Na psicologia, resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse, algum tipo de evento traumático, etc. - sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades. Nas organizações, a resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém se depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças estratégicas na pessoa para enfrentar a adversidade. Serban Ionescu, psiquiatra e psicólogo, professor emérito na Universidade Paris-VIII, dirigiu o trabalho coletivo Tratado de resiliência assistida (Ed. PUF). Primeiros resultados mostram que o nível de resiliência aumenta com a idade.
Por Pascale Senk – Le Figaro Santé
Le Figaro – O senhor é um especialista da resiliência e esta última se refere a episódios traumáticos. Mas não poderíamos dizer que, na sua vida, qualquer pessoa por meio de mudanças e crises inevitáveis será levada a passar por episódios de resiliência?
Serban Ionescu - Contrariamente a uma opinião bastante difundida, a palavra «resiliência» não se refere apenas aos traumas psíquicos. Ela se refere ao processo pelo qual as pessoas que vivenciaram ou estão vivenciando condições de adversidade não têm transtornos mentais. A adversidade é polimórfica e pode ser crônica ou aguda. Sendo assim, ela pode assumir a forma de um evento traumático como o tsunami ou pode ser crônica, tal como estamos ao nos encontrarmos em uma situação de desemprego de longa duração. Na verdade, o processo de resiliência pode se manifestar em uma variedade de situações.
Poderia dar um exemplo?
As trajetórias da vida incluem mudanças e crises que podem ser muito intensas em algumas pessoas. A prática clínica nos ensina que algumas pessoas vivem muito mal, por exemplo, a transição do trabalho para a aposentadoria: a vida pode-lhes parecer subitamente sem sentido, elas podem se sentir velhas e apresentar sintomas de depressão. A maioria das pessoas que chega à idade da aposentadoria, no entanto, se prepararam para essa transição: elas elaboraram projetos e, uma vez aposentadas, elas realizam tudo o que não tiveram tempo de fazer antes. Esta segunda forma de abordagem da aposentadoria está relacionada a um processo de resiliência.
Como explicar a diversidade de reações face à adversidade?
Os fatores envolvidos nos processos de resiliência (tanto fatores de risco como de proteção) são individuais, familiares e sócio-ambientais. A maioria desses fatores varia em função da idade.
A resiliência foi observada em todas as idades. Duas pesquisas recentes realizadas na Suécia e na Bélgica evidenciam, no entanto, que o nível de resiliência aumenta com a idade. Estes resultados tendem a sustentar a hipótese de que o processo de resiliência pode ocorrer mais facilmente à medida que as pessoas vivem situações problemáticas diferentes e chegam ao fim das adversidades encontradas.
Seria como se o indivíduo estivesse mais acostumado a se recuperar das crises?
Uma comparação com o que acontece no caso das vacinas poderia ser tentada … Uma dose de vacina contendo uma bactéria ou um vírus atenuado seguida de reforços desta vacina permite que o organismo humano fabrique anticorpos para protegê-lo durante o encontro com a bactéria ou o vírus não atenuado. Da mesma forma, poderíamos dizer que o encontro com episódios de adversidade durante a vida permite dispor de estratégias que facilitem a passagem por tais episódios, caso ocorram posteriormente.
No entanto, tenha cuidado para não interpretar minhas observações como uma espécie de receita para viver traumas e adversidades, para lidar melhor com os caprichos da vida! Mas é certo que uma existência superprotegida não promove o desenvolvimento de estratégias que permitem enfrentar com sucesso a adversidade que podemos encontrar em um momento ou outro da vida.
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PAIS, IRMÃOS, FILHOS E CÔNJUGES TAMBÉM PRECISAM DE CUIDADOS MÉDICOS
Quando casos de esquizofrenia, depressão, anorexia e outros distúrbios psiquiátricos entram no círculo da família, todos os seus membros necessitam de apoio e de informação. Essas moléstias têm o poder de desestruturar o inteiro sistema familiar. E com frequência o fazem.
Por: Pascale Senk – Le Figaro Santé
«Ela pouco a pouco desaparece, mas são vocês que pouco a pouco param de existir”: com essas palavras, o psicólogo francês Samuel Dock exprimia em seu blog, há poucas semanas, aos familiares, o sofrimento gerado pelo distúrbio psíquico no seio da sua família – no caso, a desarmonia provocada pela anorexia mental de uma das irmãs. «É a esse paradoxo doloroso que nos arrasta o anoréxico: a busca do nada toma o lugar do todo, o vazio toma o lugar de vocês. Tanto os seus sucessos quanto os seus fracassos, tanto os seus momento de alegria e felicidade quanto as suas angústias mais secretas, a sua vida que continua, agora cinzenta e muda, pois nada mais importa quando uma pessoa do seu círculo íntimo sofre da patologia psiquiátrica mais letal de todas”.
Pascal-Henri Keller, psicanalista, professor emérito de psicologia clínica na Universidade de Poitier, se exprime de maneira análoga quando fala do sofrimento que, sob o nome de “depressão”, levou seu irmão caçula ao suicídio. «Creio que seu suicídio tornou meu irmão onipresente em minha vida. Minha carreira profissional, a maneira como esse drama familiar tingiu com cores escuras o meu trabalho clínico, minha experiência do sofrimento psíquico, meu conhecimento dos efeitos secundários, meu conhecimento a respeito das medicações antidepressivas. Em muitos aspectos, tenho agora a impressão de reviver, com certos pacientes, aquilo que vivi com meu irmão caçula”.
Uma formação para ajudá-los a conhecer a doença
Esses testemunhos são signos do tempo em que vivemos: Até pouco tempo, na França, os pais dos doentes eram os primeiros a se exprimir e a serem ajudados, sobretudo através de associações como a Unafam (União Nacional de famílias e amigos de pessoas doentes e/ou handicapadas). Agora, a atenção das autoridades médicas e sanitárias se volta para a inteira família alargada (a fratria), que em alguns casos inclui até amigos muito próximos.
Assim sendo, a rede ProFamille, que «proporciona uma abordagem cognitivo-comportamental que objetiva levar progressivamente o paciente que sofre de esquizofrenia e sua família a passar de um sentimento de impotência e de uma posição de passividade ou de revolta a uma posição de colaboração ativa através de uma visão realista da doença”, acaba de lançar um curso e treinamento específicos destinados aos irmãos e irmãs dos doentes. Um primeiro grupo de teste reuniu, em Paris, dezesseis irmãos e irmãs durante todo um fim de semana em outubro último. Mas retomar o contato com um irmão ou uma irmã que foi violento e quase não fala não é certamente uma tarefa fácil.
