem se sente mais autônoma para escolher a própria crença e a urbanização, pois, nesse processo, as pessoas se deslocam para outros centros”.

Ela também indica outros pontos relevantes a serem considerados. “Deve-se pensar ainda no aspecto da globalização e da tecnologia que dá uma difusão de acesso maior a outras culturas e tradições, esses são fatores que impactam diretamente na juventude atual”.

Os motivos para a população “sem religião” vir aumentando durante os anos podem ser diversos. A doutoranda ressalta que alguns pesquisadores dizem que o catolicismo acabou “doando” alguns fiéis para as demais religiões. “Se outras tradições estão com índice crescente é porque um fluxo está acontecendo”.

Cláudia lembra fatores que podem contribuir para o deslocamento. “O fenômeno do crescimento dos evangélicos tem que ser considerado e também o processo identitário da população negra é importante, pois traz correlação com religiões de matriz africana, apesar de eles também fazerem parte de outras religiões”. Ela afirma que o trânsito religioso no Brasil é algo evidente, porém avaliá-lo é complexo e exigiria um trabalho mais apurado.

A estudante Gabriela Moraes, de 23 anos, se considera “sem religião”, mas não sem fé. “A minha família é católica, então acredito em Deus, mas não só nele, possuo outras crenças e sempre fui muito livre em relação a isso, procuro não me prender a apenas uma instituição e seguir cegamente”.

Ela conta que já visitou diferentes terreiros e igrejas e não sentiu estranheza em nenhum. “Eu sempre respeitei todas as religiões e tinha a curiosidade de conhecer diferentes templos e culturas, acho que isso me ajudou a chegar à conclusão de que não preciso escolher apenas uma, se me sinto bem em várias”.

FONTE... https://edicaodobrasil.com.br/2022/05/27/numero-de-pessoas-sem-religiao-no-brasil-tem-se-mostrado-significativo/
ÍNDICE     


A direita cristã e a política externa norte-americana durante a administração W. Bush




 PESQUISA BIBLIOGRÁFICA CIENTÍFICA (com IAC)

investigação realizada pelo Pr. Psi. Jor Jônatas David Brandão Mota
no programa de Graduação e Especialização em Estudos e Pesquisas 
uma das atuações do seu Pastorado4 

Bibliographical Formats

  • Electronic Document Format (ISO)
    MATEO, Luiza Rodrigues. A direita cristã e a política externa norte-americana durante a administração W. Bush. In Proceedings of the 3rd ENABRI 2011 3° Encontro Nacional ABRI 2011, 2011, São Paulo (SP, Brazil) [online]. 2011 [cited 05 May 2022]. Available from: <http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000122011000300013&lng=en&nrm=iso> .
  • Electronic Document Format (ABNT)
    MATEO, Luiza Rodrigues. A direita cristã e a política externa norte-americana durante a administração W. Bush.. In: 3° ENCONTRO NACIONAL ABRI 2011, 3., 2011, São Paulo. Proceedings online... Associação Brasileira de Relações Internacionais Instituto de Relações Internacionais - USP, Available from: <http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000122011000300013&lng=en&nrm=abn>. Acess on: 05 May. 2022.



 
3, v.3De caliban a próspero · a identidade nacional e a política externa republicana: primeiras aproximaçõesGoverning the commons and common governing author indexsubject indexsearch form
Home Pagealphabetic event listing  





Print ISBN 2236-7381

3° Encontro Nacional ABRI 2011 2011

 

A direita cristã e a política externa norte-americana durante a administração W. Bush

 

 

Luiza Rodrigues Mateo

 


RESUMO

A chamada direita religiosa constitui um importante ator na recente história política norte-americana. A articulação de evangélicos e católicos conservadores originou uma agenda para temas como aborto, pesquisa com células-tronco, casamento gay, criacionismo, abstinência sexual, seularismo e big government, entre outros temas sensíveis e determinantes no jogo político doméstico. Conquanto a mobilização deste grupo de interesses tenha histórico de pelo menos três décadas, foi durante a administração republicana de George W. Bush que a direita cristã atingiu seu auge, quando seus membros puderam circular livremente nos corredores do poder em Washington. Além dos estreitos laços mantidos com membros do Partido Republicano, líderes da direita religiosa empreenderam reuniões a portas fechadas na Casa Branca, no Congresso e na Suprema Corte. Já na política externa, a influência da direita cristã se fez sentir pela adesão aos programas financiados pelo Office of Faith Based and Community Initiatives e em temas como o apoio a Israel, a promoção da liberdade religiosa, o combate ao ativismo ambientalista e, em alguma medida, o suporte a própria guerra ao terror, fortalecendo a popularidade da visão maniqueísta entoada oficialmente pela presidência. Na tentativa de delimitar as interfaces entre religião e política nos Estados Unidos, verificamos a composição da direita cristã e seu modus operandi, esboçando o perfil deste que é um dos alicerces da nova direita americana.

