Imortalidade da alma em Platão







FILOSOFIA

Diferentes conceitos de alma foram traçados ao longo dos séculos, pela Filosofia. Platão, por exemplo, discorreu sobre a imortalidade da alma, unidade intrínseca ao homem.


A palavra grega psykhé é o termo usado por muitos escritores da Antiguidade para o entendimento do que viríamos a chamar na língua latina de anima ou alma. Desde Homero, ela ganha contornos de fumaça, sombra, uma aspecto menos denso daquilo que é o corpo. A própria Filosofia, com Anaxímenes, entende que a alma é um sopro, uma espécie de ar em movimento e que move as coisas corpóreas, refrigerando-as e mantendo-as em movimento (basta notar que o cadáver não respira, por isso o corpo morre ou fica em repouso).

No entanto, a partir de concepções místicas e religiosas, tais como o orfismo e o pitagorismo, a noção de alma foi ganhando contornos mais conceituais, ainda que de forma dialética, sem pretender formar uma posição absoluta sobre ela ou demonstrar o que ela seja. Platão foi o responsável por essa mudança. Em vários textos, este autor aborda questões sobre a alma, mas nem sempre uma posição que seja unívoca. Falaremos de algumas delas, de modo a compreender que possam se tratar de um conjunto.

Em primeiro lugar, quando de uma tentativa de definir o Homem, vê-se que ou é corpo, ou é um misto de corpo e alma, ou é a alma. Isso porque, diante da discussão, fica evidente que o corpo é efêmero, transitório e parte de uma estrutura. A alma é a unidade intrínseca (ou psíquica, como será dito mais tarde) ao homem. O homem é a sua alma.

Já num outro diálogo, a alma é vinculada à linguagem, mas, estando associada ao corpo, padece da relação com esse. Assim, quando o corpo está mal, a alma também pode ficar doente e o tratamento deveria ser realizado à base do que chamamos hoje de terapia psicossomática (psique = alma; soma = corpo). Essa posição só reforça a anterior de ser a alma a unidade psíquica do homem.

Em uma terceira abordagem, o corpo é tratado como o lugar em que habita a alma sendo ele a expressão ou o sinal (semainei; sema = sinal, parece-se com soma) da alma. Sendo assim, a alma é diferente do corpo e usa-o como instrumento para realização dos seus desígnios.
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Mas somente nos diálogos de maturidade Platão consegue dar um delineamento sobre o assunto com maior riqueza de detalhes. Ao conceber a realidade em diferentes instâncias, sensível e inteligível (sendo esta última a base do conhecimento, já que é estável, imóvel, imutável, eterna, idêntica, incriada, etc.), o mundo das ideias, como objeto do conhecimento, precisaria de um sujeito que lhe fosse semelhante. É assim que a alma é compreendida como princípio de movimento, gerando a vida, mas participando do que é divino.

É através da alma que o homem conhece, segundo Platão. O corpo e as sensações explicam “como” são as coisas. A alma e a inteligência explicam “o que” são as coisas. É por isso que a alma é esse trânsito entre os dois mundos, inteligível e sensível, ainda que suas características sejam dadas pelo mundo inteligível. A alma tem de se assemelhar àquilo que ela busca ou aspira: as ideias. E ainda que encarnada em um corpo, a morte refere-se somente a essa parte material, divisível, múltipla, instável. A alma como unidade não se dissolve, mas busca, segundo os mitos escatológicos que Platão narra, o aperfeiçoamento a partir de uma série de ciclos reencarnatórios. A expiação se dá pelas faltas cometidas em vidas passadas que a alma guarda na memória e ao contemplar o inteligível faz sua escolha da vida que quer viver. Então, põe-se novamente em movimento para realizar sua trajetória, mas o corpo torna-se um obstáculo e a faz esquecer parcialmente o que contemplou no mundo inteligível. É assim que ela busca o conhecimento como tentativa de purificação da alma, através da inteligência. A alma é, pois, sujeito do conhecimento.



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Imortalidade da alma em Platão. Platão e a imortalidade da alma (uol.com.br)

Diferença entre Psicólogo e Psicoterapeuta



psicologo

Já anteriormente falámos das diferenças entre o Psicólogo e o Psiquiatra (ver aqui). Hoje trago outro tópico no qual a confusão ainda tende a ser maior, ao ponto de muitas vezes as pessoas pensarem qua são sinónimos. Iremos falar das diferenças entre o Psicólogo e o Psicoterapeuta.

Ora tínhamos então já visto que o Psicólogo é um profissional com formação superior em Psicologia (eventualmente especializado em Psicologia Clínica e da Saúde) e que entende os problemas psicológicos enquanto consequência de experiências vivenciais ou relacionais, relacionadas com a forma como o sujeito foi desenvolvendo a sua maneira de lidar consigo e com os outros. Vimos também que a sua abordagem terapêutica passa sobretudo por uma abordagem psicoterapêutica, apoio e aconselhamento psicológico. E é geralmente esta parte que cria alguma confusão.

Mas o que é a Psicoterapia? Psicoterapia é uma forma de terapia que não é exclusiva para problemas psicológicos, e cuja especificidade reside no facto de utilizar como ferramentas os processos psicológicos dos sujeitos. Por outras palavras, não é uma forma de “tratar problemas mentais” mas antes uma forma de tratar que se recorre dos processos mentais. Posto isto, pode-se fazer uma psicoterapia com vista à intervenção num problema ou situação específica (patologia), mas também como forma de aumentar o autoconhecimento – insight – do sujeito (normalidade).