Por que uma formação específica? Esses familiares muito próximos sentem necessidade de conhecer melhor a doença, de compreender os mecanismos da sua manifestação, bem como as repercussões que ela provoca em seus irmãos e irmãs, sem que isso os leva ao desejo de adquirir o know-how necessário para cuidar e acompanhar no dia-a-dia a pessoa que sofre da doença. Na grande maioria dos casos, essa tarefa é assumida e assegurada pelas mães e pelos pais.
O testemunho de Anaís
Anaís Oddoux, 25 anos, conhece bem essa ambivalência ligada aos laços que a unem a um irmão: «Meu irmão está doente há sete anos. Eu vivi o surgimento da esquizofrenia no seio da minha família ao mesmo tempo de muito perto e de muito longe”, ela explica. “Já tinha uma vida própria, independente, que isso aconteceu a ele, portanto a ruptura que vivi não é da mesma ordem daquela vivida por meus pais. Creio que para nós, que pert4ncemos à mesma geração, o perdão é mais difícil”. Perdão? “Sim perdoar meu irmão de ter explodido por completo nossa família”, ela acrescenta. Anais agora se submete a uma psicoterapia para conseguir superar essa provação. «Esqueci uma grande parte da minha vida nos últimos sete anos, abandonei meus estudos, senti-me totalmente sozinha... Retomar o contato com esse irmão que tem comportamento violento e quase não fala não é nada fácil. Mesmo assim, recomendo a todo irmão ou irmã de um doente para que conserve o contato, para que o afastamento seja evitado”.
O sofrimento psíquico sempre cria raízes numa história familiar particular
Anaís, que faz parte de um dos primeiros grupos participantes do programa «Frères et sœurs» (Irmãos e irmãs) do ProFamille, reconhece ter tirado muito proveito dele: “Aprendi a compreender como meu irmão funciona, como ele nos vê e quais são as melhores maneiras para se comunicar com ele, sobretudo porque ele não consegue interpretar nossas expressões”. Trata-se de uma aprendizagem parecida com a de uma língua estrangeira: “como a língua dos sinais com um irmão surdo-mudo”, compara Anaís. Sobretudo, esse novo programa desenvolve de modo aprofundado todas as informações concernentes as questões de genética e de descendência, o estatuto jurídico dos pacientes e todos os outros aspectos que podem ajudar a uma tomada de decisão em caso, por exemplo, de morte dos pais.
Para Pascal-Henri Keller, que defende uma abordagem mais relacional do problema, é importante que irmãos e irmãs cheguem a se interrogar a respeito dos laços que, quando uma patologia dessas se desencadeia, são redescobertos. Keller diz que “o sofrimento psíquico se enraíza sempre numa história familiar particular”. Quando a culpabilidade, o ressentimento ou a cólera ocupam demasiado espaço, é muito importante que essas diferentes visões se integrem para completar a construção de um panorama mais claro do estado de coisas.
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A percepção de pequenas manchas ou nuvens movimentando-se dentro do campo de visão constituem as chamadas “moscas volantes”. Geralmente são vistas quando se olha para um fundo claro, como uma parede branca ou um céu azul. Na realidade, as moscas volantes são minúsculos grumos de gel ou células dentro do corpo vítreo, o fluido gelatinoso, que preenche o interior do olho. Frequentes, essas anomalias oculares atrapalham e são até incapacitantes, caso persistam, causando uma queda significativa da visão. De qualquer jeito, uma consulta é obrigatória.
Por Laurent Giordano – Le Figaro Santé
Se um dia aparecerem no seu campo de visão manchas pretas móveis como moscas pretas volantes, teias de aranha ou simples véus, não entre em pânico, você não está vendo coisas! A origem do problema não tem nada de cerebral: estes corpos flutuantes vêm de uma modificação do corpo vítreo, este gel viscoso e transparente que preenche o espaço entre o cristalino e a retina. «O vítreo consiste em 95 % de água e 5 % de fibras de colágeno, proteínas fibrosas que se densificam com o tempo até formar, às vezes, agregados ou véus que a retina percebe. Trata-se, portanto de um fenômeno fisiológico, frequente após 45 anos de idade», explica o Dr. Pierre Olivier Barale, oftalmologista no Quinze-Vingts, em Paris.
Frequente, portanto benigno? «Trata-se de uma evolução natural do olho, diz o Dr. Barale, por isso não há necessidade de se preocupar. No entanto, é preciso consultar, sobretudo se o fenômeno surgiu de repente, com percepção de raios ou de pontos brilhantes intermitentes. Porque a retina pode estar afetada.» De fato, ao se densificar, o corpo vítreo pode se destacar da retina à qual ele está normalmente ligado. Este descolamento pode dar origem aos primeiros corpos flutuantes ou ampliar sua formação. «Não é grave propriamente dito, diz o médico, mas se este rebaixamento do vítreo provocar um rasgo da retina ou seu descolamento, neste caso, é preciso consultar o médico rapidamente. E os raios, associados ao súbito aparecimento de corpos flutuantes, são justamente o sinal de alerta destes distúrbios da retina»
Esta consulta irá confirmar a existência de corpos flutuantes, verificar seu tamanho e sua localização, mas, sobretudo, monitorar o estado da retina.. Se esta última estiver afetada, ela deverá ser tratada com urgência e prioridade.
Aprender a «conviver com»
Quanto aos corpos flutuantes em si, o mais sábio, de modo geral, é não fazer nada. «Não há tratamentos que demonstraram sua eficácia, admite o Dr. Barale, nem os medicamentos nem a destruição a laser. Não recomendo este último método. O laser pode fragmentar e, portanto multiplicar os corpos flutuantes, e até mesmo induzir um descolamento da retina por onda de choque.
As consequências podem ser graves para um benefício não comprovado».
No entanto, em alguns casos, uma solução final pode ser sugerida: a cirurgia. Ela consistirá na remoção dos corpos flutuantes com o bisturi. Mas trata-se de uma operação pesada, arriscada, com possibilidades de infecção, de descolamento da retina, de catarata, que é apenas sugerida para pacientes cuja visão diminuiu muito e de forma duradoura além de estarem bastante afetados emocionalmente pela doença.
Para todos os outros, a paciência e o relaxamento são as melhores armas contra a presença de “moscas volantes”. É preciso aprender a «conviver com» e confiar nos efeitos calmantes do tempo que passa: após algumas semanas, o cérebro se acostuma com sua presença e os «enxerga» menos. Eles também podem sair do campo de visão ao aglomerar-se na parte inferior do corpo vítreo, dando assim a impressão de ter sumido. Eles serão então apenas uma lembrança ruim.
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Como a preguiça, a mania de deixar para amanhã aquilo que poderíamos fazer hoje faz parte da natureza humana. Mas quando adiar a execução das tarefas vira hábito, isso pode nos paralisar e impedir nosso desenvolvimento. Aqui estão alguns truques para superar o problema.