Palavras-chave: direita religiosa, política externa, Estados Unidos


 

 

[a direita religiosa] transformou o Partido Republicano, a agenda política nacional e a cristandade evangélica. Sua história esteve entrelaçada com o movimento dos direitos civis, o nascimento do Bible Belt, o realinhamento político do sul e com a política externa americana. (WILLIAMS, 2010, p.9)

A direita religiosa é um movimento de conservadores sociais cujo objetivo é a retomada da moralidade americana que, no século XX, esteve ameaçada pelo avanço do homossexualismo, feminismo e uso de entorpecentes, além do currículo evolucionista e do banimento da oração nas escolas públicas. Seu maior inimigo é o Estado secular, humanista e liberal, que deu espaço para a atual crise de valores - crescimento da promiscuidade, divórcio, índices de suicídio, eutanásia e aborto - e da família americana. (FINGUERUT, 2009, p.142)

O movimento fundamentalista que nasce na virada par a década de 1920 é uma reação ao liberalismo teológico e uma tentativa de revigorar os traços protestantes da nação. O fundamentalismo logo se torna um movimento amplo de combate ao liberalismo cultural em prol da tradição, com foco nas instituições públicas como escolas e governo. A direita cristã se fortaleceu com as tendências religiosas dos Estados Unidos ao longo do século XX: o declínio das denominações protestantes mainstream e o aumento das igrejas fundamentalistas, pentecostais, carismáticas e da Convenção Batista do Sul.

Estes conservadores religiosos atuaram enquanto sociedade civil organizada, defendendo sua agenda moral em programas de rádio e tevê, revistas e organizações pró-família. A face política desta agenda religiosa ficou por muito tempo frustrada pela indiferença dos partidos à "guerra cultural". Na década de 20, houve uma aproximação com políticos democratas em defesa da Prohibition Law (proibição da comercialização e consumo de bebidas alcoólicas).

Já na década de 40, fundamentalistas de diversas denominações e regiões do país criam a National Association of Evangelicals (NAE), passando a exercer lobby em Washington e ampliando sua agenda do plano social para o econômico e internacional. O avanço dos temas religiosos foi tributário ao alinhamento à "guerra cultural" e ao apoio a "leis de base moral" (como a proteção de radiodifusão evangélica e restrições na propaganda de álcool).

A aproximação da direita religiosa com a política republicana se deu em duas etapas. No período que vai de 1940-60, o Grand Old Party (GOP) era visto como o partido do anticomunismo e da tradição moral. Apesar de estreitados laços entre os religiosos (principalmente Billy Graham) e os presidentes Eisenhower e Nixon, a direita religiosa não influenciou amplamente a política nacional ou a organização do GOP. Neste período, as divergências internas do protestantismo americano dificultaram a expressão uníssona da direita religiosa. Fundamentalistas como Bob Jones e Jerry Falwell eram mais refratários ao alinhamento com liberais ou católicos que Graham e os evangélicos moderados da NAE.

Se a candidatura do católico John Kennedy, em 1960, logrou unificar diversas frentes do movimento religioso conservador, a vitória democrata os colocou como outsiders em Washington. Nesta década, o mote da direita cristã foi o antissecularismo e a defesa da família americana. As rápidas mudanças sociais, como a revolução sexual e a contracultura, catalisaram a reação de conservadores, que por sua vez se apegaram ao anticomunismo e às legislações sobre aborto (principalmente Roe v. Wade) e sobre direitos civis (Equal Rights Amedndment).

A partir da década de 1970, os conservadores religiosos lograram ampliar suas alianças e influenciar a agenda republicana. "O que mudou não foi o interesse dos evangélicos pela política, mas seu nível de comprometimento partidário." (WILLIAMS, 2010, p.2) O apoio de inúmeros fundamentalistas batistas trazidos por Falwell, pentecostais e carismáticos por Pat Robertson e da volumosa Convenção Batista do Sul foi fundamental para o estreitamento dos laços com o GOP.

Nos anos Carter, a oposição à lei fiscal para escolas particulares culminou na ampla mobilização de cristãos, que escreveram mais de 500 mil cartas-protesto. Em 1979 o pastor Jerry Falwell criou a Maioria Moral - agência de lobby evangélico que agregava, em seu debut, 300 mil membros. (FINGUERUT, 2009, p. 120-122.

Organizações da direita religiosa mobilizaram seus adeptos, encorajando-os a filiação junto ao Partido Republicano, assumindo seus escritórios locais por toda a América, e participando de eleições em todos os níveis. Eles têm sido extremamente eficazes no tratamento do processo democrático para garantir apoio máximo as suas perspectivas política e religiosa. (MARSDEN, 2008, p.16)

O tabuleiro político dos Estados Unidos na década de 80 foi influenciado pela aliança entre os neoconservadores e a direita religiosa. Os cristãos conservadores iniciaram, então, uma aproximação com o universo judeu americano, dando espaço para discursos pró-Israel, notadamente os proferidos por Falwell, e consolidando o sionismo cristão moderno.

Programas de televangelistas americanos trabalhavam com orçamentos multimilionários e atingiam diariamente 60 milhões de americanos - o que representava um quarto do eleitorado. Criada em fins da década de 50, a CBN (Christian Broadcasting Network) de Pat Robertson e seu programa "Clube dos 700" faziam sucesso estrondoso e já em 1985 atingiam um milhão de americanos, além de 60 países na África, América Central e Oriente Médio. (FINGUERUT, 2009, p.126-127) Os programas de rádio de James Dobson alcançavam, semanalmente, 5 milhões de ouvintes americanos. No final do século XX, os EUA tinham mais de 200 estações de televisão cristãs e 1.500 rádios cristãs. (MARTIN, 1999, p.71)

Os evangélicos cresceram em número e capacidade de influência. Além da presença marcante na mídia, com shows de grande audiência e livros best-sellers, fundaram escolas e universidades, como a Liberty University de Falwell, a Bob Jones University ou a Regent University de Pat Robertson. Logo ficou evidente a capacidade de mobilização evangélica, seja na arrecadação de recursos, no registro para o voto, ou na formação de quadros políticos.

