SETEMBRO POEMAS: PERDÃO, SENHOR, NÃO ÉS O JEOVÁ 7

  





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PESQUISA BIBLIOGRÁFICA CIENTÍFICA (com IAC)
investigação realizada pelo Pr. Psi. Jor Jônatas David Brandão Mota
uma das atuações do seu Pastorado4
ATENÇÃO
o conteúdo constante nesta página é resultado da busca  de respostas em investigações bibliográficas e científicas, sem nenhum interesse em ofender ou escandalizar quem quer que seja, e, também, um convite à reflexão aos nossos leitores.








PERDÃO, SENHOR, NÃO ÉS O JEOVÁ
----- JOSUÉ -----

composições durante o mês de julho de 2026
o conteúdo original que inclui este está 






Atualmente, em setembro, estamos pesquisando e escrevendo este livro


"Perdão, Senhor! Não És o Jeová"





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ÍNDICE




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1. DEUS MANDANDO CONQUISTAR

Em Josué 1, a conquista da terra é apresentada como missão dada por Deus a Josué. Entretanto, Jesus apresenta uma relação com Deus baseada no amor, no cuidado e na superação da violência. Ele ensina a amar os inimigos e a fazer o bem até aos que nos fazem mal. Assim, a ideia de um Deus que entrega territórios mediante guerra pode ser compreendida como uma interpretação humana de Deus dentro da mentalidade guerreira daquele período. O território pode ter sido entendido religiosamente pelos homens, sem que isso signifique uma ordem divina de conquista.

2. A TERRA COMO POSSE DIVINA

Josué afirma repetidamente que Deus teria dado a terra a Israel. A ideia transforma uma questão territorial em uma autorização sagrada. À luz de Jesus, entretanto, Deus não aparece como proprietário de um povo contra os demais povos. Jesus amplia radicalmente a fraternidade: o próximo não é apenas aquele que pertence ao nosso grupo. A identificação de uma determinada terra como propriedade exclusiva concedida por Deus pode representar uma maneira humana de interpretar acontecimentos históricos e políticos como intervenção divina.

3. A GUERRA EM NOME DE DEUS

O livro apresenta guerras de Israel como parte de seu projeto religioso. Essa associação entre guerra e vontade divina é uma das questões mais difíceis do texto. Jesus, porém, não construiu seu Reino pela espada. Quando seus discípulos quiseram recorrer à violência, ele rejeitou esse caminho. Portanto, podemos compreender a sacralização da guerra em Josué como um acréscimo humano, nascido de uma época em que vitória militar e aprovação divina eram frequentemente consideradas inseparáveis.

4. JERICÓ ENTREGADA PARA DESTRUIÇÃO

Em Josué 6, Jericó é conquistada depois de uma intervenção atribuída diretamente a Deus. A narrativa culmina na destruição da cidade. A leitura a partir de Jesus cria uma profunda tensão: o Deus revelado por Cristo não precisa da destruição de uma população para demonstrar sua soberania. Jesus vence não eliminando adversários, mas transformando pessoas. Assim, a interpretação de uma vitória militar como ação destrutiva de Deus pode ser vista como elaboração humana sobre um acontecimento de guerra.

5. O “ANÁTEMA” DE JERICÓ

Josué 6 apresenta o conceito de ḥerem, pelo qual aquilo que foi colocado sob destruição deveria ser eliminado. É especialmente difícil conciliar esse conceito com Jesus. O Cristo que perdoa, acolhe e restaura não apresenta pessoas como objetos destinados à destruição religiosa. Portanto, o ḥerem pode ser compreendido como expressão de uma teologia antiga de guerra santa, posteriormente atribuída ao próprio Deus. O problema não está apenas na violência, mas em declarar que Deus a ordenou.

6. A MORTE DE HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS

Josué 6:21 afirma que os habitantes de Jericó foram mortos, incluindo diferentes grupos da população. Essa é uma das situações mais incompatíveis com a revelação de Deus em Jesus. Jesus acolhe crianças, protege os vulneráveis e ensina misericórdia. Não encontramos nele uma ordem para exterminar populações inteiras. Assim, uma leitura cristocêntrica pode considerar que a atribuição dessa matança a Deus representa o limite da compreensão humana acerca de Deus naquele contexto histórico.