Nos últimos tempos, em nosso país, nos habituamos a ver juízes supremos sentados em cima de pilhas de processos postergando ad infinitum pareceres e decisões que, muitas vezes, são de grande importância para a comunidade e a nação. O mau exemplo, no caso, vem cima: Se magistrados togados procrastinam, por que não podemos procrastinar? Mas há uma diferença fundamental: juízes o fazem também por interesses pouco confessáveis; nós, em geral, o fazemos por pura preguiça. Diferenças à parte, o que importa é que a prática generalizada do atraso, do adiamento, da procrastinação costuma acarretar resultados e consequências muito negativos.
Procastinar (*) é um verbo que parece palavrão, tanto pela sua sonoridade quanto pelo significado intrínseco. Procastinamos no trabalho, nas tarefas domésticas, no cuidado com as nossas relações pessoais, nas consultar médicas, etc. Procastinar, ou seja, adiar de um dia para outro todos aqueles pequenos e aborrecidos deveres é uma postura “clássica” da nossa espécie, a tal ponto que, desde sempre, filósofos e pensadores se debruçaram sobre a questão.
Ninguém ainda encontrou uma resposta completa, nem inventou uma vacina contra a preguiça e a tendência a deixar para amanhã aquilo que podemos fazer hoje. Mas existem algumas posturas que, se adotadas, podem remediar e até mesmo sanar o vício. Curiosamente, todas elas têm a ver com questões muito mais profundas da nossa estrutura psíquica e existencial. Veremos, abaixo, o quanto e como a procrastinação tem a ver com o medo, o autoengano, os condicionamentos que sofremos desde a mais tenra infância, e também alguns mecanismos automáticos. Aqui vão algumas sugestões:
1 – Dar o primeiro passo – Você escolheu ler imediatamente este artigo em vez de salvá-lo na despensa dos “preferidos” para lê-lo no Dia de São Nunca? Meus parabéns! Você já deu o primeiro passo para vencer a tendência à procrastinação: estabelecer um alvo mínimo, tão próximo e tão fácil de ser executado que até mesmo a sua parte mais preguiçosa não terá nada a objetar. Cientistas do comportamento testaram esse tipo de abordagem em um grupo de estudantes, e constataram que, iniciada uma tarefa, eles a julgam menos estressante e difícil, e até mesmo mais agradável, do que pensavam antes de começar. Tim Pychyl, que chefiou um desses grupos de pesquisas na Universidade de Carleton, Canadá, afirma que os estudantes disseram coisas do gênero “não sei porque deixava essa tarefa sempre para o amanhã, pois ela não é assim tão desagradável e aborrecida”, e também “teria produzido um trabalho muito melhor se tivesse começado antes”. Portanto, se você precisa produzir um e-mail que procrastina há muito tempo, experimente impor sua vontade sobre a preguiça. Comece ao menos por ligar o computador: apenas fazendo isso você experimentará uma gratificação que o levará a continuar.
2 – Reconhecer as razões pelas quais você procrastina – Com frequência, procrastinar não é apenas uma questão de organização do tempo, mas um modo para se regular emoções mais profundas.: uma tarefa desagradável, o medo do fracasso, questões de autoestima. Em alguns desses casos podemos nos convencer de que “não estamos com o estado de espírito ou de humor adequado para aquele desempenho” apenas porque não dispomos dos instrumentos para enfrentar temores profundamente radicados. Dar um nome à emoção que se esconde atrás da exigência de procrastinar pode ajudar no enfrentamento (às vezes é necessária a ajuda de um psicoterapeuta para se vencer a barreira). Reformular as coisas, ou seja rever o modo como se percebe uma situação, pode ajudar a enfrentá-la e até mesmo a evitá-la.
3 – De qual tipo de adiamento se trata? – Combater um inimigo que possui contornos incertos e nebulosos é uma empreitada difícil: comece por classificar o tipo de procrastinação que você precisa enfrentar. Quando falamos de atrasos, por exemplo, existem vários tipos diferentes:
– inevitáveis: porque você está cheio de compromissos, ou porque precisa colocar tudo em compasso de espera para poder se ocupar de uma crise mais urgente (um familiar que precisa ser acudido, uma emergência no trabalho, etc);
– de arousal (ativação, excitação): muitas pessoas funcionam melhor quando se acham sob pressão, e por esse motivo esperam até o último momento para se lançar à tarefa;
– hedonistas: primeiro o prazer, depois o dever. São os atrasos motivados pela escolha de obter uma gratificação imediata e deixar para depois as tarefas que precisam ser cumpridas;
– devido a problemas psicológicos: Você se sente bloqueado por causa de alguma outra condição aguda (como um luto, por exemplo) ou crônica (ataques de pânico, depressão);
– intencionais: não são, na realidade, procrastinações verdadeiras. Mais que isso, você está tomando tempo para pensar e amadurecer seu raciocínio antes de escrever uma carta, por exemplo;
– irracionais: estas são as formas verdadeiras de procrastinação. Aparecem sem nenhum motivo aparente e motivadas pelo medo ou pela ansiedade.
Essas tipologias não se excluem umas às outras e nem sempre devem ser necessariamente combatidas. Muitos gênios do passado – como Leonardo da Vinci, que tinha fama de não terminar as obras que começava – desenvolveram formas peculiares de procrastinação próprias do seu próprio impulso criativo: aprenderam a conviver com a inércia, tirando vantagem e proveito dela.
4 – Aprenda a arte da procrastinação – Se procrastinar as coisas faz parte da nossa natureza, por que não tirar vantagem dessa tendência? Em 1996 John Perry, professor de filosofia na Universidade de Stanford, cunhou a expressão “procrastinação estruturada” para indicar uma tática que tira proveito das debilidades do procastinador contumaz para obrigá-lo da mesma forma a realizar e levar a bom termo as suas tarefas. O truque é preencher os primeiros lugares da lista de tarefas a serem feitas com os itens mais importantes – aqueles que sempre tenderemos a evitar – e prosseguir depois com as incumbências menos importantes, mas sempre úteis. Esteja certo desde já que, provavelmente, você não realizará quase nada dessa lista. Mas, ao fazê-la, em vez de permanecer inerte, largado na poltrona, pensando na morte da bezerra, você talvez encontre ânimo suficiente para fazer uma limpeza da escrivaninha, arrumar os papeis, por a contabilidade em dia ou responder a alguns e-mails.