A eleição de Reagan (político pessoalmente comprometido com as ideias da direita religiosa) deu aos evangélicos a influência política necessária para aumentar seu poder sobre o GOP (sobretudo no sul). A direita religiosa passava por um momento de crescimento político através dos insiders na capital. Na virada dos anos 80, surgiram doze organizações evangélicas dispostas a moldar o curso da política americana, donde se destacam o Focus on the Family (1977) de James Dobson, o Concerned Woman for America (1979) de Bev LaHaye, o Family Research Council (1982) de Gary Bauer e o Traditional Values Coalition (1980) de Lou Sheldon.

Influenciado por Ralph Reed, proeminente ativista da Assembleia de Deus, Pat Robertson cria a Coalizão Cristã a fim de trazer novos eleitores para sua campanha pela indicação no GOP em 1988. A Coalizão Cristã seguiu bastante articulada com grupos da direita americana, nos níveis local e nacional. Com 1,7 milhão de membros e 1.700 escritórios por todo o país, a organização de Robson dispôs de um dos maiores lobbies do Senado Federal. (PEREIRA, 2009, p.229)

A ideia era não somente montar uma campanha presidencial, mas construir uma duradoura plataforma política que pudesse, a partir do Partido Republicano, transformar os valores americanos, principalmente os temas da educação, família e do papel do Estado. O ativismo cristão deveria estar em prol da mudança política. Não obstante tenha conseguido arrecadar US$ 30 milhões para sua campanha, através de fiéis e telespectadores da CBN, os pouco mais de um milhão de votos (cerca de 9%) não foram suficientes para superar o então vice de Reagan, George H. W. Bush, que saiu como candidato do partido em 1988.

Os anos 90 serviriam para retomar o fôlego. A direita cristã contava, na convenção nacional do Partido Republicano de 1992, com metade dos delegados "cristãos renascidos". De fato, 40% dos candidatos apoiados pela direita cristã venceram nas eleições legislativas, aumentando o peso relativo da direita religiosa no Congresso e no GOP. (FINGUERUT, 2009, p.131)

No final do século vinte, a direita religiosa liderava pelo menos um terço dos comitês estaduais republicanos, elegendo políticos e congressistas conservadores, principalmente no Meio Oeste e no Sul, e empurrando a agenda do partido cada vez mais à direita. "Se tornou impossível, para qualquer candidato do GOP à presidência ignorar as demandas da direita cristã sobre aborto, direitos gay e outros temas sociais." (WILLIAMS, 2010, p.8.

Nas eleições presidenciais de 1994, a direita religiosa apoiou o peleoconservador Pat Buchanan que, com apenas 20% dos votos, perdeu as prévias republicanas para Bush pai. Ainda que a base eleitoral da direita cristã fosse grande (20% do eleitorado se dizia renascido cristão ou fundamentalista), o GOP declinou e Bill Clinton assumiu a Casa Branca. Já nestas eleições pode-se observar o poder de voto do bloco evangélico. Em 1994, 60% dos evangélicos votaram em Bush pai, assim como 70% dos frequentadores de igrejas.

Dois anos mais tarde, os republicanos e principalmente a direita cristã saíram como grandes vitoriosos das eleições congressuais. Em 1996, eles atingiram a maioria nas duas casas do Congresso, além de trinta estados. O liberalismo de Clinton reascendeu o conservadorismo religioso e político da nova direita.

Foi exitosa [...] a estratégia histórica da articulação da direita cristã ao Partido Republicano datada da década de 1980 e, da mesma forma, a instrumentalização do "nascer de novo" de Bush acabou por angariar o apoio dessa porção da sociedade civil organizada e esperançosa na obtenção de recursos e apoio governamental para a sua ação e reprodução. (PEREIRA, 2009, p.206)

Os anos 2000 seriam definitivos para a experiência da direita religiosa no poder em Washington. George W. Bush era um renascido evangélico que explorou abertamente sua fé pessoal para se comunicar com sua base eleitoral. A coalizão formada entre Reed, Dobson e Richard Land foi fundamental na mobilização do eleitorado religioso. Em 2000, 68% dos evangélicos brancos votaram em Bush, proporção que aumenta na ocasião de sua reeleição. Em 2004, 78% dos evangélicos brancos confiaram seus votos ao republicano. O ganho de poder evangélico também aparece com o aumento da bancada religiosa no Congresso, que passou de 10% em ambas as casas em 1970 para 25% em 2004. Nesta época, de um total populacional com 300 milhões nos EUA, 60 milhões se identificaram como direita religiosa. (MEAD, 2007, p.111-12.

A gestão George W. Bush foi a mais propensa a apoiar as demandas da direita cristã. O presidente era visto como o maior líder do movimento, e vários cargos em Washington foram concedidos a conservadores morais. Os resultados concretos do movimento religioso, no entanto, se mostraram diminutos. No final da administração Bush, o aborto ainda era legal e a oração na escola proibida. O público americano estava cada vez mais favorável aos direitos gay, com muitos estados aprovando uniões civis e casamentos do mesmo sexo.

Conquanto 70% dos evangélicos tivessem votado em candidatos republicanos nas eleições congressuais de 2006, preponderava uma desilusão, principalmente dos jovens, para com o GOP. Isto se deveu ao lento avanço da agenda cristã, ao desgaste do discurso da "guerra cultural" e aos escândalos pessoais envolvendo líderes da direita religiosa, como Tom DeLay.

