Entrevista com Jesus Cristo

 PESQUISA BIBLIOGRÁFICA CIENTÍFICA (com IAC)

investigação realizada pelo Pr. Psi. Jor Jônatas David Brandão Mota
no programa de Graduação e Especialização em Estudos e Pesquisas 
uma das atuações do seu Pastorado4 



A grande importância de um artigo como este, para os estudo teológicos que temos feito, é compreender quem é Jesus para alguém fora do contexto religioso que aprendemos a conviver, e quem são os que se dizem cristãos para este mesmo contexto. Lembrando que Deus tem um grande amor para com estas pessoas e tem interesse que todos sejamos luz e sal para elas, mesmo que tenhamos que dar a outra face e andarmos uma segunda milha.


Numa entrevista exclusiva como você nunca viu, o filho de Deus mostra que é gente como a gente

www.brasil247.com -
 

Numa entrevista exclusiva como você nunca viu, o filho de Deus mostra que é gente como a gente.

Ricardo Nêggo Tom: Jesus, primeiro gostaria de agradecê-lo por ter aceito me conceder essa entrevista. É uma honra poder bater esse papo com o filho de Deus.

Jesus Cristo: Tom, meu filho, eu só aceitei porque era para o Brasil 247. Até falei para o Pedro, que é quem cuida da minha agenda, que se fosse para O Globo, Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, eu não daria. Gosto mais das mídias alternativas e progressistas. Tem mais a ver comigo.

Ricardo Nêggo Tom: Sei que a sua agenda é sempre lotada e que o senhor está sempre presente em todos os cultos, missas e eventos em seu nome que acontecem pelo mundo afora.

Jesus Cristo: Não é bem assim, meu filho. Você não acha mesmo que eu vou naquela marcha organizada por aqueles bispos que foram presos escondendo dólares dentro da Bíblia, ou que eu estou na Universal todas as sextas expulsando demônios das pessoas na sessão do descarrego, né?

Ricardo Nêggo Tom: Bom! Eu sempre tive uma desconfiança quanto a isso. Mas eles fazem o povo acreditar que o senhor está presente.

Jesus Cristo: Ah, mas esse povo aí acredita até que Deus é brasileiro.

Ricardo Nêggo Tom: E, não é?

Jesus Cristo: Meu caro, Tom! Você precisa fazer duas coisas. Uma, parar de acreditar nesses ditos populares. A segunda, parar de comer geleia de mocotó. Tem muita caloria.

Ricardo Nêggo Tom: Como o senhor sabe que eu como geleia de mocotó?

Jesus Cristo: Esqueceu que eu sei de tudo? Sei até que a primeira pergunta que vais me fazer é sobre religião.

Ricardo Nêggo Tom: Eu ia começar falando sobre religião mesmo. O cristianismo prega que o senhor morreu para salvar a humanidade e nos dar a vida eterna. Se isso é verdade, por que o mundo continua perdido?

Jesus Cristo: Você acredita em tudo o que o cristianismo diz?

Ricardo Nêggo Tom: E não é para acreditar?

Jesus Cristo: Sabe de nada, inocente. Aliás, esse bordão foi uma inspiração minha para o compadre Washington. Aquele ordinaaário. No bom sentido, é claro.

Ricardo Nêggo Tom: Então, o senhor não morreu para nos salvar?

Jesus Cristo: Eu fui morto porque bati de frente com o estado e com o sistema religioso da época. Joguei na cara deles toda a hipocrisia que eles adotavam no discurso, quando, na prática, faziam o contrário do que pregavam. Eu era uma ameaça para o sistema e para a autoridade dos sacerdotes e doutores da lei daquela época. Eu tentava salvar o povo das garras daqueles homens que abusavam do poder e os mantinham como gados. Foi um crime político.

Ricardo Nêggo Tom: Mas dizem que o senhor irá voltar para levar o seu povo...

Jesus Cristo: Não acredita nisso não, meu filho! Mas nem morto que eu volto aí. Para eles me matarem de novo? Quero papo com essa gente mais não. O que eu tinha para falar eu já falei. Quem ouviu, bem, quem não ouviu, amém.

Ricardo Nêggo Tom: E o que o senhor acha do dízimo? Eles dizem que o dinheiro é para a sua obra

Jesus Cristo: Nem que eu estivesse construindo o mundo novamente, eu gastaria tanto dinheiro. Se essa grana toda caísse na minha conta, daria para construir um céu para cada um dizimista. Isso aí é um imposto que os trouxas, digo, as ovelhas enganadas pagam achando que estão comprando um lugar no céu. Edita a parte dos “trouxas”, por favor. Pode chocar a sociedade.