5 – Seja gentil com os “si mesmos” do futuro – O ser humano tem uma extraordinária capacidade imaginativa e consegue se projetar com facilidade no passado ou no futuro. Os especialistas sugerem que essa capacidade seja aproveitada para “encontrar” os “si mesmos” do amanhã e imaginar com realismo as suas muitas possibilidades. Com frequência, na verdade, procastinamos nossas tarefas convencidos de que no futuro teremos mais energia, mais tempo disponível, menos problemas, seremos mais resolutos. Embora estas expectativas todas sejam muito pouco realistas, já que dificilmente conseguiremos mudar nossos hábitos no arco desse tempo. Eve-Marie Blouin-Hudon, psicóloga da Carleton University (Canadá), sugere dez minutos diários de visualização de si mesmo no futuro. Como você estará vestido? Qual será o seu estado de humor predominante? O que escreveremos naquele e-mail que espera há meses para ser enviado? Talvez, provavelmente, nada de tudo isso será muito diferente do que você poderia fazer hoje, aqui e agora…
6 – Criar planos de emergência e prevenir as tentações – Existirá sempre um contratempo que lhe levará a pensar: “Que vá tudo pro inferno, farei isso amanhã!” Suponhamos que você, pela enésima vez, prometeu a si próprio ir ao trabalho de bicicleta e que, exatamente quando abria a porta para sair de casa, começou a chover. E se em vez de se esquecer das suas boas intenções pensasse no quanto você se sentiria melhor, mais tonificado, se pedalasse até o escritório? Os psicólogos chamam essa técnica de “se, então”: é um modo de elaborar “planos de emergência” que parece funcionar porque propõe ações específicas – “Se vou pedalando para o escritório, então me sentirei tonificado o dia todo”, o que soa bem melhor do que pronunciar um genérico “devo ir ao escritório de bicicleta”. Um outro truque fácil é prevenir as situações de risco. Se basta uma vibração do celular para lhe distrair dos seus deveres e levá-lo à procrastinação, deixe o celular mudo. Se você já percebeu que aquele seu colega de trabalho acaba com a sua vontade de fazer as coisas, evite ter contato com ele. Tudo isso parece bastante óbvio, mas na verdade não o é.
7 – Não se deixe abater nem baixar a moral – Quando o procastinador tem medo ou se sente culpado, ele está recriminando não apenas as suas atuais hesitações, mas também todas aquelas ante as quais ele sucumbiu no passado: trata-se de uma espiral emotiva da qual é difícil escapar. Tente se dirigir a si mesmo com a gentileza e a compreensão que você usa para com uma pessoa amiga. Você pode dizer a si mesmo, sem mentir, que você não é o primeiro a deixar para amanhã o que poderia fazer hoje, e nem será o último. Usar de um pouco de indulgência, pelo menos em relação a situações passadas, lhe ajudará a dissolver um pouco aquela massa de incertezas que bloqueia os seus passos, e a se concentrar no problema corrente.
(*) Procrastinação é o diferimento ou adiamento de uma ação. Para a pessoa que está a procrastinar, isso resulta em estresse, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com as suas responsabilidades e compromissos. Embora a procrastinação seja considerada normal, torna-se um problema quando impede o funcionamento normal das ações. A procrastinação crônica pode ser um sinal de problemas psicológicos ou fisiológicos. A palavra em si vem do latim procrastinatus: pro- (à frente) e crastinus (de amanhã). Um procrastinador é um indivíduo que evita tarefas ou uma tarefa em particular.
00:05/00:50brasil247 Video 2018-03-11_22-47
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O advento da inteligência artificial é inevitável. Mas, como sempre acontece, a chegada de algo novo e revolucionário gera e alimenta inúmeras fantasias, frutos de extrapolações errôneas, de equívocos vulgares e de uma imaginação limitada. É o que nos explica Rodney Brooks, ex-diretor do Laboratório de Inteligência artificial, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Fonte: MIT Technology Review, Cambridge, Massachusetts
O futuro da Inteligência Artificial e da robótica está gerando um frenesi. Que capacidades poderão ter essas máquinas? Daqui a quanto tempo? Irão destruir muitos postos de trabalho?
O site de análise financeira Market Watch publicou recentemente um artigo segundo o qual os robôs irão se apoderar de metade dos postos de trabalho nas próximas duas décadas. O artigo era acompanhado por um gráfico que ilustrava a variação dos números.
Ora, isto é grotesco! (Tento manter a postura profissional enquanto escrevo, mas às vezes… O artigo adianta, por exemplo, que, nos Estados Unidos da América, em um milhão de pessoas afetas a tarefas de manutenção só 50 mil permanecerão no ativo, porque os robôs farão o seu trabalho.
Ora, quantos robôs existem que sabem efetivamente desempenhar estas tarefas? Zero. Quantas foram as demonstrações que provaram as aptidões dos robôs neste domínio? Zero. O mesmo se aplica a 90% dos empregos que necessitam da presença física no local e que estariam supostamente em perigo.
Obras de arte criadas pelo sistema robótico Cans Creative Adversarial Networks
ARTE DIGITAL – Num artigo publicado em 2017 na biblioteca digital arXiv_ peritos em Inteligência Artificial (IA) descreveram a forma como um algoritmo foi capaz de criar o sistema CAN (Creative Adversarial Networks) para imitar os estilos de pintura e mesmo criar novos, revela a revista Nautilus. “Os humanos foram incapazes de distinguir entre as obras produzidas pelo sistema e as obras de artistas contemporâneos, expostas em galerias de renome”, sublinham os autores. Em fevereiro de 2016, um outro tipo de IA, desta vez musical, batizado Aiva, compôs um solo para piano. Em setembro do mesmo ano, saiu o seu primeiro álbum tornando-a assim a primeira IA a alcançar o estatuto de Compositor. CAN e Aiva tinham sido previamente “treinados” na análise de grandes quantidades de dados: no caso do primeiro, com quadros preexistentes, e, no caso da segunda, com músicas que já tinham sido compostas.
Previsões errôneas nos fazem temer coisas que não se concretizarão. É o caso do desaparecimento em grande escala de postos de trabalho, da singularidade (uma inteligência superior capaz de se melhorar, que resultaria da aceleração do processo tecnológico) ou do advento de uma Inteligência Artificial (IA) com valores diferentes dos nossos e com capacidade para nos destruir. Nada disto é verdade, mas qual a razão para as pessoas se deixarem enganar? Identifiquei sete fatores principais.
Superestimar, subestimar
Roy Amara foi um dos cofundadores do Instituto do Futuro (IFTF) em Palo Alto (Califórnia, EUA), coração intelectual de Silicon Valley. Mas é sobretudo reconhecido pelo seu adágio agora conhecido como a Lei de Amara: “Temos tendência para superestimar a incidência de uma nova tecnologia no curto prazo e para a subestimar a longo prazo”. Um otimista e um pessimista interpretarão esta frase simples de modo diferente.