Em 2007, apenas 40% dos jovens evangélicos se identificavam como republicanos (comparado com 55% dois anos antes). A juventude religiosa do século XXI estava preocupada com questões ambientais e sociais - como a pobreza, AIDS e tráfico de pessoas. Em suma, o estilo confrontacional de Falwell, Robertson e Dobson estava em crise. "Os conservadores evangélicos descobriram que podiam ganhar eleições, mas não mudar a cultura. Havia capturado um partido, mas falharam em recuperar a nação." (WILLIAMS, 2010, p.8.

Muitos analistas americanos diagnosticaram, com o final da administração George W. Bush, um franco declínio da direita religiosa. Os dados das eleições de 2008, entretanto, reforçam a relação entre religiosos devotos e republicanos. A escolha da conservadora pró-vida Sara Palin como vice na chapa de John McCain atraiu muitos votos evangélicos. Com a adesão de Palin, o apoio cresceu 10%. De fato, a adesão evangélica foi tão importante na campanha de McCain (constituiu 38,5% de seus votos) quanto nas campanhas de Bush em 2000 (40%) e 2004 (36%). McCain recebeu o apoio nas urnas de 73% dos evangélicos e 80% dos evangélicos brancos que iam semanalmente à igreja. (WILLIAMS, 2010, p.275)

Apesar do desgaste da imagem pública de muitas lideranças da direita religiosa e do encolhimento do poder republicano com as eleições de 2006 e 08, o GOP ainda parece ser o único caminho para conservadores religiosos que pretendem "retomar a alma da América".

 

Direita cristã e política externa

A direita cristã foi ampliando progressivamente o escopo de sua agenda e incorporando temas de política externa. Durante muito tempo, a única preocupação internacional dos conservadores religiosos foi o combate ao comunismo ateu, dentro e fora dos Estados Unidos. Na gestão Reagan, por exemplo, as forças evangélicas apoiaram a corrida armamentista e as investidas contra a União Soviética e contra movimentos de esquerda na América Central. A CBN de Robertson financiou parcela das operações anticomunistas na Nicarágua, Honduras e Guatemala.

A Maioria Moral de Jerry Fawell, o Freedom Council de Pat Robertson e a Heritage Foundation foram alguns dos muitos grupos de direita envolvidos no Outreach Working Party on Central America da administração Reagan, elaborando propaganda e estratégia no apoio à campanha de assassinatos seletivos e outras atividades anticomunistas. (MARSDEN, 2008, p.32)

O mandato de Bush pai, em sua determinação em findar a Guerra Fria, frustrou amplamente direita religiosa. A administração Clinton, por sua vez, manteve o executivo impermeável à política religiosa que passou a trabalhar sua agenda internacional no âmbito do lobby congressual e da mídia cristã, com destaque para o tema dos cristãos perseguidos no Sudão. Nos anos 90, os conservadores ainda pressionaram contra a inclusão da China ao status comercial de "nação mais favorecida" devido aos níveis de perseguição religiosa do governo comunista chinês. Em 1998, deputados conservadores conseguiram bloquear US$18 bilhões em fundos ao FMI (Fundo Monetário Internacional) que iriam para organizações que apoiam o aborto como método de controle de natalidade.

Ainda que a direita cristã não controle nenhum think tank capaz de influir diretamente na tomada de decisão, ela está bem representada em organizações de peso como a Heritage Foundation, o Council of Foreign Relations, o Hudson Institute (onde Nina Shea dirige o Center for Religious Freedom) e o Ethics and Public Policy Center, dirigido pelo conservador Michael Cromartie.

Foi durante a administração Bush filho que a direita cristã se tornou um relevante ator da política externa americana, ocupando cargos importantes em Washington, formulando políticas públicas e representando os EUA no mundo. Como veremos adiante, a direita religiosa esteve afinada com o discurso messiânico e atitude altiva americana na expansão da democracia e combate ao terror.

O isolacionismo que deu cor à agenda internacional da direita religiosa e aos discursos de Falwell e Robertson tem origem na teologia dispensacionalista, que tentou encontrar em líderes como Hitler, Stalin ou mesmo na União Europeia a imagem do anticristo e a aproximação do fim dos tempos. O inimigo é personalizado em instituições seculares como as Nações Unidas (ONU) e a Corte Criminal Internacional. A direita cristã interferiu, por exemplo, na conduta norte-americana durante a Conferência Mundial da Mulher em Beijing, de 1995, e a Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989. (MARTIN, 1999, p.77-79)

Consoante Walter R. Mead (2007), as principais mudanças trazidas pela direita religiosa para a política externa americana seriam o grande apoio ao tema dos Direitos Humanos, o aprofundamento das relações com Israel e uma preocupação especial com o continente africano. O lobby evangélico no Capitólio contribuiu na aprovação de legislações relevantes para a política externa americana, como o International Religious Freedom Act de 1998, o Trafking Victims Portection Act de 2000, o The Sudan Peace Act de 2002 e o North Korea Human Rights Act de 2004. (HAYNES, 2008, p.75) Para termos uma ideia, durante a gestão Bush filho, o auxílio destinado à África subiu 67% e US$15 bilhões foram destinados exclusivamente ao combate da AIDS. (MEAD, 2007, p.112-13.

No plano global, os motivos que nutrem a direita cristã são os mesmos da agenda doméstica: descrença no governo secular, combates às ameaças que ferem a tradição e os valores familiares, liberdade para pregar e praticar sua religião sem restrições, e a convicção de que a globalização é o cumprimento da profecia bíblica do Armageddon. (MARTIN, 1999, p.67.