7. A DESTRUIÇÃO DOS ANIMAIS

O relato de Jericó inclui também animais. Isso demonstra a amplitude do conceito de destruição total. Para a mentalidade antiga, eliminar completamente o inimigo podia significar demonstrar fidelidade religiosa. Porém, Jesus revela um Deus atento à vida e à criação. Não há em seus ensinamentos qualquer necessidade de destruir animais para satisfazer uma exigência divina. A atribuição dessa destruição a Deus pode ser entendida como parte da lógica humana da guerra santa.

8. ACÃ COMO RESPONSÁVEL PELA DERROTA

Em Josué 7, a derrota de Israel é interpretada como consequência do pecado de Acã. O texto estabelece uma relação direta entre a conduta individual e o resultado militar coletivo. A leitura cristocêntrica pode questionar essa compreensão. Jesus não ensina que Deus precisa punir uma comunidade militarmente porque uma pessoa transgrediu uma norma ritual. Trata-se de uma visão antiga de causalidade religiosa, na qual acontecimentos coletivos eram explicados como consequência direta da aprovação ou desaprovação divina.

9. A MORTE DE ACÃ E DE SUA FAMÍLIA

A narrativa termina com Acã, seus familiares e seus bens sendo destruídos. É uma das passagens mais difíceis de conciliar com o Deus revelado por Jesus. O princípio cristão de responsabilidade pessoal não combina facilmente com a destruição de pessoas relacionadas ao culpado. Jesus insiste na responsabilidade individual e na misericórdia. Assim, podemos compreender o episódio como uma narrativa que interpreta uma punição coletiva como ação divina, refletindo valores jurídicos e religiosos de sua época.

10. A PUNIÇÃO COMO SACRIFÍCIO RELIGIOSO

A morte de Acã não é apresentada apenas como execução judicial, mas inserida numa lógica de purificação da comunidade. Essa compreensão transforma a eliminação de uma pessoa em mecanismo para restaurar a relação do grupo com Deus. Jesus, entretanto, desloca a lógica religiosa da punição para a misericórdia, do sacrifício humano para o amor. Portanto, a ideia de que Deus necessita da morte de alguém para que a comunidade seja novamente aceita pode ser entendida como construção religiosa humana.

11. A DESTRUIÇÃO DE AI

Em Josué 8, Israel derrota Ai e mata sua população. O episódio é novamente apresentado como parte da estratégia concedida por Deus. A narrativa demonstra como a conquista militar é interpretada religiosamente. Entretanto, Jesus não oferece um modelo de expansão do Reino mediante exércitos. Seu Reino cresce pelo testemunho, serviço, amor e transformação. Por isso, podemos separar o acontecimento militar da interpretação teológica posterior: uma coisa é uma guerra ter acontecido; outra é concluir que Deus mandou matar.

12. A EMBOSCADA COMO ESTRATÉGIA DIVINA

Deus supostamente orienta Josué sobre como montar uma emboscada contra Ai. A inteligência militar é colocada dentro da categoria de revelação divina. A partir de Jesus, porém, precisamos perguntar se Deus realmente se manifesta como estrategista de batalhas. O Cristo apresentado nos Evangelhos não ensina seus seguidores a planejar emboscadas contra adversários. A atribuição da estratégia militar a Deus pode representar uma maneira antiga de interpretar o sucesso militar como intervenção sobrenatural.

13. A MORTE DOS HABITANTES DE AI

Depois da vitória, o texto relata a morte da população da cidade. Mais uma vez, Deus aparece como aquele que garante a vitória de Israel. O problema cristológico permanece: Jesus jamais autoriza seus discípulos a exterminarem comunidades adversárias. Portanto, podemos considerar a descrição da matança como uma leitura humana da guerra. O escritor vê Israel vencendo e interpreta essa vitória como resultado de uma ordem divina, embora a revelação posterior em Jesus coloque essa interpretação em profunda questão.

14. A MALDIÇÃO CONTRA QUEM RECONSTRUIR JERICÓ

Embora registrada mais diretamente em Josué 6:26, a fórmula de maldição contra quem reconstruísse Jericó representa uma mentalidade religiosa na qual a palavra de destruição permanece sobre gerações futuras. Jesus, porém, não ensina maldições hereditárias. Sua mensagem rompe ciclos de condenação e oferece possibilidade de recomeço. Assim, a ideia de uma maldição vinculada à cidade pode ser compreendida como construção religiosa humana, e não como expressão do caráter amoroso de Deus.