Ricardo Nêggo Tom: Entrando no campo da política, alguns costumam dizer que toda autoridade vem de Deus e que Bolsonaro foi enviado por ele. Isso é verdade?

Jesus Cristo: Parafraseando o meu amigo Padre Quevedo, isto non ecziste!

Ricardo Nêggo Tom: O padre Quevedo era seu amigo?

Jesus Cristo: Sim, um querido. Viajava um pouquinho na maionese, mas era gente boa. Está aqui em cima com a gente. Mas voltando a sua pergunta, esse papo de que Deus tem candidato é balela. Vocês fazem a merda de eleger um miliciano adorador da tortura como presidente, e depois querem jogar a responsabilidade nas minhas costas? Assumam o B.O de vocês. Eu já fui crucificado uma vez por tentar ajudar. Não esquece de editar “merda” e “miliciano”. Pode chocar os cidadãos de bem.

Ricardo Nêggo Tom: E o que o senhor acha do Lula?

Jesus Cristo: Um bom candidato. Já ajudou os mais pobres da outra vez e pode ajudar novamente. Tem até algumas semelhanças com o meu evangelho no seu discurso. Eu votaria nele. Mas assim como a minha querida Anitta, quero deixar claro que eu não sou petista e não autorizo associar a minha imagem à sua campanha e nem de qualquer outro candidato.

Ricardo Nêggo Tom: O senhor chamou a Anitta de querida. O senhor gosta do trabalho dela?

Jesus Cristo: Não é o tipo de música que eu ouço. Eu prefiro coisas mais elevadas. Mas eu gosto da Larissa. Ela é meiga e abusada. Porém, também não autorizo que associem a minha imagem ao seu trabalho. Melhor evitar problemas.

Ricardo Nêggo Tom: E qual o tipo de música que o senhor gosta?

Jesus Cristo: Eu gosto de tudo um pouco. Menos gospel e sertanejo universitário. O gospel me irrita, porque quando eu estou querendo tirar um cochilo vem aquelas vozes clamando meu nome, me pedindo para fazer milagres, para curar isso, para expulsar aquilo. Uma coisa chata, repetitiva, sem criatividade. E só querem ganhar dinheiro com o meu nome também. Prefiro ouvir Gil, Caetano, Chico, Mano Brown, Emicida, Alcione, Seu Jorge, um pagodinho do Zeca, Legião Urbana, Clara Nunes, Pitty. Um funk sem baixaria e um bom rock in roll eu também gosto.

Ricardo Nêggo Tom: Mas o rock não é música do diabo, senhor?

Jesus Cristo: Não acredita nisso não, meu filho! Música do diabo é essa tal de sofrência. Meu sangue tenha poder!

Ricardo Nêggo Tom: Falando em diabo, recentemente, o presidente Bolsonaro disse que o senhor só não andava armado, porque não existia pistola na sua época. O que o senhor acha dessa declaração?

Jesus Cristo: Só se fosse para enfiar a pistola no mito dele. Perdão! Edita isso, pelo amor de mim mesmo! Só me vi tão irado assim, no dia em que destruí o templo daqueles mercenários da fé em Jerusalém. O que esse homem diz não se escreve. Ele deve estar me confundindo com alguns pastores que andam com ele e são envolvidos com a milícia.

Ricardo Nêggo Tom: O senhor estaria insinuando que tem pastores que andam armados e que são milicianos?

Jesus Cristo: Ah, se você soubesse o que eu sei, Ricardo. Risos celestiais.

Ricardo Nêggo Tom: Isso é muito grave, senhor. E por que não ages para eliminar essas pessoas do nosso meio? A Bíblia diz que o senhor destrói todo o mal e que tudo que acontece aqui é com a sua permissão.

Jesus Cristo: Tudo eu, tudo eu, tudo eu. Bem que eu falei com o meu pai, que também sou eu, que era melhor parar nos animais que já estava bom. Mas não. Vamos fazer o homem, depois fazemos a mulher para fazê-lo companhia e deu esse quiproquó todo no mundo. Eu nem recomendo muito a leitura da Bíblia, para que as pessoas não se afastem de mim. Quer dizer, do Deus que ela diz que é amor, mas que matou milhares de crianças primogênitas no Egito e vivia aconselhando a Moisés para castigar os desobedientes com a pena de morte.