 

A direita religiosa e a administração Bush

A seleção dos membros de gabinete e da Casa Branca fez da administração George W. Bush a mais abertamente evangélica de todos os tempos. O presidente frequentemente discutia sua fé e experiência de renascimento cristão, começava cada dia no Salão Oval com uma oração e frequentava, junto a 40% de seus colegas de Casa Branca, os estudos semanais da Bíblia. (WILLIAMS, 2010, p.252)

[...] a partir do 11 de setembro, a direita cristã teve sua maior oportunidade para influenciar a política externa dos Estados Unidos. Eles tomaram estas oportunidades oferecidas pelo Partido Republicano, Congresso e administração George W. Bush, para influenciar, em termos de assistência humanitária, a condução da política norte-americana de expansão democrática, diretos humanos, ajuda externa, meio-ambiente, a questão de Israel e a guerra ao terror. (MARSDEN, 2008, p.21)

Nesta administração, a direita religiosa celebrou ganhos tangíveis - Bush assinou o Partial-Birth Abortion Act (2003), o Unborn Victms of Violence Act (2004), aumentou o financiamento para campanhas de educação sexual pela abstinência, restringiu a pesquisa com células tronco-embrionárias e deu uma ordem executiva, dias após sua posse em Washington, para estabelecer as iniciativas baseadas da fé. Além dos evangélicos que ocuparam assentos no Executivo, Bush apontou conservadores sociais para a Suprema Corte e importantes postos no exterior.

Fundamentalistas e evangélicos foram entusiastas do projeto de promoção da democracia pela política externa dos EUA, uma vez que a abertura política facilitou o programa missionário em países comunistas, mulçumanos ou autoritários. A direita religiosa gerou apoio popular e suporte teológico para a campanha democrática de Bush, mirando na capacidade do liberalismo político e do "american way of life" de sustentar a liberdade religiosa e, com ela, o proselitismo internacional. Ficava garantido, assim, o lugar das igrejas cristãs no "mercado religioso" de países no leste europeu, Ásia, África e Oriente Médio. (MARSDEN, 2008, p.90-112)

Neste âmbito, cabe destacar a campanha da direita religiosa pela liberdade religiosa, originada nos anos 90. Dentre outros, Nina Shea e Michael Horowitz foram os expoentes da luta pelos perseguidos cristãos no exterior, que culminou na criação do International Religious Freedom Office em 1998. Instituída a nova diretriz de direitos humanos, o Departamento de Estado se responsabilizou por monitorar e punir os governos que ferissem o livre exercício da fé. O governo americano garantiu mudanças constitucionais favoráveis ao pluralismo religioso no Vietnã, Laos, Arábia Saudita e Iraque. A direita religiosa segue preocupada com os níveis de restrição à liberdade religiosa (principalmente de cristãos) em países como China, Birmânia, Coréia do Norte, Uzbequistão, Paquistão, Irã e Sudão.

 

A direita religiosa e o combate ao terrorismo

A guerra ao terror ajudou a unificar e reavivar a direita religiosa, cimentando os laços entre o presidente Bush e o movimento. "Depois de setembro de 2001, Bush se tornou o líder de facto da direita evangélica". (WILLIAMS, 2010, p.254) Dois dias após os ataques, Jerry Falwell e Pat Robertson falaram no show televisivo "Clube dos 700" que os ataques terroristas eram consequência do julgamento de Deus sobre os pecados sexuais, aborto, humanismo secular que dominavam a América. O terrorismo era visto, pela direita religiosa, como o "novo comunismo".

O periódico evangélico Christianity Today descreveu a política externa de Bush como morality-based e faith-based. O próprio presidente teria admitido a influência da sua fé na tomada de decisão e, principalmente depois dos ataques em New York e Washington, sua linguagem esteve marcadamente influenciada pelo imaginário evangélico. Os eventos de 11 de setembro foram aludidos como um "chamado" à América contra as "forças do mal" representadas pelo terrorismo islâmico - "[...] liberdade e medo, justiça e crueldade têm estado em guerra, e nós sabemos que Deus não é neutro entre eles".

A equipe que escrevia os discursos de Bush incluía o evangélico Michael Gerson. As abundantes metáforas religiosas derivavam, também, do próprio "acervo bíblico" do presidente metodista. "Quando Bush fala, ele se coloca como um evangélico conservador e um membro da direita religiosa." (MARSEDN, 2008, p.106) O simbolismo religioso conectava liberdade e democracia aos valores ocidentais e à herança judaico-cristã na construção do excepcionalismo americano.

As invasões do Afeganistão e do Iraque foram respaldadas pelas lideranças da direita religiosa que, baseadas na escatologia fundamentalista, viam Bush como o homem escolhido por Deus para conduzir o país na derradeira batalha entre bem e mal. Visões maniqueístas colocavam Saddam Hussein como uma força das sombras, o governador da antiga Babilônia (conhecida na linguagem bíblica como lócus do mal). Quase 65% dos evangélicos apoiaram a invasão do Iraque me fevereiro de 2003. Pouco antes da empreitada, respeitados líderes evangélicos, dentre eles Richard Land e Charles Colson, escreveram uma carta a Bush pedindo pela guerra contra Saddam. (WILLIAMS, 2010, p.255)

 

A direita religiosa e o meio ambiente

O antiambientalismo da direita religiosa se nutre de três fontes: a refutação das evidências científicas do aquecimento global, a escatologia que prevê a segunda vinda de Cristo para a criação de um "novo paraíso" na Terra, e a oposição a organismos multilaterais como a ONU. Dentro do Partido Republicano, a voz da direita religiosa se une ao coro dos interesses corporativos e conservadores fiscais. As indústrias petrolífera e automobilística obtiveram o apoio de líderes como Dobson e Land para fazer lobby em Washington contra a "onda verde". Em 2002, a administração Bush rejeitou um relatório ambiental elaborado pelo Pentágono. No ano seguinte, adotou o texto do Environmental Protection Agency, que não mencionava o aquecimento global antropogênico.