O GPS (acrônimo de Global Positioning System / Sistema de Posicionamento Global) americano é um excelente exemplo dos dois aspetos da Lei de Amara. A partir de 1978 foi colocada em órbita uma frota de 24 satélites (atualmente existem 31, contando com os equipamentos de substituição). O objetivo primordial do GPS era permitir às forças armadas norte-americanas fazer bombardeios aéreos mais precisos. Mas esta iniciativa foi adiada diversas vezes na década de 1980. Foi preciso esperar pela primeira Guerra do Golfo, em 1991, para que o GPS servisse o seu objetivo primordial. Só depois disso os militares norte-americanos admitiram a sua utilidade. Agora, o GPS está na fase que a Lei de Amara define como a de longo prazo e é utilizado para fins que seriam inimagináveis nos primórdios dessa tecnologia. O meu relógio da Apple utiliza o GPS quando faço jogging e ele me geolocaliza com tal precisão que sabe de que lado da rua estou. O tamanho deste aparelho e aquilo que me custou seriam algo de inconcebível para os engenheiros dos primórdios dessa tecnologia. Esta permite coordenar experiências de física em todo o planeta e desempenha um papel central na sincronização da rede elétrica dos Estados Unidos da América. O GPS permite assegurar que a frequência na rede seja a mesma, qualquer que seja o local onde se efetua a medição. Também permite aos negociantes que fazem transações de alta frequência – os que efetivamente controlam as Bolsas – evitar erros de temporização catastróficos. É usada na navegação e pilotagem de aviões, tanto pequenos como grandes. E permite aos guardas vigiar presos em liberdade condicional.
Como se isto não bastasse. determina que sementes serão usadas em cada parte do campo, em várias regiões do globo. Além de fazer o seguimento dos transportes de mercadorias e de passageiros e avaliar o desempenho dos condutores.
Newton ficaria surpreendido por um objeto tão pequeno como um iPhone conseguir produzir cores tão vivas na obscuridade de uma capela.
O GPS foi criado com um objetivo específico mas extravasou-o de tal forma e invadiu tantos aspetos da nossa vida que sem ele estaríamos perdidos: teríamos frio, fome e talvez morrêssemos.
A mesma coisa aconteceu com outras tecnologias desenvolvidas nas últimas três décadas: a promessa de uma revolução, a decepção e depois uma lenta melhoria de resultados que acabam por ultrapassar os objetivos definidos inicialmente. Isto é verdade para a informática, o sequenciamento do genoma humano, a energia solar e eólica ou a entrega de compras ao domicílio.
A Inteligência Artificial foi constantemente superestimada nas décadas de 60 e 80 e ainda o continua a ser. Mas as perspectivas a longo prazo são seguramente subestimadas. Como definir longo prazo? Eis como a revolução da IA se desenrolará mais devagar do que se pensa.
O pensamento mágico
Quando eu era adolescente, Arthur C. Clarke era um dos principais autores de ficção científica, juntamente com Robert A. Heinlein e lsaac Asimov. Clarke também era inventor, jornalista científico e futurista. Entre 1962 e 1973 ele formulou três adágios, chamados, hoje, as leis de Clarke:
“Quando um velho sábio estima que qualquer coisa é possível, tem quase sempre razão. Mas quando afirma que qualquer coisa é impossível, provavelmente está errado.”
“A única forma de descobrir os limites das possibilidades é aventurar-se para o além, para o impossível.”
“Toda a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”
Pessoalmente, eu deveria desconfiar da segunda frase da primeira lei, porque sou bastante mais prudente do que a maioria das pessoas sobre o tempo que falta para que a IA se torne onipresente. Mas é importante refletir bastante sobre a terceira lei de Clarke.
Imaginemos uma máquina do tempo que permitisse trazer Isaac Newton do final do século 17. Iríamos convidá-lo para um local que lhe é familiar: a capela do Trinity College da Universidade de Cambridge (Reino Unido).
Mostraríamos a Newton não uma maçã mas um produto da Apple (palavra que significa maçã, em inglês). Tiraríamos um iPhone do bolso e mostraríamos a ele a tela iluminada e cheia de ícones. Newton descobriu que a luz branca era composta por um espectro de diferentes cores ao fazer passar um raio de sol através de um prisma, reconstituindo-o em seguida. Ficaria seguramente surpreendido por um objeto tão pequeno conseguir produzir cores tão vivas na obscuridade da capela.
Mostraríamos a seguir um filme rodado nos campos ingleses, acompanhado pela música litúrgica que ele bem conhecia. Mostraríamos a ele uma página na internet onde estão publicadas as 500 folhas de uma cópia anotada da sua obra-prima “Princípio”, e ensinaríamos a ele a deslizar o dedo para ampliar a imagem na tela.
Nas tecnologias do futuro é preciso ter muito cuidado quando se utilizam argumentos relativos à magia
Conseguiria Newton compreender como é que este pequeno aparelho faz tantas coisas? É verdade que ele inventou o cálculo infinitesimal (ou integral) e explicou a ótica e a gravidade. Mas nunca soube distinguir entre química e alquimia. Acredito que ficaria siderado e incapaz de arriscar fazer uma qualquer descrição do aparelho. Aos seus olhos, o iPhone encarnaria o oculto, um assunto que sempre o fascinou. E seria incapaz de o distinguir da magia. Convém não esquecer que Newton era extremamente inteligente. Se uma coisa é magia, torna-se muito difícil definir os seus limites.
A seguir, poderíamos mostrar a Newton que o aparelho pode funcionar como lanterna, tirar fotografias, gravar sons e imagens ou trabalhar como lupa ou espelho. Explicaríamos que faz cálculos aritméticos muito depressa e com muitas casas decimais. Além de poder contar os seus passos e permitir falar com pessoas em todo o mundo, ali mesmo, a partir do interior da capela.
Que outras funções associaria Newton a este aparelho? Os prismas funcionam até ao infinito. Newton talvez pensasse que o mesmo acontece com o iPhone, não sabendo que temos de trocar de aparelho frequentemente.
Não esqueçamos que Newton vem de uma época onde ainda faltavam 100 anos para o nascimento de Michael Faraday (pioneiro do eletromagnetismo) e não tinha conhecimentos científicos sobre eletricidade. Se um iPhone pode ser uma fonte de luz sem fogo, também conseguirá transformar chumbo em ouro?
É uma questão com a qual somos confrontados desde que se começou a sonhar com tecnologia. Se a invenção está demasiado longe de tudo o que conhecemos e compreendemos, somos incapazes de compreender os seus limites. E, se não se consegue distinguir da magia, tudo o que podemos dizer a seu propósito é fantasia.