Ricardo Nêggo Tom: Então, o senhor não tira todo o mal do mundo?

Jesus Cristo: Meu caro, Tom! Só no seu país existem 33 milhões de pessoas passando fome, entre elas, milhares de crianças. Você acha que sou eu quem quer isso? Porque eu permitiria tanta miséria? Nem o diabo quer isso, meu filho. Inclusive, outro dia ele falou comigo pelo WhatsApp que estava com pena do Brasil, por ter eleito alguém pior do que ele para presidente. Como eu já lhe disse, vocês precisam assumir o B.O de vocês. A culpa é minha se vocês elegeram um sujeito que disse que governaria para os mais ricos e que as minorias teriam que se adequar? Vocês elegeram um racista, machista, homofóbico, aporofóbico, um incentivador da violência que quer liberar arma para todo mundo, e acham que eu tenho que usar o meu poder para tirar esse mal do meio de vocês? Se virem! Ou tubro está chegando. Tirem ele nas urnas. Usem o livre arbítrio que eu dei a vocês. Eu hein! Parecem até os alemães que ficaram me enchendo o saco para livrá-los do Hitler, como se eu tivesse votado nele. Ora! Eu só não te mando para o inferno por me fazer essa pergunta, porque o inferno não existe.

Ricardo Nêggo Tom: Não?

Jesus Cristo: Eu disse, porque o inferno está cheio. Edita isso aí para não me chamarem de ateu.

Ricardo Nêggo Tom: E o que o senhor acha dos ateus?

Jesus Cristo: Olha, em verdade eu vos digo que eu gosto dos ateus, porque eles não ficam me pedindo coisas e não se lembram de mim apenas por interesse ou quando estão em apuros. Às vezes, eles pegam pesado comigo. Mas eu entendo a bronca deles. A culpa é desses líderes religiosos que pregam mentiras em meu nome e ficam falando que eu mando todo mundo para o inferno se não me obedecer.

Ricardo Nêggo Tom: O senhor aceita o casamento gay?

Jesus Cristo: Quem tem que aceitar são os noivos, meu filho. Eu não vou me casar com outro homem. Quero saber disso não. O que me incomoda mesmo é ver gente na rua passando fome e frio. Isso sim é uma abominação aos meus olhos.

Ricardo Nêggo Tom: E por que o senhor não acaba com a fome no mundo?

Jesus Cristo: Porque eu não sou dono de supermercado.

Ricardo Nêggo Tom: Me permita uma última pergunta, senhor.

Jesus Cristo: Seja breve, porque já vai começar a novela

Ricardo Nêggo Tom: Jesus assiste novela?

Jesus Cristo: Ué? Se eu vejo tudo o que vocês fazem, é natural que eu veja tudo o que vocês veem. Cada dia eu assisto um capítulo numa casa diferente. Hoje vai ser na casa da Dona Ermelinda, uma beata católica que vive rezando o terço, jura não assistir novela, mas não perde um capítulo de “Pantanal” Ô, velha mentirosa! Dá vontade de fazer ela engolir as contas do rosário, só para ela deixar de ser hipócrita. Edita aí o “velha” para eu não ser acusado de etarismo.

Ricardo Nêggo Tom: Perdão, senhor! Mas é estranho imaginá-lo vendo novela

Jesus Cristo: Mas você não acha estranho que eu cure doenças sem ser médico, que eu expulse demônios sem estar na Farofa da Gkay, ou que eu arrume emprego para alguém sem ser da Catho. Vocês só querem que eu trabalhe feito um escravo sem ter direito a lazer, né? Essa era a ideia da reforma trabalhista. Raça de víboras!

Ricardo Nêggo Tom: Não quis ofendê-lo, senhor! Para encerrar, uma pergunta que tem a ver com um ditado popular muito conhecido. A voz do povo é mesmo a voz de Deus?