Apesar da profunda ligação entre a "velha guarda" da direita religiosa e os setores industriais, evidências como desastres ambientais despertaram, na nova geração de evangélicos, a demanda pelo debate ambientalista. O vice-presidente da NAE, Rochard Cizik, tomou dianteira ao se unir ao movimento internacional Evangelical Climate Initiative e lançar o documento Climate Change: and evangelical call to action (2006), apontando o dever cristão de cuidar do planeta. Líderes da direita religiosa, como Dobson e Land, contestaram a representatividade da NAE, a legitimidade de Cizik e atuaram pelo seu afastamento. (MARSDEN, 2008, p.156-60)

Para os protestantes fundamentalistas, os desastres naturais são evidências da aproximação do retorno de Jesus para o grande julgamento. O papel do bom cristão não seria remediar o meio-ambiente, mas salvar almas. O ambientalismo seria, portanto, uma demonstração de falta de confiança em Deus, uma maquinação do anticristo e das forças de esquerda para erguer um governo mundial.

Assim, a bancada evangélica, em ambas as casas do Congresso, ajudou o governo Bush a refrear um comprometimento com programas de controle na emissão de gases estufas, como o Protocolo de Kyoto. Este é o caso do senador republicano James Inhofe que, à frente do Environment Public Works Comitee (2003-07) demonstrou grande indiferença para com os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

 

As iniciativas baseadas da fé

Durante a administração Bush, os conservadores religiosos tiveram grande influência nas políticas públicas dos Estados Unidos. Destaca-se o Office of Faith Based and Community Initiatives criado em janeiro de 2001e considerado por muitos a recompensa pelo apoio maciço dos evangélicos nas eleições de 2000, verdadeiro patrocínio estatal para a direita cristã. Este escritório, criado no âmbito da Casa Branca, se projetou ainda sobre cinco núcleos nos ministérios da Saúde e Serviços Humanitários, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Educação, Trabalho e Justiça.

Criou-se, assim, um mecanismo institucional que permitiu a projeção de organizações religiosas através de projetos voltados aos serviços de bem-estar social. A gestão Bush diminuiu barreiras regulatórias e aproximou a sociedade civil religiosa do governo federal, facilitando o acesso a fundos públicos de contribuintes. Somaram-se às reformas legislativas muitas campanhas para aumentar o acesso à informação e o treinamento técnico para capacitar as organizações religiosas. Após alguns anos construindo know how em casa, estas organizações (de maioria cristã) passam a atuar no exterior através do canal oficial de ajuda externa, a USAID (U.S. Agency for International Development).

A USAID administra aproximadamente US$10 bilhões anuais em programas de ajuda externa em 84 países em desenvolvimento, dos quais metade tem maioria mulçumana. Paradoxalmente, a maioria das organizações islâmicas falha na solicitação dos fundos pelas Iniciativas Baseadas na Fé. Do montante destinado aos projetos, 98% são manejados por organizações cristãs. Da mesma forma, muitas organizações seculares têm projetos negados pela USAID por defenderem, por exemplo, o aborto como uma opção para planejamento familiar e saúde reprodutiva. (MARSDEN, 2008, p.125)

Muitas organizações da direita cristã, como a Operation Blessing e a Samaritan's Purse (de Franklin Graham) receberam dezenas de milhões de dólares e, através dos projetos da USAID, puderam aumentar sua presença missionária pelo globo. (MARSDEN, 2008, p.72) Enquanto isso, os parceiros tradicionais sofreram cortes de recursos. A predileção pelas organizações religiosas é tácita e diluída nos gabinetes em Washington, sobretudo através de membros da direita cristã ocupando cadeiras importantes na USAID. (MARSDEN, 2008, p.125)

Nos anos Bush filho, a luta por corações e mentes na oposição ao terror incentivou a injeção de incríveis montantes para ajuda externa americana. De 2002 a 2004, o orçamento da USAID dobrou de US$7 bilhões para US$14 bilhões. Os gastos exclusivos com as iniciativas baseadas na fé somaram US$1,1 bilhão em 2003 US$2,15 bilhões em 2005. Estima-se que 57% das congregações religiosas americanas estejam engajadas em algum serviço social, geralmente com desenvolvimento comunitário para atender necessidades imediatas como comida, roupa e abrigo. (PEREIRA, 2009, p.218)

Apesar de formalmente renunciarem ao proselitismo, as organizações acabam invariavelmente vinculando sua formação religiosa aos serviços prestados. Há relatos de que mensagens religiosas estejam associadas ao auxílio humanitário, como caixas de mantimentos da Convenção Batista do Sul, que traziam a grafia, em árabe, do versículo 1:17 de João - "Porque a Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo." (PEREIRA, 2009, p.227.

Na África subsaariana, condicionamentos para financiamentos e instalações médicas são importantes fronts para a evangelização. "Juntamente com assistência de saúde, os pacientes são sujeitados a versos bíblicos, mostras de "filmes de Jesus" e proselitismo dos médicos e enfermeiros." (MARSDEN, 2008, p.128-129) Muitas organizações só contratam cristãos e incentivam seus membros a converter os que recebem ajuda.