15. O ENGANO DOS GIBEONITAS

Em Josué 9, os gibeonitas enganam Israel para conseguir um acordo de paz. O episódio é interessante porque mostra que os próprios israelitas poderiam resolver conflitos por meio de um pacto. Entretanto, depois descobrem o engano e mantêm os gibeonitas vivos. A narrativa permite perceber que nem tudo precisava terminar em extermínio. A preservação da vida pode ser lida como um elemento mais próximo da ética que posteriormente será explicitada por Jesus.

16. A GUERRA PARA DEFENDER GIBEÃO

Josué 10 apresenta uma guerra envolvendo os gibeonitas. O conflito é novamente interpretado como ação de Deus em favor de Israel. Contudo, a leitura a partir de Jesus nos leva a perguntar se Deus realmente toma partido militar por um povo contra outro. Jesus relativiza radicalmente a lógica de “nós contra eles”. O Deus de Jesus não é uma divindade tribal que protege um grupo mediante a destruição de seus adversários.

17. AS PEDRAS DE GRANIZO ENVIADAS POR DEUS

Josué 10:11 atribui a Deus uma chuva de grandes pedras que mata inimigos de Israel. Aqui um fenômeno natural é interpretado como arma divina contra adversários. É compreensível dentro da cosmologia antiga, na qual fenômenos extraordinários eram diretamente relacionados à ação divina. A partir de Jesus, porém, podemos reconhecer a experiência religiosa sem necessariamente aceitar a interpretação violenta atribuída a Deus. O fenômeno pode ter ocorrido; sua interpretação como execução divina é outra questão.

18. O SOL PARADO PARA CONTINUAR A GUERRA

Josué 10:12-14 descreve o sol e a lua como se tivessem parado para que Israel pudesse continuar combatendo. O relato atribui diretamente esse acontecimento ao poder de Deus. Além da questão cosmológica, existe uma questão teológica: o milagre é colocado a serviço da guerra. A partir de Jesus, é possível questionar se Deus realizaria um prodígio para prolongar uma batalha destinada à morte de pessoas. O relato pode refletir uma antiga compreensão poética e religiosa da vitória militar.

19. DEUS LUTANDO PELO EXÉRCITO DE ISRAEL

Josué 10:14 afirma que Deus lutou por Israel. Essa frase sintetiza uma das principais teologias do livro: a vitória militar é prova da presença divina. Jesus, porém, desloca a presença de Deus da vitória militar para o amor. Deus não precisa derrotar um povo para provar que está com outro. Assim, “Deus lutou por Israel” pode ser compreendido como uma interpretação humana da vitória, típica de sociedades antigas que entendiam guerras como confrontos entre divindades.

20. OS CINCO REIS EXECUTADOS

Os cinco reis amorreus são capturados e executados em Josué 10. O texto interpreta a derrota deles como vitória concedida por Deus. Jesus, entretanto, apresenta outra forma de lidar com adversários: perdoar, amar e buscar reconciliação. A execução dos reis pode ser compreendida historicamente dentro da lógica de guerra do período, mas atribuí-la à vontade direta de Deus entra em conflito com o rosto de Deus revelado em Cristo.

21. A DESTRUIÇÃO DE MAQUEDA

Depois da captura dos reis, ocorre uma nova destruição. O padrão se repete: conquista, morte e atribuição da vitória a Deus. Essa repetição mostra que não estamos diante de um episódio isolado, mas de uma teologia da conquista. À luz de Jesus, podemos considerar que o escritor interpreta a expansão de Israel como ação divina porque essa era sua maneira de compreender a história. O acréscimo humano está na conclusão: “Deus mandou fazer isso”.

22. A DESTRUIÇÃO DE LIBNA

Josué 10 registra a tomada de Libna e a destruição de seus habitantes. O padrão de guerra santa continua. A narrativa apresenta a conquista como parte do cumprimento de uma promessa divina. Porém, Jesus nunca transforma a eliminação de uma população em sinal de fidelidade ao Pai. Portanto, podemos ler o episódio como testemunho de uma guerra antiga, mas rejeitar a conclusão teológica de que a violência exterminadora representava a vontade do Deus amoroso revelado em Jesus.