Jesus Cristo: Como, se foi a voz do povo que mandou me crucificar, mesmo eu nunca tendo feito mal a ninguém?


fonte...   

https://www.brasil247.com/blog/entrevista-com-jesus-cristo?fbclid=IwAR3KPZTaO4ACKSMlcNs-4AKe0AKG-cBIXOJmtZE5l4SL1DCM4sylQoyuRlI


EVANGÉLICOS e o Fim justifica qualquer meio disponível

 PESQUISA BIBLIOGRÁFICA CIENTÍFICA (com IAC)

investigação realizada pelo Pr. Psi. Jor Jônatas David Brandão Mota
uma das atuações do seu Pastorado4



DOIS ARTIGOS:

(1) A bancada evangélica e seu projeto de poder

(2) Governo Bolsonaro faz aposta eleitoreira na mistura de política e religião


A bancada evangélica e seu projeto de poder

Teólogo Rodolfo Capler analisa a penetração das Igrejas Evangélicas no cenário político nacional e a degradante união entre religião e política partidária

Por Rodolfo Capler Atualizado em 28 jul 2021, 19h03 - Publicado em 28 jul 2021, 08h25

Os evangélicos começaram a se envolver na política brasileira na década de 1960, por meio da denominação O Brasil para Cristo, que à época, elegeu um deputado federal em 1961 e um estadual em 1966. Entretanto, as igrejas evangélicas só passaram a ter presença efetiva em nosso sistema político na década de 1980, com uma maior inclusão de parlamentares cristãos em 1986, com o fim do Regime Militar e início da Constituinte. 

Naquele período, a Igreja Assembleia de Deus foi a força propulsora da organização política dos evangélicos, se organizando desde a cúpula para lançar um deputado em cada unidade da federação.  Emplacando o slogan “Irmão vota em irmão”, as igrejas evangélicas (em sua maioria pentecostais), entraram de “corpo e alma” no jogo político. A formação de uma Bancada Evangélica só viria a ter preeminência no cenário político nacional no início da década de 1990, quando a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) formulou um plano político estruturado fazendo uma interface entre a Igreja e a Política por meio da aquisição (1989) da Rede Record de Televisão e Rádio e de sua utilização como ponte de comunicação com as massas. Por meio dos programas da TV Record os pastores midiáticos representantes da IURD e de outros grupos pentecostais e neopentecostais (como Silas Malafaia), começaram a abordar mais fortemente pautas políticas. 


A partir de 2003, esse processo se intensificou com a fundação da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional – FPE (popularmente conhecida como Bancada Evangélica), que segundo levantamentos da Câmara dos Deputados, em 2019, possuía o expressivo número de 203 parlamentares vinculados a sua base. Personagens como Marcelo Crivella (eleito prefeito do Rio do de Janeiro com 1,7 milhão de votos e hoje em prisão domiciliar por suspeita de corrupção), Eduardo Cunha e Kim Kataguiri (peças-chave na articulação que derrubou a ex-presidenta Dilma Rousseff), Bia Kicis e Eduardo Bolsonaro (deputados federais considerados líderes importantes do bolsonarismo), e Flordelis (deputada suspeita do assassinato do próprio marido), eram à época integradas à Frente Parlamentar Evangélica. 


Ancorada no projeto de poder político idealizado pelo bispo Edir Macedo – que em seu livro O plano de poder: Deus, os cristãos e a política, discorre sobre a importância de haver evangélicos na política e os conclama a se envolverem na vida pública como paladinos do bem -, a Frente Parlamentar Evangélica emerge defendendo seus principais interesses: a manutenção de seus privilégios – isenção tributária e concessões de TVs e rádios e o avanço de pautas conservadoras, como a proibição do aborto (mesmo para os casos legalmente previstos pela Constituição), a proibição da discussão sobre gênero, prevenção da homofobia nas escolas e o retrocesso de direitos de grupos vulneráveis, como os travestis e transexuais. Conforme a professora Bruna Suruagy, autora da tese de doutorado “Religião e política: ideologia e ação da ‘Bancada Evangélica’ na Câmara Federal”, a atuação dos parlamentares evangélicos se associa mais à preservação de um status quo do que à criação de novas leis. Ou seja, é uma representação muito mais combativa do que propositiva. 

Bancada Evangélica articula e alicerça seu projeto de poder por meio de dois pilares de sustentação do neopentecostalismo brasileiro: a Teologia da Prosperidade (TP) e a Teologia do Domínio (TD). A teologia da Prosperidade, que é alvo de críticas tanto por parte de não-cristãos como de cristãos, em linhas gerais ensina que os fiéis têm direito a saúde, bem-estar e boa situação financeira para desfrutarem na Terra os privilégios de serem “filhos do Rei”. Segundo essa teologia, a bênção de Deus na vida de um crente é autenticada pela prosperidade material.  