A mobilização dentro do aparato estatal é ainda complementada com dezenas de milhares de voluntários que excursionam pelo mundo para "salvar almas". São jovens americanos instruídos por seus mentores espirituais a começar negócios ou trabalhar nas áreas da saúde e educação em diversos países subdesenvolvidos. Fundamentalistas como Franklin Graham e Pat Robertson não escondem sua visão sobre o islã e apontam países mulçumanos como alvos de conversão.

 

A direita cristã nos círculos militares

A direita cristã não esteve presente somente como agente de soft power, a moldar programas de ajuda externa norte-americana, mas instalou-se no seio do aparelho militar, o Pentágono. Segundo Marsden, as campanhas de evangelização são ostensivas e muitos "renascidos cristãos" ocuparam importantes posições militares durante o governo Bush. (2008, p. 10-13.

Em 2006, um vídeo produzido pela organização evangélica conservadora Christian Embassy mostra oficiais de alta patente, em uniforme militar, exaltando sua religiosidade. Uma série de escândalos e investigações nas Academias do Exército, Marinha e Forças Armadas revela uma cultura militar abertamente religiosa e um ambiente que encoraja a evangelização dos novatos.

Investigações a partir de denúncias do Instituto Militar da Virgínia, da Academia da Força Aérea, Academia Naval em Annapolis . West Point, entre 2004 e 2009 revelam grande pressão sobre os cadetes e aspirantes da marinha para que se convertam ao cristianismo evangélico. A Fundação Militar Liberdade Religiosa recebeu mais de quinhentas reclamações de preconceito religioso por mês. (MARSDEN, 2009, p. 12)

A influência da direita cristã também se estende aos campos de batalha do Afeganistão e do Iraque. Ao longo dos últimos anos, os evangélicos conservadores assumiram quase sessenta por cento dos postos de capelania militar. Na cidade de Najaf, um capelão americano ofereceu aos soldados a possibilidade de nadar na piscina em troca de sua conversão e batismo. Mesmo em serviço, os soldados recebem mídias com os cultos em suas igrejas nos EUA, e nos alojamentos eles atendem a atividades religiosas, realizam reuniões para ler a Bíblia e rezar.

Estes eventos, que permeiam muitas atividades internacionais americanas, nos mostram como a recente influência que grupos religiosos organizados, dos quais destacamos a direita cristã, misturam imperativos teológicos e doutrinários com projetos políticos, moldando a construção do interesse estadunidense.

 

O Lobby de Israel

Em seu artigo seminal, Walt e Mearsheimer (2006, p.43-73) definem a relação entre Estados Unidos e Israel como central para a política norte-americana no Oriente Médio. A atuação do Lobby de Israel constrói a percepção de que os interesses estratégicos entre os dois Estados são idênticos, e de que os valores compartilhados fazem da relação americana-israelense a "mais especial de todas" e uma "relação de família da política internacional".

Os Estados Unidos direcionaram um quinto de sua ajuda externa a Israel, em soma de US$3 bilhões anuais. O parceiro especial é brindado com a transferência financeira em parcela única no início do ano fiscal, sem necessidade de prestar contas e afrouxamento das condicionantes para gastos militares. O montante global em ajuda externa a Israel chega perto de US$ 200 bilhões. (MARSDEN, 2008, p.177)

O apoio diplomático permanente se revela pelos vetos americanos a causas prejudiciais a Tel Aviv no Conselho de Segurança da ONU. Muitos seriam os canais de expressão da política pró-israelense, direcionada pela frouxa coalizão de indivíduos e organizações que compõe o lobby. Dentre estes se destacam o American-Israel Public Affairs Committee (Aipac), o Washington Institute for Near Est Policy (Winep), neoconservadores, cristãos evangélicos e sionistas cristãos.

Diversos meios de influência envolvem pressão sobre o Congresso, a mobilização de eleitores e financiamento de candidatos pró-Israel, atuação em campi universitários, think tanks, controle da opinião pública, coordenação com lideranças em Tel Aviv e pronta resposta (através, por exemplo, de campanhas de redação de cartas) às críticas em relação a Israel. A influência do Aipac no Executivo, por exemplo, se deve ao peso do eleitorado judeu e de suas doações em campanhas presidenciais. O levantamento de fundos da comunidade judaica pode somar 60% do orçamento de ambos os partidos.

Segundo Daniel Pipes, o conflito árabe-israelense tem grande peso eleitoral e ajuda a definir ideologicamente os partidos. Ao final da Guerra Fria, a simpatia republicana por Israel aumentou, e a causa palestina ficou isolada como uma bandeira das esquerdas. O panorama é ilustrado pelos 72% dos republicanos, e apenas 47% dos democratas, simpatizantes da causa israelense. (PIPES, 2006)

Foi durante a administração Bush filho que membros do Lobby israelense assumiram postos altos na equipe governamental, donde se destacam Elliot Abrams (diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional para assuntos do Oriente Próximo e Norte da África), John Bolton (subsecretário para controle de armas e segurança internacional), Douglas Feith (subsecretário de defesa), "Scooter" Libby (assessor do vice-presidente Dick Cheney para questões de segurança nacional), Richard Perle (presidente do Conselho de Política de Defesa) e Paul Wolfowitz (subsecretário do Departamento de Defesa e posteriormente presidente do Banco Mundial). (WALT e MEARSHEIMER, 2006, p.63)

A direita cristã tem se tornado o grupo que dá maior suporte à causa israelense nos Estados Unidos, perdendo espaço até mesmo para a comunidade judaica do país. Se fizermos um levantamento dos nomes que sustentam o sionismo cristão, encontraremos o vice Cheney, John Bolton (embaixador norte-americano na ONU) e Wolfowitz. No Congresso, os defensores da política especial para o parceiro judeu são os deputados Dick Armey, Tom Delay, Bill Frist e Rick Santorum.