23. A DESTRUIÇÃO DE LÁQUIS

Láquis também é conquistada e destruída. O livro utiliza repetidamente a fórmula de vitória concedida por Deus. Essa repetição reforça a ideia de que Israel teria recebido autorização sobrenatural para eliminar seus adversários. Jesus, contudo, não ensina que Deus entrega cidades para serem destruídas por seus seguidores. A leitura cristocêntrica permite distinguir entre memória histórica de guerras e interpretação religiosa dessas guerras.

24. A DESTRUIÇÃO DE HEBROM

Hebrom aparece entre as cidades conquistadas por Israel. A população é destruída dentro do padrão do ḥerem. O problema teológico é novamente a associação entre Deus e extermínio. Jesus revela o Pai como aquele que busca o perdido, acolhe pecadores e oferece vida. Por isso, podemos considerar que a atribuição da destruição de Hebrom a uma ordem divina representa uma etapa humana da compreensão religiosa, ainda não compatível com a revelação plena encontrada em Jesus.

25. A DESTRUIÇÃO DE HAZOR

Josué 11 apresenta Hazor como alvo de destruição total. O texto chega a dizer que Josué queimou a cidade. A conquista é interpretada como cumprimento da ordem de Deus. Porém, a revelação de Jesus não apresenta Deus como comandante de campanhas destinadas à destruição de cidades. O episódio pode conservar memória de conflitos históricos importantes, mas sua interpretação como mandato divino pode ser considerada uma construção teológica posterior.

26. O EXTERMÍNIO DOS “INIMIGOS”

Josué 11:20 apresenta uma formulação especialmente forte: Deus teria endurecido o coração dos adversários para que entrassem em guerra contra Israel e fossem destruídos. Isso gera um problema ainda maior: Deus aparentemente provoca o comportamento que depois será usado como motivo para a destruição. À luz de Jesus, essa lógica é difícil de sustentar. O Deus revelado por Cristo não manipula pessoas para criar condições para sua própria condenação. Trata-se de uma possível elaboração humana sobre a guerra.

27. A IDEIA DE QUE “NADA RESTOU”

Em várias passagens de Josué aparece a linguagem de destruição total. Ela funciona literariamente para afirmar a vitória completa de Israel. Entretanto, textos antigos frequentemente utilizavam linguagem hiperbólica para descrever triunfos militares. Assim, mesmo no plano literário, não precisamos necessariamente compreender cada afirmação como relatório literal de extermínio absoluto. E, teologicamente, atribuir essa destruição completa a Deus entra em choque com Jesus, que não apresenta Deus como defensor da eliminação de povos.

28. DEUS DANDO ORDENS DE EXTERMÍNIO

O ponto central de muitos desses relatos é a fórmula “Deus ordenou”. Esse é talvez o maior problema teológico de Josué. Se simplesmente retirarmos Deus da equação, temos relatos de guerras humanas. Quando dizemos que Deus ordenou, transformamos a violência humana em violência sagrada. Jesus oferece um critério radicalmente diferente: “amai os vossos inimigos”. Por isso, quando uma ordem atribuída a Deus contradiz frontalmente Jesus, podemos classificá-la como Acréscimo Humano à compreensão da Revelação.

29. A DISTRIBUIÇÃO DA TERRA COMO RESULTADO DA CONQUISTA

Nos capítulos finais, a terra conquistada é repartida entre as tribos. O processo é apresentado como cumprimento da promessa divina. Entretanto, uma leitura cristocêntrica pode questionar a ideia de que Deus legitime a posse de uma terra porque outro povo foi militarmente removido dela. Jesus desloca a centralidade da promessa territorial para uma comunidade universal. O Reino de Deus não depende da expulsão de povos, fronteiras nacionais ou superioridade territorial de um grupo sobre outro.

30. A IDEIA DE QUE TUDO FOI ORDENADO POR DEUS

Josué termina reafirmando a aliança e a fidelidade de Israel. O grande desafio interpretativo está em separar aquilo que realmente pertence à revelação de Deus daquilo que o povo interpretou como revelação. O livro conserva valores importantes — coragem, fidelidade, responsabilidade, memória, compromisso e busca por Deus — mas também apresenta violência atribuída ao Senhor. À luz de Jesus, podemos dizer: não precisamos atribuir a Deus tudo aquilo que pessoas religiosas disseram que Deus mandou. Jesus é o critério para discernir o que corresponde ao Pai.