Já a Teologia do Domínio (Dominion Theology), inicialmente desenvolvida nos Estados Unidos e rapidamente proliferada nos seguimentos evangélicos brasileiros, em especial no Neopentecostalismo, se refere à concepção teológica de que a realidade – tanto física quanto espiritual -, se restringe à luta do cristão contra o Diabo.  Conforme essa interpretação a batalha do crente é travada contra demônios específicos, espíritos territoriais e hereditários, e, no caso do Brasil, contra os espíritos malignos identificados com os santos católicos e com os guias das religiões de matriz africana. De acordo com a jornalista investigativa Andrea Dip, autora de Em nome de quem? A bancada Evangélica e seu projeto de poder, a fusão dessas duas teologias é a grande responsável tanto pela ação política dos parlamentares da FPE (que intentam angariar cada vez mais privilégios e poder políticos e controlar os corpos e a sexualidade dos outros), quanto por seus comportamentos belicosos, persecutórios, hostis, violentos e inquisitoriais.  

+ Evangélicos entram em campo para ajudar Mendonça no Senado

A influência da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional é tema que merece um olhar atento de toda a sociedade, porquanto, é um processo político e social que apresenta, em seu cerne, a aproximação de uma extrema direita reacionária com um projeto de poder que se desenha por uma parcela significativa das Igrejas Evangélicas, cujo número de fiéis e de parlamentares no Congresso vem crescendo a cada nova legislatura. 

Em vista disso, o maior perigo oferecido pela FPE é a homogeneização dos sujeitos políticos por meio da obstrução e da destruição da multiplicidade de pensamentos.  Hanna Arendt já alertara em seu ensaio O que é política? que a verdadeira política é um lugar de aparecimento de rostos, diferenças e intervalos no qual explode singularidades. Portanto, a Frente Parlamentar Evangélica com seu projeto de poder é uma ameaça a nossa democracia, visto que conspurca a arte da política e prossegue em instrumentalizar a fé cristã para fins políticos. 

Se os brasileiros continuarem a eleger representantes identificados com esse nefasto projeto de poder, o país amargará cada vez mais a degradação da religião cristã, bem como o enfraquecimento da democracia. Infelizmente, temos experimentado ambas as coisas – oxalá não se perpetuem. 

Rodolfo Capler Pesquisador, teólogo e escritor


Fonte...   https://veja.abril.com.br/coluna/matheus-leitao/a-bancada-evangelica-e-seu-projeto-de-poder/





Governo Bolsonaro faz aposta eleitoreira na mistura de política e religião

A defesa dos interesses da Universal em Angola — uma violação à Constituição — é o exemplo mais recente da aproximação Igreja-Estado no Brasil

Por Eduardo GonçalvesJoão Pedroso de Campos Atualizado em 23 jul 2021, 18h15 - Publicado em 23 jul 2021, 06h00

Uma das grandes conquistas no desenvolvimento do mundo ocidental, a separação entre Igreja e Estado é de uma engenhosidade sofisticada por preservar ao mesmo tempo as duas instituições: garante a liberdade religiosa e evita que um credo tenha privilégios públicos. No Brasil, essa barreira foi erguida a partir da Proclamação da República e a posição acabou sendo ratificada por todas as constituintes a partir de 1891. Em mais um dos muitos retrocessos promovidos na era Bolsonaro, ocorre agora no país um perigoso ataque a esse muro civilizatório. Nenhum outro presidente misturou tanto religião e Estado quanto o atual — algo, aliás, expressamente proibido pela Carta Magna. No exemplo mais recente da confusão, em meio à conferência de chefes de Estado de países de língua portuguesa, em Angola, o vice-presidente Hamilton Mourão gerou desconforto ao tratar na missão paga pelos cofres públicos brasileiros de assuntos particulares da Igreja Universal. Sob pressão de sua base política-evan­gélica, Bolsonaro pautou-o para tentar interceder na crise que tirou da instituição criada pelo bispo Edir Macedo o controle de centenas de templos naquela nação africana.