Na realidade, muitos Psicoterapeutas são Psicólogos (aliás, atualmente a Psicoterapia é uma Especialidade Avançada dentro da Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde). No entanto, embora algumas instituições profissionais defendam que a Psicoterapia deva ser exclusiva dos Psicólogos, outras instituições não têm esse entendimento e na realidade o que é facto é que temos vários Psicoterapeutas que não são Psicólogos. Aliás, já tínhamos visto previamente que muitos Psiquiatras também utilizam a Psicoterapia nos seus métodos.

Portanto, a Psicoterapia pode ser vista essencialmente como uma ferramenta, que não é exclusiva da Psicologia nem da Psiquiatria. Um Psicólogo ou um Psiquiatra pode ser simultaneamente Psicólogo e Psicoterapeuta ou Psiquiatra e Psicoterapeuta, mas nem todos os Psicólogos/Psiquiatras são Psicoterapeutas da mesma forma que nem todos os Psicoterapeutas são Psiquiatras ou Psicólogos.

Significa também isto que, na hora de escolher um Psicoterapeuta, há que ter alguns cuidados (aliás, como na escolha de qualquer profissional), com vista a assegurar que o Psicoterapeuta tem, efetivamente, a formação necessária para o trabalho que vai realizar. Se o Psicoterapeuta for também Psicólogo, bastará assegurar-se que o mesmo tem a especialidade reconhecida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Já mais difícil poderá ser nos casos em que o Psicoterapeuta não é Psicólogo, pois nesse caso, por razões óbvias, o reconhecimento nunca pode ser efetuado através da Ordem dos Psicólogos. Em alternativa recomendo que tente verificar as filiações ou reconhecimentos a nível internacional (quer em Portugal, geralmente por via de uma Sociedade de Psicoterapia, quer no estrangeiro, geralmente por via da European Association for Psychotherapy).

Convirá ainda esclarecer que não existe apenas um mas vários modelos psicoterapêuticos: Para começar temos logo psicoterapias que são realizadas individualmente e psicoterapias que são realizadas em grupo. E depois temos escolas que seguem a perspetiva psicanalista, cognitivo-comportamental, sistémica e as integrativas (que acabam por integrar um pouco das anteriores). Não existem propriamente modelos certos ou errados. A principal diferença consiste na abordagem dos problemas. E, sabendo que “cada caso é um caso” o aspeto determinante na escolha da abordagem psicoterapêutica está geralmente na natureza do pedido (o “problema” que levou à consulta) ou até mesmo na personalidade do próprio sujeito (cliente/paciente). 


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Diferença entre Psicólogo e Psicoterapeuta | O Meu Psicólogo (omeupsicologo.com)


O ponto de vista asiático.

A América de Joe Biden precisa aprender as lições que o mundo dá, e não o contrário

Com economias asiáticas, especialmente a da China, recuperando o seu vigor, eficácia e competitividade, uma transformação fundamental afeta a América. Ela deixou de ser uma “formadora de preços” para se tornar uma “tomadora de preços”. Para que Biden tenha sucesso, ele deverá reconhecer esses fatos e ignorar o conselho da arrogante ‘elite pensante’ de Washington.

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Por: Kishore Mahbubani (Diplomata e escritor singapuriano)

Fonte: Site South China Morning Post https://www.scmp.com/

Após a exaltação entusiástica global que se seguiu à vitória de Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos, seguinte Joe Biden's vitória no Eleição presidencial dos EUA, o mundo parece ter estacionado em algum lugar desconectado da realidade. Por um lado, a atmosfera parece estar impregnada da expectativa de que um novo amanhecer se aproxima. Espera-se que a América será mais uma vez um ator calmo, estável e racional nos assuntos internacionais. Por outro lado, há também uma percepção crescente de que Biden está de mãos atadas. Donald Trump se foi. Mas, como escreve Martin Wolf, “as chances de um retorno do trumpismo, e até mesmo do próprio Mr. Trump, existem e são boas”. E ele conclui, tristemente: "A presidência [de Biden] pode acabar como um interlúdio decepcionante." 

No entanto, antes de despencarmos mais uma vez para o plano da desgraça e da escuridão, vamos fazer uma pausa e nos perguntar se é possível que Biden tenha sucesso. A resposta é, como diria Barack Obama: "Sim, podemos". No entanto, esse “podemos” só será possível se os Estados Unidos fizerem uma autoanálise realista de seus pontos fortes e fracos atuais e perceber que precisam fazer algumas reviravoltas fundamentais, como documentei em meu livro Has China Won?

 O regresso da história

A primeira reviravolta fundamental é a partir do momento “Fim da História”. Numa clara retrospectiva, podemos constatar que este momento, cheio de arrogância e descomedimento, gerou uma enorme cegueira para a real “dura verdade” da época: “o regresso da história”. Com economias asiáticas, especialmente a da China, recuperando o seu vigor, eficácia e competitividade, uma transformação fundamental afeta a América. Ela deixou de ser uma “formadora de preços” para se tornar uma “tomadora de preços”. Na verdade, a onda econômica japonesa nas décadas de 1970 e 1980 já deveria ter fornecido um alerta de que a economia americana precisava de um “programa de ajuste estrutural” (para usar o jargão do FMI). Ainda assim, a toda poderosa América poderia usar a sua formidável musculatura geopolítica para conter a competição do Japão, um aliado forte porém dependente dos EUA. Mas nenhuma musculatura geopolítica desse tipo pode conter a competição chinesa.