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PREÂMBULOS ESSENCIAIS

UM LAMENTO DIANTE DE DEUS

Durante muito tempo, eu acreditei que o Deus chamado por Moisés de YHWH — Javé ou Jeová, conforme as diferentes tradições de transliteração — era exatamente o mesmo Deus que Jesus viveu, anunciou e revelou. Eu li muitos textos antigos e, porque estavam dentro da Bíblia, atribuí diretamente ao Deus de amor aquilo que seus autores diziam que Deus havia mandado. Quando Josué afirma que Deus ordenou conquistas, guerras e destruições, eu aceitei essas palavras como se fossem a própria voz do Pai. Hoje, olhando para Jesus, sinto necessidade de pedir perdão ao Deus em quem creio, porque demorei a compreender que estar escrito na Bíblia não significa automaticamente que determinada compreensão humana de Deus corresponda plenamente ao próprio Deus. Jesus disse: “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9). E é justamente a partir desse Jesus que preciso reler aquilo que antes aceitei sem questionamento.

O DEUS QUE EU CONFUNDI COM A VIOLÊNCIA

Meu lamento nasce principalmente diante das páginas em que a violência é colocada diretamente na boca de Deus. Em Josué, encontramos a destruição de Jericó, o ḥerem — a ideia de destruição total — e relatos nos quais homens, mulheres, crianças e animais aparecem entre as vítimas (Josué 6:17-21). Em outros momentos, o texto afirma que Deus lutava por Israel (Josué 10:14) e que seus inimigos eram entregues para destruição. A própria tradição bíblica conhece essa linguagem de guerra santa, inclusive em Deuteronômio 20:16-18. Estudos de Susan Niditch mostram que a Bíblia hebraica preserva diferentes concepções de guerra e violência, inclusive textos nos quais se fala da aniquilação total do inimigo. Mas Jesus me obriga a fazer uma pergunta que durante muito tempo não tive coragem de fazer: pode ser verdadeiramente vontade do Pai aquilo que contradiz tão profundamente o Filho? Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44); ensinou a misericórdia (Lucas 6:36) e repreendeu seus discípulos quando quiseram resolver um conflito pela violência (Mateus 26:52; Lucas 9:54-55). Por isso, meu lamento não é contra Deus: é contra a imagem de Deus que eu mesmo aceitei.

JESUS COMO MEU CRITÉRIO

Hoje preciso confessar algo que talvez seja doloroso, mas também libertador: eu não quero mais usar Deus para justificar aquilo que Jesus não justificaria. Se Jesus é, para mim, a manifestação decisiva do caráter do Pai, então preciso levar a sério suas próprias palavras: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30) e “Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9). O Deus que Jesus apresenta procura a ovelha perdida (Lucas 15:3-7), recebe pecadores (Lucas 15:1-2), perdoa seus algozes (Lucas 23:34) e ensina que a grandeza humana está no serviço, não no domínio sobre os outros (Marcos 10:42-45). Isso não elimina a Bíblia; ao contrário, convida-me a lê-la com maior responsabilidade. A crítica bíblica moderna também mostra que os textos bíblicos possuem diferentes autores, camadas, contextos históricos e perspectivas teológicas. John J. Collins, por exemplo, apresenta a Bíblia Hebraica dentro de uma abordagem histórico-crítica que considera seus problemas éticos e a responsabilidade do intérprete; Richard Elliott Friedman examina justamente a complexidade da formação e autoria das tradições bíblicas. Portanto, reconhecer a humanidade presente nos textos não significa abandonar Deus; pode significar abandonar a pretensão de que todas as palavras humanas sobre Deus sejam igualmente a voz de Deus.