Tal pecado diplomático ficou claro diante da firme posição de Angola de não misturar as coisas. O presidente do país, João Lourenço, sempre tentou manter distância do problema da Universal por entender que não é uma questão de Estado. Ele nunca se pronunciou publicamente sobre o caso, que hoje é investigado pela PGR de lá por denúncias de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e discriminação racial. “Trata-se de uma igreja e não de uma empresa multinacional na qual o Estado brasileiro tenha algum interesse”, disse a VEJA o pastor Jimi Inácio, porta-voz da dissidência local que hoje comanda os mais de 200 templos da Universal no país e é reconhecida pelas autoridades locais. Angola foi o primeiro país da África onde a igreja fincou bandeira, em 1992, mas na África do Sul ela tem mais templos, cerca de 300. Não à toa, Bolsonaro indicou o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo, para a embaixada do país mais desenvolvido do continente. A decisão — mais uma em que o presidente coloca os interesses da igreja acima dos da nação — ainda precisa ser aprovada pelo Senado.


MISSÃO - Mendonça, rumo ao STF: a despeito do ótimo currículo, pesou mais o fato de ser “terrivelmente evangélico” -
MISSÃO - Mendonça, rumo ao STF: a despeito do ótimo currículo, pesou mais o fato de ser “terrivelmente evangélico” – Reprodução/Instagram


O espírito por trás da desastrada ação do vice-presidente em Angola faz parte de uma política de um governo que adotou desde a posse o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Essa enorme e perigosa confusão entre Igreja e Estado é visível em várias frentes da gestão Bolsonaro. Outro exemplo recente é a escolha de um ministro “terrivelmente evangélico” ao Supremo Tribunal Federal. Ela acaba de ser concretizada, com a indicação do nome do advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça André Mendonça. Mas, como se sabe, o que pesou mesmo na decisão foi o título de pastor presbiteriano (algo que desmerece o próprio Mendonça, dono de um ótimo currículo para o cargo). O primeiro escalão do presidente tem ainda pastores na Educação (Milton Ribeiro, presbiteriano, como Mendonça), e na pasta que trata de Mulher, Família e Direitos Humanos, com Damares Alves, que já ministrou cultos na Igreja do Evangelho Quadrangular e na Igreja Batista da Lagoinha. Em poucos meses no cargo, em uma única entrevista, Ribeiro foi capaz de associar a homossexualidade a “famílias desajustadas” e educação sexual em escolas a “erotização das crianças”. No ano passado, assessores de Damares foram enviados ao Espírito Santo para acompanhar de perto o caso de uma menina capixaba de 10 anos que ficou grávida após ter sido estuprada por um tio. A presença deles ali foi interpretada como uma forma de pressão de Damares para evitar a realização de um aborto legal (algo que a ministra nega). “Em governos anteriores, se um presidente se dizia cristão, isso interferia na política dele relativamente pouco”, diz Renato Janine Ribeiro, ministro da Educação no governo Dilma Rousseff e recém-­eleito presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

CRUZADA - Damares: pregação radical contra a legalização do aborto -
CRUZADA - Damares: pregação radical contra a legalização do aborto – Cristiano Mariz/VEJA

Agora, a ingerência é constante. A imposição de determinadas agendas ou de uma visão de mundo de acordo com a fé é nítida, com prejuízos ao país em diferentes níveis. Entre outras coisas, impede discussões racionais sobre temas como aborto e drogas (questões que deveriam ser tratas apenas no âmbito das políticas de saúde) e respinga até em temas como a possível legalização de cassinos (hipótese demonizada pelos evangélicos). Não raro, as instituições precisam reagir duramente para conter as tentativas de interferência religiosa. Durante a pandemia, já em sinal de alinhamento estreito com o Palácio do Planato, Mendonça, à frente da AGU, defendeu no STF a reabertura de templos religiosos citando três trechos da Bíblia. Perdeu a ação e acabou sendo ironizado por Gilmar Mendes: “Parece ter vindo de Marte”, disse o ministro. Na verdade, em sua recente campanha pela indicação ao STF, Mendonça deixou claro que deseja estar mesmo mais próximo do Reino dos Céus. Segundo a pregação neopentecostal, o movimento de elevação deve começar a ser implementado no tempo presente. Em fevereiro, em visita à gigantesca Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo, ele seguiu o preceito, discursando no púlpito que “se tem um cargo que é importante, é o de ministro do Evangelho”.