Mudança radical de postura

Mas nem tudo está perdido. A economia americana continua dinâmica e competitiva. No entanto, em vez de uma crença laissez-faire de que os mercados irão naturalmente tornar os trabalhadores americanos mais competitivos, são necessários grandes programas de re-treinamento dos trabalhadores. Biden pode fazer disso sua prioridade número um. Para conseguir isso, a América precisa dar uma segunda reviravolta fundamental a partir da crença reaganiana profundamente arraigada de que “o governo não é a solução para o nosso problema, o governo é o problema”. A grande mensagem que o Leste Asiático está enviando ao mundo, por meio de sua competente gestão de Covid-, é que a frase “bom governo” não é uma utopia inalcançável. Na verdade, enquanto a América está tentando navegar em seu rota através de um momento histórico difícil, onde enfrenta a possibilidade histórica muito realista de se tornar a economia número dois do mundo, ela precisa preencher suas fileiras do serviço público com pessoas atenciosas e altamente motivadas - não a tripulação desmoralizada que Trump está deixando para trás. Muitos americanos perceberam a necessidade disso. Como vice-presidente, Al Gore tentou lançar a campanha “Reinventando o Governo”. Infelizmente, na década de 1990, os Estados Unidos ainda estavam cheios de arrogância do "Fim da História" e da antipatia reaganiana pelo governo. A segunda grande reviravolta que Biden pode fazer é mencionar o não mencionável: a América hoje precisa de um “bom governo”. Assim como a restauração Meiji proporcionou desempenho extraordinário à economia japonesa, enviando jovens japoneses para aprender as melhores práticas de boa governança em todo o mundo, os Estados Unidos podem fazer o mesmo. EUA e China reabrem negociações; Pequim parabeniza Biden já em 14 de novembro de 2020... Em suma, com humildade em vez de arrogância, a América pode aprender com o mundo. 


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O ponto de vista asiático. A América de Joe Biden precisa aprender as lições que o mundo dá, e não o contrário - Brasil 247


Nietzsche – as possibilidades da alma




Há vários motivos para incluir Nietzsche na história da psicologia. O próprio filósofo escreveu pouco antes de seu colapso mental que “antes de mim não havia sequer psicologia” (Ecce Homo). Para ele, todos aqueles que diziam estudar o homem se baseavam em considerações metafísicas de origem platônica e posteriormente cristã, mas sem nunca parar para pensar se estas próprias ideias tinham alguma consistência. O caminho dos filósofos ascéticos leva a becos sem saída e posturas niilistas (veja aqui)

Para dar conta destes problemas, Nietzsche sugere retornar aos problemas fundamentais, demolindo o arcabouço teórico da metafísica alemã, da teologia cristã e do utilitarismo inglês. Ao longo de toda a obra nietzschiana cabe a pergunta “O que é psicologia?“. Enfim, o primeiro trabalho do filósofo-psicólogo então é desconstruir as ilusões criadas na unidade do homem, que Nietzsche chama acertadamente de atomismo anímico.

Demócrito (460 a.C.) já havia postulado o átomo como algo indivisível, indestrutível, imperecível. A-tomo, do grego, aquilo que não pode ser dividido. Esta sedução da linguagem nos leva por um caminho enganoso que foi seguido posteriormente por Platão, pela teologia, Descartes, Kant e Schopenhauer. Contudo, “a unidade da palavra não garante a unidade da coisa” (Humano Demasiado Humano). Só porque temos uma palavra que indica algo, isso não se dá necessariamente.

O atomismo psíquico é o conceito de que há algo de imutável em nós, uma essência constante, fixa, que não é afetada pelo devir. O atomismo psíquico é a âncora das teorias metafísicas que necessitam de um pouco de fixidez, um pouco de Parmênides, um pouco de eternidade. Sem ele, o “Penso, logo existo”, estaria perdido, a alma platônica se perderia no rio de Heráclito, no fogo da transitoriedade. A alma precisa permanecer inabalável, impávida frente à existência fugidia. Esta é a ânsia daqueles que desprezam este mundo e procuram por algo de sólido fora dele.




Mas o mundo é um mar de forças, por trás do átomo encontramos várias outras partículas relacionando-se umas com as outras; a crença na unidade não passa de uma busca por um porto seguro, um ponto de apoio onde se fixar. Já sabemos: a imobilidade mata a vida! Platão pensou encontrar este lugar no mundo das ideias, do qual nosso mundo seria apenas uma cópia imperfeita e perecível. O cristianismo, cópia vulgar do platonismo, persiste neste fóssil metafísico da unidade, céu e terra. Os metafísicos são incapazes de ver que toda essência eterna é ilusão. Precisamos voltar a Heráclito e dizer que o rio que entramos pela segunda vez não é o mesmo que o primeiro porque suas águas já são outras, mas principalmente, nós mesmos já somos outros também.

Todas estas ideias se repetem quando falamos do homem. Buscamos algo de essencial e eterno no ser humano, algo que resista às forças tanto internas quanto externas e que sobreviva ao movimento. Ainda estamos em núpcias com a imobilidade. Esta ilusão se dá principalmente na palavra “Eu”. Mas esta noção é completamente aleatória, uma mentira útil, servindo apenas na medida em que serve ao próprio homem. O Eu é ferramenta de responsabilização e culpabilização! Sem um “Eu-estruturado” toda nosso ideal de homem se perde na neblina do caos.