Mentes pirateadas
Podem os nossos pensamentos, decisões e mesmo emoções serem manipulados, contra a nossa vontade, por uma Inteligência Artificial sem escrúpulos? É isto que alguns temem com o aparecimento de empresas especializadas em interfaces cérebro-máquina, como a Neuralink. O objetivo desta empresa, criada pelo magnata Elon Musk, o célebre patrão da Tesla e da SpaceX, é desenvolver componentes eletrônicos que possam ser integrados diretamente no nosso cérebro para melhorar a memória ou permitir comunicar diretamente com computadores.
“Como resultado da evolução tecnológica, estamos empenhados num caminho que nos leva a um mundo onde comunicaremos uns com os outros através do pensamento, e onde, graças a poderosos sistemas de cálculo, as pessoas interagirão mais facilmente com o mundo, e as suas capacidades mentais e físicas serão substancialmente melhoradas”, escrevem na revista Nature, 25 peritos em neurociências.
Inteligência Artificial e ética
Para se evitar efeitos nefastos que possam advir destas tecnologias, “o grupo de cientistas definiu quatro prioridades éticas que devem ser abordadas: a vida privada e o consentimento, o controle e a identidade, o melhoramento da humanidade e a discriminação”, resume a revista Newsweek.
No entanto, os investigadores referem na revista Nature que “Poderão se passar anos e até décadas até que as interfaces neurais diretas e outras neurotecnologias façam parte do nosso quotidiano”.
Portanto, não vale a pena entrar em pânico. Ainda estamos muito longe de ter as nossas mentes pirateadas.
Esta é uma questão com a qual sou regularmente confrontado nos debates: determinar se deveremos ter medo de uma Inteligência Artificial forte (ou AGI, acrônimo de “artificial general intelligence”). Ou seja, de agentes autônomos que funcionariam como seres (animais ou humanos, dotados de inteligência e consciência). Como ainda não conhecemos todas as suas capacidades, ignoramos se a AGI irá mesmo existir. Esse é o grande sonho – o que sempre me motivou a trabalhar nos domínios da robótica e da IA – mas, no seu estado atual, a investigação da AGI ainda não atingiu o ponto de caráter “forte” (capaz de simular comportamentos humanos ou animais) ou a possibilidade de criar uma entidade autônoma.
A investigação parece estar enfrentando os mesmos problemas de bom senso que têm bloqueado a IA no último meio século. Todos os elementos de prova de que disponho mostram que globalmente não sabemos como conceber uma IA. As suas propriedades são desconhecidas. É por isso que no plano da retórica ela parece mágica e infinitamente poderosa.
Mas nada no Universo é infinito. Cuidado com os argumentos relativos à magia, quando se trata de tecnologias do futuro. É o tipo de argumento que não pode ser refutado, por uma simples razão: assenta em crenças, não em factos científicos.
Monopólio do humor
Uma Inteligência Artificial pode ter graça? Várias equipes a nível mundial debruçam-se sobre esta pergunta. Eric I-Iorvitz e Dafna Shahaf (investigadores, respetivamente, da Microsoft e da Universidade Judaica de Jerusalém), em colaboração com o antigo artista gráfico da revista New Yorker Robert Mankoff, demonstraram recentemente que uma IA consegue identificar coisas engraçadas (entre uma série de cartoons), indica a revista Nautilus.
Mas ser capaz de identificar coisas engraçadas não significa capacidade para as fazer… Cientistas da Universidade de Marquette, Milwaukee (EUA) desenvolveram o Zoei (Zestful Outlook on Emotional Intelligence), um robô que tenta contar anedotas, distingue expressões faciais, reconhece e grava as reações do público às anedotas precedentes e, funcionando por tentativa e erro, melhora pouco as suas capacidades.
Por enquanto, o Zoei ainda não foi testado num cara a cara. Ainda estamos muito longe de poder assistir a um espetáculo humorístico de uma IA.
“O humor não é evidente. Nem sequer para os humanos”, constata na revista New Scientist Mark Riedl, investigador do Instituto de Tecnologia da Geórgia, em Atlanta, que trabalha em IA capazes de contar histórias. O humor recorre a referências da cultura popular, à sátira social, à ironia, à empatia, etc.
“Em outras palavras, para compreender e fazer humor é necessária uma grande dose de inteligência”, explica à New Scientist Piotr Mirowski investigador da Universidade de Alberta, que experimenta, com o seu colega Korg Mathewson, a ALEX (Artificial Language Experimental), uma IA capaz de interagir com ele no palco de teatros. “A ALEX tenta compreender o que dizem os seus parceiros humanos, imaginar uma resposta o mais rapidamente possível e fazer algum comentário engraçado utilizando um sintetizador de voz”, descreve a New Scientis. O objetivo é se produzir um espetáculo cômico. Em conjunto, já se apresentaram em festivais de comédia, com público de em média 3 mil pessoas, cerca de trinta vezes. De uma forma geral, foram bem sucedidos. Mas os investigadores estão conscientes de que as pessoas que se deslocam a este tipo de festival esperam ver coisas engraçadas, o que os torna mais receptivos aos esforços da IA. O fato de a IA ser encarnada por um pequeno robô já coloca o público do lado dela.
Suponhamos que uma pessoa nos diz que uma determinada fotografia representa pessoas jogando bola num parque. Pode depreender-se daí que saberá responder a questões relacionadas: qual a forma de uma bola? A que distância pode ser lançada? Pode se comer uma bola? Quantas pessoas podem jogar bola ao mesmo tempo? Um bebê de três meses pode jogar bola? Pode-se jogar bola se fizer frio?
A aprendizagem automática é muito instável e exige grande preparação por parte dos investigadores e engenheiros, um código específico, conjuntos de dados e um método. Um computador capaz de associar uma imagem à legenda “pessoas jogando bola no parque” não tem qualquer capacidade de responder a este tipo de perguntas. Apesar de conseguirem legendar vários tipos de imagens, são incapazes de responder a qualquer uma daquelas perguntas. ignoram o que é uma pessoa, que os parques quase sempre ficam no exterior das construções, que as pessoas têm idade, que a situação meteorológica não se limita à sugerida pela luz da fotografia, etc.
Isto não significa que as máquinas sejam inúteis: são preciosas, por exemplo, para fazer funcionar os motores de busca. Mas aqui está o X da questão. As pessoas ensinam um robô ou uma IA a fazer determinada tarefa. A partir daí extrapolam uma competência que seria normal em um ser humano. E aplicam essa generalização aos robôs ou à IA. As máquinas atuais têm aptidões extremamente limitadas. Por isso não lhes podemos aplicar quaisquer extrapolações humanas.
Palavras genéricas
Marvin Minsky (cientista norte-americano especialista em ciências cognitivas, pioneiro da IA, falecido em 2016) qualificava como palavras genéricas os termos muitos significados. “Aprender” é um bom exemplo, porque designa experiências muito variadas. Aprender a comer com talheres é muito diferente de aprender a melodia de uma canção. E aprender um código de sinais de trânsito não tem nada a ver com aprender a se orientar numa cidade.