No púlpito das igrejas e na mídia religiosa, destacam-se Falwell, Robertson e Reed como lideranças pró-Israel. A operacionalização do Lobby israelense pela direita cristã vai da organização de caravanas de turismo religioso à Terra Santa ao financiamento de assentamentos na faixa de Gaza e à defesa da transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, a "capital indivisível" de Israel.

O fundamento do chamado sionismo cristão reside na escatologia fundamentalista admitida pela direita religiosa, que coloca Israel no centro do cumprimento da profecia bíblica da segunda vinda de Jesus Cristo à Terra, no final dos tempos. (MARSDEN, 2008, p. 184) Esta tese é conhecida como pós-milenarismo e tem origem na interpretação literal do Primeiro Testamento, sustentando o retorno do messias acontecerá somente quando os judeus estiverem reunidos na Terra Santa. Característica do fundamentalismo americano, o sionismo cristão defende o apoio cego e irrestrito a Israel, pois assim os Estados Unidos estariam "apressando" a virada apocalíptica.

É importante salientar que nem todos os membros da direita cristã são sionistas cristãos. Uma pequena minoria defende que a igreja ocupou o lugar de Israel na aliança com Deus, outros defendem a conversão dos judeus ao cristianismo. Os sionistas cristãos creem na ligação eterna de Deus com o povo judeu, motivo pelo qual os Estados Unidos devem proteger a Terra Santa e os descendentes de Abraão. Para o pastor John Hagee, com o renascimento de Israel em 1948 e a unificação de Jerusalém em 1967, o retorno de Cristo é iminente. Assim como Tim e Bev LaHayne, James Dobson e Tony Perkins, todos líderes da direita cristã, Hagee é um comunicador de massas e sua opinião é endossada por 25 milhões de evangélicos norte-americanos. (MARSDEN, 2008, p.182-86)

 

Considerações Finais

O breve texto objetivou descrever o histórico de atuação da direta religiosa ao longo do século vinte até seu auge durante o governo George W. Bush. Organizações como a Maioria Moral, a Coalizão Crista e a Convenção Batista do Sul conquistaram crescente influência na política americana, na medida em que estiveram associadas a líderes carismáticos, meios de comunicação de massas e, sobretudo, à mensagem religiosa interiorizada por grande parte da população.

Devido à sua capacidade de somar fundos, financiar campanhas e mobilizar a população para o voto, a direita religiosa ganhou poder e conseguiu se instalar no seio do Partido Republicano. Ali, muitas vezes foi instrumentalizada em tempos de eleição. Todavia, no longo prazo o debate da "guerra cultural" se mostrou um grande divisor de águas na política americana. Apesar de conquistas tímidas frente ao avanço do liberalismo social, a direita religiosa seguiu articulando seus temas: a favor da família e da oração nas escolas, contra o aborto e o casamento gay.

Nos anos Bush os evangélicos ocuparam importantes assentos no governo, apoiando o tom missionário do presidente e a "relação especial" com Israel, influindo nas políticas públicas para o meio ambiente, direitos humanos e ajuda externa. O imaginário evangélico que perpassou a campanha antiterror e a promoção democrática foi orquestrado pelo então líder da direita religiosa americana, o próprio George W. Bush. A América era representada como uma nação especial atendendo a um chamado, uma "cidade sobre a colina" nas relações internacionais. Futuras reflexões poderão averiguar o destino da direita religiosa que, apesar de encolhida ao final da gestão Bush, seguiu relevante na eleição de 2008 e em sua associação com novos grupos da direita americana, como o Tea Party.

 

Bibliografia

FINGUERUT, Ariel. Formação, crescimento e apogeu da direita cristã nos Estados Unidos. In: SILVA, Carlos Eduardo Lins da (org). Uma nação com alma de Igreja: religiosidade e políticas públicas nos EUA. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

HAYNES. Jeffrey. Religion and Human Rights Culture in America. Review of Faith & International Affairs, summer 2008, p.73-81.

MARSDEN, Lee. For God's sake: the Christian Right and US foreign policy. New York: Zed Books, 2008.

________. Civil Religion and US Foreign Policy. Revista NURES, n. 14, jan/abril 2009.

MARTIN, William. The Christian Right and American Foreign Policy. Foreign Policy, n.114, p.66-80, 1999.

MEAD, Walter R. País de Deus? Política Externa, São Paulo, v. 15, n. 3, p. 103-130, 2006/2007.

MEARSHEIMER, John; WALT, Stephen. O Lobby de Israel. Novos Estudos Cebrap, n.76, nov. 2006, p.43-73.

PEREIRA, Paulo José dos Reis. A influência da religiosidade sobre as políticas públicas no governo Bush. In: SILVA, Carlos Eduardo Lins da (org). Uma nação com alma de Igreja: religiosidade e políticas públicas nos EUA. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

PIPES, Daniel. Democrats, Republicans and Israel. New York Sun, 26 de maio 2006.

WILLIAMS, Daniel K. God's own party: the making of the Christian Right. New York: Oxford University Press, 2010.