A alma é um jogo de forças, um mar agitado num embate furioso onde uma onda se sobrepõe à outra. Nossa consciência é apenas um subconjunto, a última e mais recente parte, que se manifesta nessa dança corporal de impulsos. Várias partes do nosso processamento cerebral escapam à nossa consciência, várias condições corporais nos passam despercebido, a mente consciente é uma janela reduzida demais para chamar de “alma”! Se do átomo só encontramos seu movimento e sua força, Nietzsche nos propõe chamar o corpo de um grande conjunto de vontades, afetos, impulsos e sensações:


Está aberto o caminho para novas versões e refinamentos da hipótese da alma: e conceitos como ‘alma mortal’, ‘alma como pluralidade do sujeito’, ‘alma como estrutura social de impulsos e afetos’ querem ter, de agora em diante, direito de cidadania”

– Nietzsche, Além do Bem e do Mal, § 12

Se o mundo externo não possui unidade por si só, mas é uma criação do homem para suportar o infinito devir da existência, o mesmo deve ser aplicado ao homem! Sim, a multiplicidade de forças do mundo é a mesma pluralidade de forças internas que movem o ser humano. E os dois não constituem nada mais que uma unidade transitória, um rio no qual temos a ilusão de entrarmos duas vezes. O corpo é um ponto de incidência de vários impulsos! A multiplicidade de quereres não permite pensar em um indivíduo.

Deste modo, palavras como essência, alma, unidade, eu, passariam a ser apenas palavras, simplesmente palavras, criações que nos utilizamos sabendo que são mentiras, porque por debaixo desse “Eu”, pré-suposto platônico, se escondem milhares de outros “Eus”, que também querem e desejam e se empurram na busca para crescer, se afirmar e saciar suas vontades.

Podemos trocar a palavra alma por inúmeras outras, depois de destituí-la de seus pressupostos metafísicos. Espinosa, por exemplo, substituiu-a por conatus, que do latim significa esforço. Não se trata mais de uma essência última, a verdade do que somos, mas sim de um grau de potência, a capacidade de afetar e ser afetado pelo mundo. Ao nos relacionarmos, portanto, nossa essência muda, não somos que éramos há dez anos atrás, e não seremos os mesmos no futuro.

Está desfeita a unidade de Descartes ao dizer “penso, logo existo”, porque o próprio “eu” se multiplica por detrás de si. Schopenhauer também afirmou a unidade do sujeito no “Eu quero”, mas ele não pode ignorar a pergunta “quem quer?”, Nietzsche nos ajuda a responder: queremos sempre no plural! A ideia de ter várias almas é deslumbrante, poético demais para não ser filosofia. Se a vida é perspectivismo, por que não pensar assim? A filosofia nasce do corpo atravessado por inúmeros impulsos, o pensamento nasce do corpo, sempre no plural. Um corpo que filosofa, que interpreta, que cria valores, que se transforma no próprio ato de afirmar-se. De agora em diante, todo pensamento deve passar pelo crivo do corpo e seus múltiplos impulsos, para ser capaz de gerar a diferença em si.

A vida é movimento, e determinadas ideias procuram dissimular o andamento do rio, secá-lo. Nosso corpo, e consequentemente nossa mente, é um rio que vive dos fluxos que o atravessam. A vida é um rio que ganha velocidade enquanto encontra os fluxos certos. O objetivo de Nietzsche ao postular várias almas é também trazer a opção de novas possibilidades, outras interpretações, que afirmem a vida por si própria sem recorrer a “céu”, “inferno” e outras existências para validar a nossa realidade. Precisamos encontrar nossas corredeiras, nossas cachoeiras, nossas águas calmas.


Assim falava alguém de si para si, em uma caminhada ao sol da manhã: alguém em quem não somente o espírito, mas também o coração sempre se transforma de novo e que, ao contrário dos metafísicos, se sente feliz por albergar em si, não ‘uma alma imortal’, mas muitas almas mortais”

– Nietzsche, Humano Demasiado Humano II, §17


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Psicopatologias na abordagem da Psicanálise

Psicopatologia e Periculosidade | Paula Muniz - Psicóloga


O que são psicopatologias e como elas são diagnosticadas e tratadas? Neste artigo, vamos fazer uma síntese sobre as principais psicopatologias. Desde Freud, fortaleceram os estudos sobre a somatização, isto é, sobre como sintomas psíquicos modificam o organismo humano e acarretam doenças físicas.

As psicopatologias e os processos psicossomáticos

Hoje em dia é grande o número de acometimentos de doenças que trazem grandes transtornos para o indivíduo. A maior parte delas é de cunho psicológico. São várias patologias orgânicas desenvolvidas por processos psicossomáticos, ou seja, as psicopatologias.

Mas, sem dúvida nenhuma das que trazem diretamente problemas de ordem psíquica são muito mais relevantes. Isto se dá pelo fato de que algumas trazem transtornos tanto para o indivíduo, família e sociedade. Às vezes, tratamentos mais complicados, precisam ser descobertos. Assim, poderá se adentrar na psique humana e desvendar a origem da desordem.

Os profissionais responsáveis por tratar as psicopatologias

São imprescindíveis para auxílio na compreensão da origem das disordens psíquicas:

  • o psicanalista: profissional formado em um Curso de Formação em Psicanálise;
  • o psicólogo: profissional formado em uma faculdade de psicologia;
  • o psiquiatra: médico com especialização em tratamentos de transtornos da mente.

O trabalho deles se configura como uma tarefa árdua, mas imprescindível para os sujeitos e a sociedade.

Diversos tipos de psicopatologias

Várias podem ser as abordagens para resolver ou minimizar os conflitos advindos da psique, pois cada psicopatologia tem sua peculiaridade. Consequentemente, possui um tratamento específico. Podemos citar aqui o caso da Esquizofrenia que após ser muito estudada entrou num consenso de sua subdivisão. Ela pode ser:


  • Ainda contamos com o transtorno esquizofreniforme e o esquizoafetivo. Em todos os seus subtipos as recidivas são constantes por se tratar de uma certa cronicidade dos quadros. Portanto, a necessidade da continuidade do tratamento proposto é melhor sendo com uma equipe multiprofissional.paranóide
  • hebefrênica
  • catatônica
  • indiferenciada
  • residual etc.