Quando as pessoas descobrem que a aprendizagem automática (ou machine learning) progride muito depressa nesse ou naquele domínio, têm tendência a utilizar como modelo intelectual a forma como um humano aprenderia a dominar um novo assunto. Mas a aprendizagem automática é muito instável e exige muita preparação por parte dos investigadores ou engenheiros humanos, um código específico, conjuntos concretos de dados (ou seja, exemplos a fornecer à máquina para que esta “aprenda”) e um método de aprendizagem adaptado a cada nova problemática. A aprendizagem automática, tal como existe nos nossos dias, não tem nada a ver com a aprendizagem porosa que caracteriza os humanos, que podem progredir rapidamente num novo domínio sem precisarem de alterações cirúrgicas ou sem terem especificamente sido concebidos para esta ou aquela função.
Quando um computador vence um jogo de xadrez, as pessoas têm tendência a pensar que ele “joga” como um ser humano. Mas isso não é verdade
Quando as pessoas percebem que um computador pode vencer o campeonato mundial de xadrez (Deep Blue, em 1997) ou ser um dos melhores jogadores de Go (AlphaGo, em 2016), têm tendência a pensar que esse computador “joga” como qualquer ser humano. Na verdade, os programas aí instalados não fazem a mais pálida ideia de que se trata de um jogo e ignoram até mesmo que estão jogando. São muito pouco adaptáveis. Quando os humanos jogam, não ficam perturbados por pequenas alterações nas regras, ao contrário do AlphaGo ou do Deep Blue.
As palavras genéricas sugerem, erradamente, que as máquinas são iguais aos humanos na execução de algumas tarefas. Em parte porque os engenheiros – e pior, os meios de comunicação social que o dão a entender – querem enaltecer os avanços num determinado aspeto de um conceito genérico. A palavra-chave aqui é “aspecto”. E rapidamente se esquece este detalhe.
Os meios de comunicação social difundem a palavra genérica e veiculam uma imagem errada da IA e da iminência das inovações que se lhe seguem.
Autônomo, autodidata e bilingue
A tradução automática fez progressos consideráveis graças às redes de neurônios inspiradas no cérebro humano. “Mas para manter essas redes são necessárias grandes quantidades de dados”, comenta a revista Science, “milhões de traduções frase por frase para demonstrar como um humano faria o trabalho.”
É por isso que várias equipes de cientistas começaram a trabalhar na “aprendizagem não supervisionada”, ou seja, sem recurso à utilização de textos paralelos já traduzidos para praticar. Duas dessas equipes deverão apresentar os seus trabalhos na 6a Conferência Internacional dos Representantes do Ensino em 2018. Os métodos utilizados pelas duas equipes seguem o mesmo esquema: a Inteligência Artificial (IA) constrói o seu próprio dicionário bilingue sem auxílio de um instrutor humano que valide as suas suposições, “isto é possível porque as diferentes línguas têm uma forma semelhante de associar as palavras, explica a revista Science. Por exemplo, as palavras “mesa” e “cadeira” são frequentemente utilizadas em conjunto. E isto acontece em várias línguas. Se o computador fizer a cartografia destas ocorrências à moda de um grande atlas das estradas onde as palavras substituem as cidades, os mapas correspondentes aos diferentes idiomas serão relativamente semelhantes e apenas as palavras diferirão. As IA das duas equipes alcançaram um resultado de exatidão de 15 nas duas direções de tradução de francês/inglês.
“Estamos longe dos resultados do tradutor do Google que utiliza um método de aprendizagem supervisionado e alcança um resultado de cerca de 40, ou mesmo de um verdadeiro tradutor que consegue mais de 50, mas, mesmo assim, é melhor do que a tradução palavra a palavra”, sublinha esta revista científica. Segundo os investigadores, este sistema poderia ser melhorado utilizando técnicas “semi-supervisionadas” com o auxílio de milhares de frases já traduzidas para o processo de treinamento.
Crescimento exponencial
Muitas pessoas sofrem de um problema grave denominado “exponencialismo” . Quase todos conhecemos mais ou menos a Lei de Moore, segundo a qual os computadores se aperfeiçoarão constante e regularmente.
O que na verdade Gordon Moore afirmou foi que a capacidade dos processadores eletrônicos duplicaria todos os anos. Teve razão durante 50 anos, apesar de o espaço ter passado progressivamente de um para dois anos e de o crescimento estar se abrandando.
Duplicar a capacidade dos processadores permite aos computadores alcançar, continuamente, o dobro da velocidade. A capacidade dos dispositivos de armazenamento quadruplicou todos os anos. Esta curva de crescimento também melhorou a resolução dos equipamentos fotográficos digitais e multiplicou exponencialmente o número de pixels nas telas LCD (as telas de cristais líquidos que equipam, por exemplo, os smartphones e as televisões).
A Lei de Moore funcionou porque aplica uma pergunta de verdadeiro-falso a uma abstração digital. Nos circuitos existe carga ou diferença de potencial? A resposta continua a ser a mesma, à medida que os componentes ficam mais pequenos, mas até um determinado limite físico. Abaixo desse limiar comportam tão poucos eléctrons que os efeitos quânticos assumem o controle (por exemplo, os eléctrons que passam de um transmissor para outro, de forma aleatória, perturbam o seu bom funcionamento). Estamos atualmente nesta mesma situação com os componentes de silício.
Os que sofrem de exponencialismo arriscam-se a pensar que as funções exponenciais que utilizam para justificar os seus argumentos se prolongarão indefinidamente. Mas a Lei de Moore e outras regras semelhantes podem falhar porque, na sua origem, não eram verdadeiramente exponenciais.
Na década de 2000, fui responsável pelo Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory (CSAIL) do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e precisei angariar fundos para 90 grupos diversos de investigação: tentei usar a argumentação do crescimento da memória interna dos iPods para demonstrar aos mecenas que as coisas continuariam a evoluir muito rapidamente.
Cenários hollywoodianos
Em vários filmes de ficção científica, produzidos em Hollywood, o mundo é muito semelhante ao nosso. São bem poucas as exceções. No filme “O Homem Bicentenário” (de 1999), Richard Martin – o protagonista, desempenhado por Sam Neill – senta-se à mesa para tomar o café-da-manhã e um robô humanoide (interpretado por Robin Willians) fala, anda e o serve. Durante a refeição, Richard lê um jornal. Um jornal! Impresso em papel. Nada de tablets, podcasts ou ligações neurais diretas à internet.