+ Mendonça ganha apoio na comunidade judaica ao STF

Bancada evangélica na Câmara dos Deputados em Brasília

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Não foi por acaso o movimento de indicação ao STF de um ministro com o perfil dele. Com a ascensão evangélica entre a população brasileira nas últimas décadas (projeções indicam que esse segmento deverá ultrapassar o dos católicos até 2032), as lideranças dessa corrente, sobretudo entre as poderosas neopentecostais, passaram a ser recebidas com frequência no Palácio do Planalto, o que aconteceu nos governos de FHC, Lula, Dilma e Temer. Bolsonaro, no entanto, alçou-os ao posto de conselheiros. Eles dão palpites sobre diversas áreas da República, da economia à saúde. “O presidente incorpora boa parte dos fundamentos que estruturam a ação dos grupos evangélicos, como tratar meios de comunicação como nocivos ou o negacionismo científico”, afirma o cientista político Luís Gustavo Teixeira da Silva, professor da Universidade Federal de Pelotas e estudioso da laicidade do Estado. Curiosamente, essa forte ligação atual de Bolsonaro com o mundo evangélico não é muito antiga. Em 2016, ele foi batizado nas águas do Rio Jordão, em Israel, por Everaldo Pereira (no ano passado, o pastor e deputado foi preso sob a suspeita de ser um dos líderes de esquemas de corrupção durante o governo de Wilson Witzel). Desde a conversão, o presidente vem aprofundando o proselitismo. Há dois anos, tornou-se o primeiro mandatário da nação a ir a uma Marcha para Jesus, onde foi apresentado como “homem de Deus”. E, nos últimos meses, em que viu a sua popularidade cair, intensificou a agenda em cultos e missas — que passaram a ser até transmitidos ao vivo pela TV pública.

A comutação de Bolsonaro acompanha o fenômeno da multiplicação evangélica no país e o consequente crescimento da representação política dessa fé no Congresso. A bancada evangélica passou de 27 deputados na eleição de 1994 a 85 em 2018. Oficialmente, a Frente Parlamentar Evangélica ainda tem a assinatura de 195 deputados — além dos evangélicos, a turma inclui católicos e simpatizantes. Essa representação possibilitou barrar propostas que já avançaram há tempos em outros países, como a descriminalização do aborto, fora o excesso de energia gasto em reuniões e comissões só para discutir questões como banheiros unissex nas escolas. Parlamentares do grupo também têm como prioridades conseguir concessões de rádio, liberação de alvarás de templo, perdão de dívidas milionárias e isenção fiscal. “O ingresso maciço de evangélicos na política decorreu de uma instrumentalização mútua: as igrejas tentando instrumentalizar a política, partidos e Estado em interesse próprio, enquanto partidos, candidatos e governantes passaram a demandar apoio das bancadas evangélicas e dos pastores no período eleitoral”, diz o sociólogo Ricardo Mariano, professor da USP e autor do livro Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil.


Hoje, com muito mais penetração do que os católicos na classe mais pobre da sociedade, em que muitas vezes o Estado não está presente, as igrejas evangélicas ainda desempenham um papel importante no conforto espiritual e até mesmo material dos moradores dessas comunidades. “O político que não entender a força que a igreja tem e quanto ela ajuda a sociedade com certeza sairá perdendo na eleição e já nasce morto na campanha”, diz o pastor Luciano Luna, que é coordenador de assuntos religiosos do PSDB-­SP e já participou de mais de seis campanhas fazendo o meio de campo entre políticos e líderes religiosos. Funções como a de Luna passaram a ser regra dentro dos partidos políticos, da esquerda à direita. Exemplos não faltam: o ex-presidente Lula (PT) estuda preparar uma “carta aos evangélicos” no mesmo molde da célebre Carta ao Povo Brasileiro, de 2002; o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) lançou vídeos comparando a Bíblia à Constituição; e o governador João Doria (PSDB) já planeja visitar os templos assim que terminar as prévias do PSDB para definir o candidato do partido à disputa presidencial de 2022. Para o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, o voto evangélico é mais importante que o de outras religiões, como a católica, porque os fiéis se comportam como irmãos na fé também ao votar: “Muitos evangélicos não o são apenas no dia de culto e nas condutas, mas também nas dimensões que na sociedade são externas à religião, como a política”.