As psicoses e seus sintomas

Os sintomas psicóticos podem decorrer de tensões psicológicas de patologias cerebrais e orgânicas, ou de interação das duas. Por isso, as perturbações psicóticas são divididas em duas categorias gerais. São as psicoses funcionais e psicoses orgânicas, de acordo com o fato de haver ou não uma patologia cerebral demonstrável e ligada a doença.

As psicoses funcionais são divididas em quatro tipos ou agrupamentos básicos: reações esquizofrênicas, reações paranoides, reações afetivas, reações psicóticas involutivas.

Não se pode confundir psicose com conflitos psicológicos. Por exemplo, na impotência e frigidez, esses fatores podem insurgir causando transtornos da personalidade. Mas, são de outra origem como por exemplo fadiga, preocupação, stress e outras doenças que podem afetar a sexualidade temporariamente.

Ou seja, fatores tais como o medo, falta de afinidade emocional com o par sexual, satiríase e ninfomania, violação, homossexualidade e etc.

A relação da sexualidade com as psicopatologias

Todos esses distúrbios de conduta, frente a sexualidade, podem a vir a se tornar uma psicopatologia, se não forem tratados a tempo. Além de alguns serem tidos hoje como crimes pela justiça, como a pedofilia, trazem grandes prejuízos ao sujeito que as vivenciam. Por vezes, eles não a executam por entenderem se tratar de um desvio. Assim, sofrem com isso pois desconhecem a causa que os fazem se sentir assim.

É na Psicanálise que, muitas vezes, conseguem entender o motivo pelo qual os fizeram a ter tal conduta. Muitas são tratáveis e outras são mantidas num contexto mais aceitável. Quando estes desvios se tornam excessivos, podem trazer dificuldades de convívio em coletividade. Sendo assim, podem se transformar em uma psicose propriamente dita.

A precocidade sexual é, sem sombras de dúvidas, uma condição favorável a tais desvios. Uma criança precoce é normalmente sensível a presença do sexo oposto antes da puberdade. Haja estabelecido nela os canais normais do desejo sexual, está particularmente propensa a converter-se em presa das extravagâncias do simbolismo.

As questões do humor

Adentrando nos transtornos de humor, podem ser citados vários como a depressão , tida como o mal do século. A ansiedade, que é uma resposta bio-psicológica normal, comum não só nos humanos, mas em outros animais. Ela mantém a função biológica de promover um estado de alerta mais aguçado. Assim, leva o indivíduo a se preparar antecipadamente para enfrentar uma possível ameaça à integridade física.

Outro estado similar, é o medo que se difere da ansiedade por ser direcionado à algo conhecido. O mundo em que vivemos, muito globalizado, consumista, e com grande inversão de valores, está com certeza fazendo com que mais pessoas se sintam ansiosas.

Temos que acompanhar o desenvolvimento ditado por uma sociedade que não oferece a todos as mesmas oportunidades. Com isso, arrumam-se muitos conflitos na personalidade por auto afirmação, reconhecimento, enfim, por situações muitas vezes não condizentes com a realidade do sujeito.

Daí começam as cisões de humor. Elas podem levar a algum desajuste emocional. Consequentemente, trazer à tona certas psicopatologias e neuroses.

Conclusão

Cabe ao profissional de saúde, e áreas afins, ter a sensibilidade de entender as psicopatologias que afetam a saúde bio-psíquica-social-biológica. Ele poderá encaminhar e orientar o sujeito a adesão ao tratamento psicoterapêutico para tratamentos de neuroses, psicoses, perversões e etc.

Caso haja a necessidade de associar os tratamentos psicoterapêuticos com os farmacológicos, ocorrerá uma abordagem multiprofissional. Isto é, ela trará um melhor resultado para o sujeito, se aderida. 



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Psicopatologias na abordagem da Psicanálise - Psicanálise Clínica (psicanaliseclinica.com)

Livro "Escravidão"

 

Laurentino Gomes recebe o Jabuti de Literatura na categoria biografia com "Escravidão"

"'Escravidão" do jornalista e escritor Laurentino Gomes venceu o Prêmio Jabuti de Literatura 2020 na categoria Biografia, Documentário e Reportagem

Laurentino Gomes e o livro premiado
Laurentino Gomes e o livro premiado (Foto: Reprodução/Facebook)


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Laurentino Gomes recebe o Jabuti de Literatura na categoria biografia com "Escravidão" - Brasil 247


“Escravidão”, primeiro volume, acaba de ganhar o Prêmio Jabuti de Literatura 2020 na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Minha gratidão aos jurados da , aos parceiros da e a todos os leitores que tão generosamente acolheram esta obra.

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Laurentino Gomes: “Infelizmente, a história da escravidão é contada por pessoas brancas”

Autor do livro 'Escravidão', jornalista diz que depoimentos e biografias sobre o tema são raras. Passado escravocrata manteve os negros na pobreza no Brasil, e requer segunda abolição, ele defende

O escritor Laurentino Gomes, autor do livro 'Escravidão'
O escritor Laurentino Gomes, autor do livro 'Escravidão'L.BELTRÃO

A escravidão existe desde o início da história humana, mas só atingiu uma escala industrial quando colonos europeus levaram à força 12,5 milhões de africanos para a América. O resultado desse processo é que, pela primeira vez, a cor negra da pele se torna sinônimo de sujeito escravizado. As duas constatações estão no livro Escravidão, de Laurentino Gomes, conhecido pelos best-sellers 18081822 e 1889. Se na primeira trilogia o autor reconstituiu a construção institucional do Brasil nos anos que antecederam a proclamação da República, a nova pesquisa se debruçou sobre a formação social do país. "Se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais profunda, precisa estudar a escravidão. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão", afirmou ao EL PAÍS, em uma livraria em São Paulo.