Muitos investigadores e analistas que se interessam por IA, em particular os pessimistas que adoram prever que a IA ficará incontrolável e matará os humanos, têm muito pouca imaginação. Esquecem-se que se um dia chegaremos a conceber máquinas assim tão inteligentes, o mundo não terá mudado assim tanto. Não seremos apanhados desprevenidos pela existência de superinteligências. Estas irão sendo aperfeiçoadas com o tempo e o nosso mundo ficará povoado por várias outras inteligências. Nessa altura, já teremos muita experiência no assunto. Muito antes que superinteligências maléficas tentem eliminar a nossa raça, haverá máquinas menos malignas e menos belicosas. Antes disso, existirão máquinas lamuriantes. E antes, ainda, existirão máquinas arrogantes e desagradáveis. Mudaremos o nosso mundo à medida que formos progredindo, porque adaptaremos o nosso ambiente às novas tecnologias e ajustaremos as próprias novas tecnologias. Não disse que não enfrentaremos desafios. Apenas afirmo que não serão repentinos e inesperados, como muitos acreditam.
Deus é um algoritmo
A era das novas tecnologias, em particular do automatismo em vários domínios, comporta o seu lote de medos e crenças. “Existe até mesmo quem pense que as máquinas se tornarão nossos novos deuses”, avisa o site Big Think. É o caso de Anthony Levandowski Este antigo engenheiro do Google, pioneiro da viatura autônoma (Wagmol) – acusado de ter transmitido segredos tecnológicos ao Uber -, levou a ideia tão longe que fundou uma religião dedicada à Inteligência Artificial (IA). Batizado Way of the Future (Caminho do Futuro), esse culto tem como objetivo “compreender, aceitar e venerar um princípio divino fundado sobre a Inteligência Artificial desenvolvida pelos programas e equipamentos informáticos”, detalham os estatutos da organização revelados pela revista online Backcchannel, especializada em ciência e tecnologia que está alojada nos servidores da revista Wired. Depois de passar muitas horas com Anthony Levandowski, o jornalista ficou convencido de que o antigo funcionário do Google quer criar uma verdadeira igreja e não uma nova empresa ou um grupo de reflexão sobre robôs. Este engenheiro está convencido de que um dia, mais ou menos longínquo, a IA ultrapassará, de longe, os seres humanos, conquistando um estatuto de divindade. “Não se trata de um deus que lança clarões ou provoca tempestades”, afirma Anthony Levandowski ao Backchannel. Mas, se estamos em face de qualquer coisa que é um milhão de vezes mais inteligente do que nós, de que outra coisa lhe podemos chamar?”
(*) O autor Rodney Brooks – Conhecido como o “pai” do famoso aspirador Roomba, Rodney Brooks é professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Dirigiu o laboratório de ciências informáticas e de Inteligência Artificial entre 1997 e 2007, antes de criar a empresa iRobot (que comercializa o aspirador) e, logo a seguir, a Rethink Robotics, empresa especializada no desenvolvimento de robôs colaborativos para a indústria, da qual é hoje diretor-geral.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL AO LONGO DO TEMPO
Foi com a definição do cientista Alan Turing que se começou afalar de Inteligência Artificial. Em meados do seu processo de desenvolvimento, foram criados robôs para a indústria automobilística e até para servirem de cães de companhia. Agora, as máquinas inteligentes andam nos bolsos de todos nós.
O cientista Alan Turing
1950 – O teste de Turing: O cientista Alan Turing propôs um teste para aferir a inteligência das máquinas. Se a máquina conseguisse levar o ser humano a acreditar que ela é inteligente, ficava provada a sua inteligência.
1955 – Surge o termo Inteligência Artificial (IA): A expressão Inteligência Artificial foi cunhada pelo cientista John McCarthy, para descrever a “ciência e a engenharia do desenvolvimento de máquinas inteligentes”
1999 – Aibo, o cão robô: Nesse ano a Sony lançou para o grande público o primeiro cão-robô, o Aibo, um “animal de estimação” capaz de desenvolver a sua própria personalidade.
2002 – Roomba, a vassoura mágica: É o primeiro robô autônomo concebido para ser vendido em larga escala no mercado consumidor. Aprende rotas, evita obstáculos, enquanto limpa a casa.
2011 – Siri, secretaria sabe tudo: A Apple integra no iPhone 4S um assistente virtual dotado de inteligência Artificial com uma interface de voz, a Siri.
2011- Watson, super memória: O computador Watson ganha prêmio de um milhão de dólares ao conseguir responder a todas as perguntas do concurso de televisão “Jeopardy”.
O personagem virtual Eugene Goostman
2014 – Eugene, o computador quase humano: Eugene Goostman é um computador dotado de um programa de conversação capaz de ser aprovado no teste de Turing, já que um terço das pessoas com quem ele conversou julgou que se tratava de um ser humano.
2014 – Alexa, assistente de compras: A Amazon lança um assistente pessoal com interface de voz, o Alexa, que ajuda as pessoas a tomarem decisões a respeito das compras que fazem.
2015 – Sophia, inteligente, bela e charmosa: Sophia é um robô humanoide desenvolvido pela empresa Hanson Robotics, de Hong Kong, capaz de reproduzir 62 expressões faciais. Projetado para aprender, adaptar-se ao comportamento humano e trabalhar com seres humanos. Em outubro de 2017, tornou-se o primeiro robô a receber a cidadania de um país (Arábia Saudita).
GLOSSÁRIO
Algoritmo: conjunto de regras e de instruções que permite executar uma sequência de operações para resolver um problema. Pode ser traduzido num programa executável por um computador.
Aprendizagem de fundo: também chamada deep learning, é um conjunto de técnicas de aprendizagem destinados às máquinas (machine learning). Trata-se de um setor da Inteligência Artificial que tem por objetivo adquirir conhecimentos automaticamente a partir de grandes quantidades de dados (big data). O reconhecimento de imagens, por exemplo, utiliza esta técnica. A aprendizagem de fundo assenta em redes de neurônios artificiais.
Inteligência Artificial (IA): conjunto de teorias e técnicas utilizado para que as máquinas possam simular os comportamentos cognitivos humanos, através da utilização de algoritmos, por exemplo. Divide-se entre IA fraca e IA forte.
IA fraca: concentra-se numa tarefa específica de forma autônoma. Todos os sistemas existentes atualmente são considerados IA fraca.
IA forte: também designada por Inteligência Artificial geral, trata-se de uma máquina que, se um dia surgir, será dotada de consciência própria, razão e sentimentos.
Rede de neurônios: inspirada na rede de neurônios biológicos do cérebro humano, trata-se de um conjunto de algoritmos. Quanto maior for o número de neurônios ligados entre si, mais “profunda” é a rede, e mais confiável é o resultado alcançado.
Singularidade: inteligência superior capaz de se auto-melhorar, a qual seria o fruto da aceleração do progresso tecnológico.