À DIREITA - Edir Macedo e Bolsonaro: a conversão à fé ocorreu em 2016, em batismo feito por Everaldo Pereira -
À DIREITA - Edir Macedo e Bolsonaro: a conversão à fé ocorreu em 2016, em batismo feito por Everaldo Pereira – Alan Santos/PR

Esse tipo de participação, evidentemente, é legítimo, mas vira um problema quando se transforma em um poder que passa a influenciar as instituições. Em sociedades abertas e modernas, questões de foro íntimo, a exemplo da religião, não devem balizar o debate político e muito menos as políticas públicas, como ocorre no Brasil da atualidade. “Quando se pretende impor um tipo de concepção específica, se acaba por reduzir a liberdade das pessoas e a limitar o pluralismo dessa sociedade”, diz Couto, da FGV. Considerado o pregador mais influente dos Estados Unidos, o pastor Billy Graham sintetizou os riscos de misturar Igreja com Estado em circunstâncias como a que enfrentamos hoje por aqui. “Me incomodaria que houvesse casamento entre o fundamentalismo religioso e a direita política. A extrema direita não tem interesse na religião, exceto para manipulá-la”, disse Graham em 1981.

Lula com o líder da Universal: voto evangélico tornou-se fundamental para todas as vertentes políticas
À ESQUERDA - Lula com o líder da Universal: voto evangélico tornou-se fundamental para todas as vertentes políticas – Bruno Miranda/Folhapress/.

Em sociedades completamente laicas, questões privadas como a sexualidade também não deveriam pautar o debate político. Em um ambiente contaminado pelo extremismo, no entanto, políticos como o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), pré-candidato à Presidência que se declarou gay em uma entrevista recente, podem trazer o assunto à baila até como modo de evitar ataques futuros. “Se vai ter algum tipo de consequência política, é difícil dizer. O timing para a declaração dele foi propício, mas o eleitorado brasileiro também é muito conservador, sobretudo do campo do Eduardo Leite, e pode ser que o saldo seja negativo”, afirma Gustavo Gomes da Costa, professor de sociologia da UFPE e pesquisador da participação LGBT na política institucional.

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EXTREMISMO - Guerreiros no Afeganistão: o risco das sociedades baseadas em textos religiosos -
EXTREMISMO - Guerreiros no Afeganistão: o risco das sociedades baseadas em textos religiosos – Saeed Khan/AFP

No Brasil, ironicamente, a laicidade do Estado foi amplamente defendida pelo segmento evangélico na época da Constituinte — isso porque se temia que o catolicismo voltasse a ser considerado religião oficial do país. Apesar de o Brasil ainda estar distante de regimes teocráticos, como os do Irã e Afeganistão, onde os cristãos evangélicos chegam a ser perseguidos, é importante permanecer vigilante sobre qualquer ameaça de fusão entre estado e religião. “A separação entre Igreja e Estado garante que pessoas muito diferentes possam conviver bem socialmente. A democracia exige a laicidade do Estado”, diz Renato Janine Ribeiro. A pastora luterana Romi Bencke, que junto com outras lideranças religiosas assinou um pedido de impeachment contra o presidente neste ano, entende que a atitude de Bolsonaro agravou um problema já existente. “Na minha opinião, a ideia democrática de laicidade não foi compreendida no país. Basta ver que algumas políticas, principalmente as reivindicadas pelos movimentos de mulheres, sempre foram medidas com a régua religiosa doutrinária dogmática, o que não deveria acontecer”, observa a pastora.

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A influência protestante no mundo político não é nenhuma novidade no mundo. E ela foi fundamental em momentos-chave da história, como no movimento abolicionista da Inglaterra e na campanha dos direitos civis nos Estados Unidos liderada pelo pastor batista Martin Luther King. Na Alemanha, um dos países que mais leva a sério a laicização do Estado, a premiê Angela Merkel pertence ao partido União Democrata Cristã. O perigo, no entanto, se manifesta quando a fé passa a ser manipulada pelos políticos de acordo com os seus interesses, seja para criar inimigos a ser eliminados (o mal) ou para blindar de críticas os seus representantes tidos como ungidos divinos. Aliás, o termo “fundamentalismo”, que é usado para definir as teocracias islâmicas da atualidade, nasceu de um grupo de protestantes americanos do começo do século XX, que pregava uma sociedade baseada nas regras bíblicas contra a ameaça “modernista” e tinha como base o livro intitulado The Fundamentals. Felizmente, o Brasil encontra-se longe das teocracias, mas os casos extremos mostram o risco de se aprofundar a mistura de religião com Estado. O país não precisa de ministros terrivelmente evangélicos — precisa, sim, de homens públicos eficientes, honestos e de bom senso, independentemente de sua fé.

Com reportagem de Caíque Alencar

Publicado em VEJA de 28 de julho de 2021, edição nº 2748


Fonte : https://veja.abril.com.br/politica/governo-bolsonaro-faz-aposta-eleitoreira-na-mistura-de-politica-e-religiao/