O legado da escravidão, que perdurou por mais de 300 anos e trouxe ao país cerca de 5 milhões de negros e negras, deixou sequelas profundas. O autor afirma que o Brasil precisa de uma segunda abolição"já que a maioria da população pobre é negra, sem acesso à educação, saúde e empregos decentes", diz.

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Laurentino também defende que países que utilizaram mão de obra escrava devam pedir perdão, ainda que a questão seja polêmica. "É uma questão de honestidade, algo simbólico, porque foi um massacre, uma tragédia humanitária de grandes proporções. Agora, tenho dúvida se seria possível pagar essa dívida. Hoje, na África, há uma elite que é herdeira militar beneficiada pelo tráfico de escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em Gana, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem?", questiona.

Pergunta. Você aprendeu mais com a trilogia feita anteriormente ou com esse livro?

Resposta. Com essa trilogia. A trilogia anterior me ajudou a entender o Brasil do ponto de vista burocrático, institucional, legal, ou seja, como foi a construção do estado brasileiro durante o século XIX depois do rompimento dos vínculos com Portugal. São três datas ícones: 1808, que é a chegada da corte fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte e o início o processo de independência do Brasil. O resultado é 1822, com a independência de fato. O Brasil se mantém como monarquia durante 67 anos, o que os historiadores chamam de uma "flor exótica da América", já que estávamos cercados de repúblicas. E a terceira data é 1889. Essa três datas ajudam muito a entender o que nós temos em Brasília hoje, essa promiscuidade entre interesses públicos e privados. Mas, se você quiser entender o Brasil em uma dimensão mais profunda, precisa estudar a escravidão, que é o assunto mais importante da história do país.

P. De que forma?

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MAIS INFORMAÇÕES

R. Tudo que fomos no passado, o que somos hoje e que nós gostaríamos de ser no futuro tem a ver com a escravidão. Primeiro por uma razão estatística: o Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso dá 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. Foi o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, e o último a acabar com a própria escravidão, em 1888. O Brasil foi construído por escravos, em todos os ciclos econômicos, passando pelo açúcar, ouro, diamante, café. A escravidão não é um assunto acabado, tema de museu ou livro de história. Ela está presente na realidade brasileira. Os abolicionistas do século XIX, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, defendiam que o Brasil precisava fazer duas abolições. A primeira era parar de comercializar gente como mercado, algo ocorrido com a Lei Áurea. A segunda era incorporar os ex-escravos na sociedade brasileira como cidadãos, dando terra, emprego, educação, e isso o Brasil jamais fez. O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte.

P. Por que o Brasil os abandonou ?

R. Quando você olha a história da abolição no Brasil, há uma história branca. O Brasil, no final do século XIX, tornou-se um pária no cenário internacional, como foi a África do Sul na época do Apartheid. A elite brasileira se deu conta de que a escravidão comprometia a imagem do país perante o mundo supostamente desenvolvido. Havia uma nobreza aqui, como se fosse Versailles ou a Corte Espanhola, de um país que se julgava europeu, monárquico, com uma imagem imperial. Mas a realidade nas ruas era de escravidão, pobreza e anafalbetismo. A Lei Áurea procura livrar o país dessa nódoa, mas o Brasil nunca fez nenhum esforço para incorporar sua população, porque isso significava abrir mão dos privilégios, riquezas, redirecionar os recursos do Estado para pessoas que não tinham oportunidade. O resultado disso é que hoje nós somos um dos países mais segregados do mundo, embora não tenhamos leis de segregação racial como houve nos EUA até a luta pelos direitos civis. Mas somos um país segregado na geografia, basta ir ao Rio de Janeiro e ver quem mora nos bairros violentos e dominados pelo crime organizado e quem vive em Copacabana ou no Leblon, na zona sul. Também é um país segregado nos números, indicadores sociais. Por qualquer critério que você queira medir o Brasil, seja renda, emprego, segurança pública, existe um abismo entre oportunidades para a população branca e negra. Um homem negro aqui tem oito vezes mais chances de morrer em um homicídio do que um homem branco. Nós somos um país profundamente preconceituoso. No passado, desenvolvemos alguns mitos de que seríamos uma grande democracia racial, de que a convivência era cordial e amigável. Se você entrar numa rede social agora vai ver as manifestações de racismo explícitas, cruas, inclusive no discurso do presidente da República.