PERDÃO POR TER CONFUNDIDO

Peço, portanto, perdão ao meu Deus. Não porque eu tenha deixado de amar a Bíblia, mas porque durante muito tempo amei a Bíblia de uma maneira que me impediu de ouvir Jesus. Peço perdão porque chamei de vontade divina aquilo que hoje não consigo conciliar com o amor que encontro no Cristo. Peço perdão porque pensei que defender Deus significava defender cada violência atribuída a Deus nas Escrituras. Peter Enns chama atenção justamente para o problema de uma leitura que procura proteger previamente a Escritura de suas dificuldades, em vez de permitir que o próprio texto seja enfrentado com honestidade. Bart D. Ehrman, por sua vez, chama atenção para contradições, diferentes perspectivas e processos de formação dos textos bíblicos. Assim, estes poemas não nascem de desprezo pela Bíblia, mas de uma espécie de arrependimento hermenêutico: lamento ter confundido a compreensão religiosa de antigos escritores com a revelação definitiva do Deus que reconheço em Jesus. Se alguma coisa em Josué contradiz radicalmente o amor, a misericórdia e o modo de viver de Jesus, prefiro questionar minha interpretação de Josué a acusar Jesus de estar errado sobre seu próprio Pai.

ENTRE A MEMÓRIA E A REVELAÇÃO

Esta série não pretende simplesmente dizer que “Josué é falso”, nem afirmar que possuímos uma explicação histórica definitiva para cada episódio. Ela assume uma posição teológica específica: o Jesus histórico e o Cristo revelado nos Evangelhos serão o critério máximo para discernir as imagens de Deus presentes nas Escrituras. Assim, quando Josué atribui a Deus uma ordem de extermínio, este projeto chamará isso de Acréscimo Humano: uma maneira pela qual seres humanos de determinada época compreenderam, interpretaram e registraram sua experiência religiosa. Isso não significa necessariamente que todos os acontecimentos narrados sejam inventados; significa que não precisamos aceitar automaticamente a interpretação teológica que acompanha a narrativa. Frank Moore Cross, ao estudar a formação da religião israelita, mostra a complexidade das continuidades e transformações entre as antigas tradições religiosas de Israel e seu ambiente cultural; Susan Niditch demonstra igualmente que não existe uma única concepção bíblica de guerra. É nessa fronteira entre memória humana, interpretação religiosa e revelação que nascerão os trinta poemas. E cada um deles será, antes de tudo, uma oração: “Senhor, perdoa-me por ter colocado em tua boca aquilo que não combina contigo.”

BIBLIOGRAFIA DE APOIO

  1. CROSS, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in the History of the Religion of Israel. Harvard University Press, 1973. Estudo clássico sobre o desenvolvimento da religião israelita e suas relações com o ambiente religioso do antigo Oriente Próximo.
  2. FRIEDMAN, Richard Elliott. Who Wrote the Bible?. Summit Books, 1987. Analisa a formação, autoria e diferentes fontes das tradições bíblicas.
  3. ALTER, Robert. The Art of Biblical Narrative. Basic Books, 1981. Importante estudo literário sobre as técnicas narrativas e a construção dos relatos bíblicos.
  4. NIDITCH, Susan. War in the Hebrew Bible: A Study in the Ethics of Violence. Oxford University Press, 1993. Estudo específico sobre guerra, violência, destruição e suas diferentes ideologias na Bíblia Hebraica.
  5. BORG, Marcus J. Meeting Jesus Again for the First Time. HarperSanFrancisco, 1994. Releitura de Jesus a partir de perspectivas históricas e teológicas contemporâneas.
  6. BRUEGGEMANN, Walter. Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute, Advocacy. Fortress Press, 1997. Explora a diversidade de testemunhos e perspectivas teológicas presentes no Antigo Testamento.
  7. COLLINS, John J. Introduction to the Hebrew Bible. Fortress Press, 2004. Introdução histórico-crítica à Bíblia Hebraica, incluindo questões literárias, históricas e éticas.
  8. EHRMAN, Bart D. Jesus, Interrupted: Revealing the Hidden Contradictions in the Bible (And Why We Don't Know About Them). HarperOne, 2009. Discute diferenças, tensões e perspectivas diversas dentro dos textos bíblicos.
  9. SEIBERT, Eric A. Disturbing Divine Behavior: Troubling Old Testament Images of God. Fortress Press, 2009. Examina criticamente imagens violentas e moralmente perturbadoras de Deus no Antigo Testamento.
  10. ENNS, Peter. The Bible Tells Me So: Why Defending Scripture Has Made Us Unable to Read It. HarperOne, 2014. Propõe uma abordagem que leva a sério as dificuldades históricas, literárias e teológicas encontradas na Bíblia.




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