"O país abandonou sua população afrodescedente à própria sorte"

P. Qual a maior diferença da escravidão ocorrida nas Américas para a escravidão na história?

R. É como se a escravidão fizesse parte do código genético humano. Houve no Egito Antigo, na Babilônia, na Grécia Antiga e na África antes da chegada dos europeus. A própria etimologia da palavra escravo, slave em inglês, vem de "slavo", do povo branco que era escravizado no leste da Europa pelo Império Romano. A africana tem duas novidades: a primeira é a escala industrial, com 12,5 milhões de pessoas embarcadas em cerca de 35 mil viagens de navios negreiros para trabalhar em atividades no Novo Mundo que podem ser consideradas pré-industriais. A divisão dos trabalhos, os turnos, a hierarquia, a maneira de funcionamento de um engenho de açúcar no Nordeste brasileiro, ou de uma mina de diamante, se assemelhavam muito às futuras fábricas da revolução industrial na Inglaterra. A segunda característica está no nascimento do racismo: é a primeira vez na história da humanidade que há a associação entre a escravidão e a cor negra da pele. Há toda uma ideologia construída, inclusive de fundo religioso, para dizer que os africanos eram selvagens, bárbaros, pagãos, praticantes de religiões demoníacas, e que portanto a melhor coisa que poderia acontecer com o africano era ser escravizado para se incorporar a suposta civilização europeia que se instalava nos trópicos. Era muito comum nas discussões do parlamento brasileiro a ideia de que a escravidão era a redenção dos escravos. O Padre Antônio Vieira, no final do século 17, defendia a ideia de que era uma graça divina que os escravos tivessem tido a oportunidade de serem escravizados para se incorporar a Igreja Católica.

P. A Igreja Católica fez uma distinção entre índios e africanos, certo?

"Se você entrar numa rede social agora vai ver as manifestações de racismo explícitas, cruas, inclusive no discurso do presidente da República"

R. Há uma discussão filosófica e teológica sobre a conveniência ou não de escravizar índios. Mas a realidade é que os índios foram massacrados. Portugueses e espanhóis, quando chegaram à América, tentaram de todas as formas escravizar os índios. A primeira carga de escravos que cruza o oceano atlântico não foi da África para o Brasil, mas foi daqui para Portugal, em 1511. Uma nau chamada "Bretoa", de um senhor chamado Fernando de Noronha, que hoje dá o nome ao nosso arquipélago no nordeste, levando uma carga de pau-brasil, peles de onça pintada, papagaios e 35 indígenas que seriam leiloados em Portugal. Nos três séculos seguintes o Brasil matou um milhão de indígenas a cada 100 anos de diversas maneiras: expulsão de terras, guerras, extermínio e, principalmente, pelas doenças, como gripe, sarampo e varíola. A inviabilidade prática da escravidão, todo esse massacre indígena, coincide com a discussão filosófica dos jesuítas que afirmavam que eles não deveriam ser escravizados. Mas o fato é que os portugueses e espanhóis não conseguiram realizar seu projeto inicial que era escravizar os índios. Se eles tivessem conseguido, talvez não tivéssemos a escravidão africana, porque tínhamos 5 milhões de índios aqui, que foi o número aproximado de africanos trazidos para o Brasil. Há também uma justificativa bíblica para se voltar à África. No livro do Gênesis, Noé, após dilúvio, se torna produtor de vinho. Em uma determinada ocasião, ele bebe demais, se embriaga e dorme completamente nu dentro de casa. Os três filhos chegam e um deles, ao ver o pai daquele jeito, ridiculariza-o. É o Cam. Ao acordar, Noé teria lançado a "Maldição de Cam", dizendo que os descendentes dele seriam escravos. Os padres jesuítas diziam que os descendentes de Cam seriam os negros africanos e, portanto, candidatos naturais a escravidão. Isso era repetido de forma exaustiva.

P. Alguns pensadores do século XVIII e XIX, defensores da liberdade, eram a favor da escravidão?

R. Sim, David Hume [filósofo e escritor britânico] por exemplo. Ele era acionista de uma companhia de tráfico de escravos. Thomas Jefferson, que escreveu a declaração de independência dos EUA dizendo que todo ser humano nasce com direitos iguais, era dono de um plantel enorme de escravos. Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, era dono de meia dúzia de escravos no ano que foi morto, no Rio de Janeiro.

P. Os países precisam pedir perdão pela escravidão?

R. Creio que sim. É uma questão de honestidade, algo simbólico, porque foi um massacre, uma tragédia humanitária de grandes proporções. Agora, tenho dúvida se seria possível pagar essa dívida. Hoje, na África, há uma elite que é herdeira militar beneficiada pelo tráfico de escravos, aliado aos europeus. O rei Ashanti, em Gana, era fornecedor de cativos para ingleses e holandeses. Quem vai indenizar quem? É difícil. Acho que uma atitude política de pedir perdão é importante. O Papa João Paulo II fez isso ao visitar a ilha de Goreia, em Senegal. Não foi pela Igreja como um todo, mas pelos católicos que se envolveram no tráfico de escravos. É algo importante para ir diminuindo essa ferida. As cotas preferenciais para afrodescentes em escolas e postos da administração pública. Mas o simbólico também ajuda. Há uma dívida histórica que precisa ser enfrentada por palavras e gestos concretos.

P. O livro diz que para cada 100 habitantes do Brasil durante a escravidão, 86 eram escravos e 14 colonos brancos. Por que não houve uma rebelião, por exemplo? O que sustentava essa sociedade?

R. Havia manuais que aconselhavam fazendeiros a não manter plantéis de mesma origem, cultura, língua ou região geográfica. Isso impedia que eles se rebelassem. Existia, também, um sistema de premiação e punição. Se o escravizado fosse rebelde, era chicoteado. Se fosse cooperativo, ganhava folga semanal, o direito de cultivar uma horta, de ir à missa e de ganhar sua própria alforria. O Brasil teve um altíssimo número de alforrias. Um historiador norte-americano, Donald Ramos, afirma que a alforria foi um dos sistemas de controle mais eficientes do sistema escravista, porque ele oferecia ao cativo uma oportunidade de conquistar a liberdade e de escapar da escravidão. Há um estudo do historiador Manolo Florentino que diz que apenas 5% dos escravos brasileiros se rebelaram, fugiram e formaram quilombos. A principal forma de resistência era tentar ocupar os espaços que a sociedade escravista dava para o escravo se aproximar do universo dos brancos. Participar das irmandades religiosas, como a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Ifigênia, dava um "status social" para o escravo, com um papel simbólico. Existia um branqueamento cultural: quanto mais rápido ele se distanciasse da cultura africana, mais "vantajoso" seria.

P. Você escreve que existia uma briga entre negros nascidos no Brasil e os crioulos. Como era isso?

R. O crioulo era o escravo de primeira geração nascido no Brasil. O negro boçal era o recém-chegado, também chamado de "preto novo". O sujeito nascido no Brasil se julgava superior, porque ele havia migrado para o universo dos brancos. Ele já tinha constituído família, falava a língua portuguesa, participava das irmandades religiosas e possuía o código da sociedade colonial portuguesa. O escravo chegado da África, não. As rebeliões aconteceram justamente nesse universos dos escravos recém-chegados. Palmares, por exemplo, era formado por negros Jagas de Angola, que se rebelaram no final do século 16, e fugiram para a Serra da Barriga, em Alagoas. A Revolta do Malês, de 1835, foi feita por negros muçulmanos, na Bahia, oriundos da Nigéria. As revoltas, fugas e quilombos ocorreram quase sempre por duas razões principais: crise na sociedade branca, como no caso de Palmares, ocorrida durante guerra contra os holandeses, ou em decorrência da homogeneidade étnica e a concentração de africanos que falavam a mesma língua e possuíam afinidade cultural.

P. Você consultou fontes de testemunhos de escravos para fazer o livro?

"Existia um branqueamento cultural: quanto mais rápido ele se distanciasse da cultura africana, mais 'vantajoso' seria"

R. Pouco. Infelizmente, a história da escravidão é contada por pessoas brancas. Capitães de navios negreiros, viajantes europeus que visitaram o Brasil ou a África no período. Existem alguns depoimentos e biografias relativamente raras. Outra fonte preciosa para ouvir os escravos são inquéritos policiais quando eles eram acusados de crimes. Tem inquéritos da Inquisição Católica que relatam escravos presos e levados para Portugal acusadas de feitiçaria e de contrariar a doutrina da Igreja. O principal quilombo do Brasil, Palmares, não tem nenhuma fonte a partir dos quilombolas. Tudo que se sabe de Palmares são de relatórios e de expedições militares enviadas ao local.

P. Sobre esse tema, você questiona a figura de Zumbi e sua luta contra a escravidão. Não é uma contradição refutar a história do principal líder negro usando relatórios utilizados pelo Exército, que era majoritariamente branco?

R. De certa forma, sim. A história da escravidão é um assunto sensível, porque há uma guerra de narrativas. E não é por acaso que abro este capítulo falando do calendário cívico brasileiro, com o 13 de maio e a Lei Áurea, e o 20 de novembro, da Consciência Negra, com a morte de Zumbi. É uma guerra em andamento pela memória da escravidão. Não tomo partido se o Zumbi era abolicionista ou um grande general comparado a Napoleão Bonaparte ou Alexandre o Grande, como alguns historiadores negros tentaram fazer. O que eu mostro é a construção do Zumbi como herói nacional. Chego a conclusão que o verdadeiro Zumbi não está nos documentos e que há pouquíssima coisa. O que se sabe é a partir da história branca. O verdade Zumbi está na cabeça das pessoas, é um herói mítico. Agora, sem dúvida, se trata de um herói negro brasileiro, que se contrapõe à Princesa Isabel. Coloco no livro coisas curiosas que dificultam a construção desse herói, como a história do Luiz Mott [antropólogo], que levantou a hipótese de que Zumbi fosse gay. Ninguém incorporou esse herói gay, porque vivemos em um país homofóbico, misógino. Claro que tive muito cuidado para construir esse capítulo, porque ele mexe com um personagem muito importante para a identidade negra, mas eu não poderia fugir da raia e comprar uma história que não existe nos documentos. Quis mostrar diferentes narrativas e versões para que o leitor entenda que a história não se faz apenas de personagens reais e concretos, mas também de projeção mitológica.

P. Quando você terminou o livro, alguém negro leu?

R. Não. Passei para dois africanistas: o embaixador Alberto da Costa Silva e Irene Vida Gala. Eles me deram contribuições muito importantes. A Irene me chamou a atenção para algo que tento deixar evidente: os diferentes olhares sobre a escravidão. Existe o olhar negro, o olhar branco e olhar atento, que é onde me enquadro. Mas não tentei preencher cotas. Seria hipocrisia da minha parte tomar esse tipo de atitude, porque não fiz isso nos meus outros livros. Seria apenas relações públicas. Ao falar da proclamação da República, não chamei um republicanista e um monarquista para dar diferentes opiniões.

P. O que poderia ser uma segunda abolição no Brasil?

R. Acho que é o nosso principal desafio no século XXI. Se você imaginar que a riqueza das nações não está mais nos recursos naturais, mas no capital humano, o Brasil nunca será um país decente, digno dos nossos sonhos, enquanto a imensa maioria da população não tiver educação, saúde e empregos decentes. Enfrentar a desigualdade social no Brasil é sinônimo de uma segunda abolição, porque a maioria dos pobres são negros. Por isso digo que não é só uma reparação histórica, mas um investimento no futuro. Essa é a principal agenda política daqui para frente, ainda que tenhamos um governo hostil. Isso é um tema represado do século XIX. Qualquer governo, partido político ou campanha eleitoral vai se defrontar com esse legado.

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Laurentino Gomes: “Infelizmente, a história da escravidão é contada por pessoas brancas” | Brasil | EL PAÍS Brasil (elpais.com)